Domingo, 06 de Março, 2016

 

Ritmo de queda no PIB diminui esse ano

Sir Isaac Newton, o grande matemático criador do Cálculo Diferencial e Integral, tentou a sorte no bolsa de Londres apostando nas ações da Companhia dos Mares do Sul. Ele fez uma primeira previsão, ganhou bastante, achou que estava correto e reinvestiu novamente. Quando Newton tinha uma boa fortuna, resolveu vender as ações e ficar de fora do mercado.

No entanto, Newton observou que os amigos estavam ganhando ainda mais com as ações da companhia. E aí, Newton errou. Resolveu voltar quando as ações estavam muito alavancadas. As ações já estavam no limite de sua valorização, e mesmo o grande Newton errou sua previsão achando que elas ainda subiriam mais.

Toda sua fortuna praticamente virou pó. Estima-se a dolar de 2003 que Isaac Newton tenha perdido algo por volta de US$ 3 milhões, ou doze milhões de reais.

Existe uma frase atribuída a Newton (existem muitas lendas) em que ele teria dito: "Posso prever com meus modelos os movimentos dos corpos, dos planetas, mas nunca a loucura dos homens". E Newton desistiu da bolsa.

Isso demonstra que devemos ter conhecimento do limite de nossos modelos. Eles podem sim falhar, e se apostar alto a falha pode causar um caos na vida financeira. Confiar demais e valorizar demais um modelo como "invencível" é atirar no próprio ego. Nas últimas semanas, previsões dos "maria vai com as outras" surgiram a todo momento sobre o PIB. É só catástrofe que se lê nos jornais, só previsão sombria, só desânimo.

A pegunta que fica é: "Qual foi a primeira consultoria que fez a previsão?" Ou então outra pergunta:"Qual o modelo matemático que usou para prever o PIB do último trimestre desse ano?". Sim, porque deve ser uma empresa de gênios, deveriam ganhar prêmio Nobel para chamar a imprensa e alegar que o país vai quebrar, que o PIB vai derreter, que o mundo acabou para o Brasil.

Certamente não usaram nenhum modelo, ou quando máximo, apenas a "linha de tendência" já pronta no Excel. E uma última pergunta: Quantas vezes essa consultoria acertou alguma coisa?"

Essa é uma pergunta importante, pois muitas pessoas do mercado financeiro acham que acertar é ir fazendo uma série de previsões erradas ao longo do ano, e ir corrigindo semana a semana, até um dia antes da divulgação oficial dos dados. Isso não é consultoria, é charlatanismo!

No dia 17 de Setembro de 2013 escrevemos que o PIB brasileiro iria começar a cair (ver "PIB brasileiro pode cair"). Na época o ministro da Fazenda Mantêga dizia que a previsão era de 4%. Claro que todo mundo sabia que isso era impossível, mas mesmo as empresas de consultoria do Brasil diziam no início do ano que o PIB ficaria em 3%. E o PIB foi caindo, caindo até chegar em 2,3%.

Ao final do ano, todas as consultorias "acertaram", pois semanalmente essas consultorias vão refazendo as contas a cada novo dado e no final, é óbvio que vão colocar erros baixíssimos. Isso garante o cliente da consultoria mais um ano, com volumoso valor de contribuição. Mas quando se compara com as previsões do início do ano, todas erraram.

Já explicamos em nossos textos, diversas vezes, que não tem sentido previsão para um horizonte muito longe e distante de onde os modelos ainda são válidos. Fazer previsão de dolar para o final de 2017 é um exercício de cartomante. Podem acertar? Claro, mas mudando semanalmente os dados todo mundo pode acertar.

Ao reler nosso texto de 2013 o leitor poderá verificar que deixamos nossa previsão com o uso do modelo AR, ou , Autoregressivo. Dissemos também que esse modelo é o mais simples, o mais rápido e sem muita sofisticação, mas que ainda assim era um bom modelo.

Esses modelos advém da metodologia estatística conhecida como Séries Temporais, importântíssima para a boa compreensão dos dados econômicos. Mas todo modelo de série temporal tem o horizonte confiável de apenas um passo à frente e não mais do que isso. Se acertar além disso é ... sorte!

Ao lado colocamos e comparamos nossas previsões usando o AR com os dados reais do IBGE para a variação do PIB. O IBGE demora para soltar os dados trimestrais, e tem pelo menos dois anos para ficar revisando. Assim, uma primeira divulgação ainda não é divulgação final do PIB trimestral.

Em nosso modelo, não usamos absolutamente nada de informação sobre transações, contas a receber, contas a pagar, superavit, deficit, nada do que as empresas de consultoria tem em mãos.

Apenas usamos dados trimestrais do própio PIB, comparando um trimestre com seu respectivo trimestre de um ano antes.

O leitor poderá verificar que mesmo assim, meses antes da divulgação final e corrigida do IBGE, nosso erro foi de apenas 2% para o PIB do terceiro trimestre de 2013. O modelo se ajustou aos dados para prever o próximo trimestre e o erro foi baixíssimo.

Mas e o quarto período? Conforme nós já discutimos, o poder de previsão cai. E o erro foi aumentando, sendo de 14% no último trimestre de 2013 e mais de 100% para o primeiro de 2014.

Nosso máximo poder usando séries temporais é apenas para um período à frente, mas podemos notar que a tendência de queda se acelerou para os mêses seguintes, tendência essa que foi se comprovando.

A figura ao lado mostrava na época uma queda constante do PIB, com os círculos em vermelho signficando os dados da previsão.

Resultado da previsão do PIB

 

 

 

 

 

 

 

 

Previsão do PIB em 2013

Previsão do PIB para os próximos trimestres de 2016

 

 

Resolvemos refazer esse exercício com o mesmo modelo AR - autoregressivo simples e "brincar" de previsão como os analistas bem pagos fazem.

Um AR não é uma reta, não é uma linha de tendência do Excel, mas uma metodologia sofisticada que leva em conta as oscilações e variações cíclicas para estimar os valores futuros.

Os parâmetros foram reestimados para a mesma série de dados do IBGE, mas agora atualizados para esses novos trimestres.

Os círculos vermelhos dentro do retângulo de 2016 são as previsões do modelo AR.

O resultado que deixaremos para comparação futura, semestre a semestre é:

2016- T1 : -4,93%

2016- T2: -3,71%

2016- T3: -2,70%

2016- T4: -1,93%

Será?

Talvez o melhor valor seja e mais próximo da realidade seja o primeiro trimestre de 2016, algo em torno de -4,93% (negativo). O erro dessa previsão deverá ser menor do que as seguintes.

A tendência mostra uma reversão das quedas, o que poderá ser recuperação para o PIB. Se isso realmente for verdade e se o modelo AR estiver correto, talvez poderemos afirmar no segundo semestre que o pior já passou. Se a CPMF for aprovada, o governo terá mais massa monetária para trabalhar, mas resta saber se vai saber trabalhar.

Para que o aumento real do PIB aconteça, cortes em gastos desnecesserários devem continuar. Até o momento os cortes de ministérios foram apenas maquiagem, e os dados são cruéis. Eles demonstram quando as coisas estão estranhas.

Se o PIB ainda está caindo é porque o deficit ainda está aumentando, curso esse tomado, pois os cortes não foram às vias de fato.

Mas além do governo, o que não dá para aceitar são previsões de "dedo". Aquelas previsões que saem nas capas da mídia, mas que temos certeza que o analista levantou o dedo para cima para descobrir o sentido do vento e dos humores financeiros. Dados são números, modelos fornecem números como resultados, mas previsões futurísticas são "fofocas". E fofocas é coisa das antigas "lavadeiras de pedra de rio".

O estudo pode não ajudar na previsão correta, mas ajuda a descobrir porque se errou. "Achismo" não ajuda em nada!

 

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