Sexta-feira, 03 de Agosto, 2018

 

Michel Temer e Meirelles: A pá de cal na Ciência

 

No dia 26 de janeiro de 2018, em Davos, Michel Temer amparado pelo amigo Henrique Meirelles, tomou o microfone para seu rápido (e vazio) pronuncimanto e disse:

"... Nós temos um ministério especial nesta área, que é o Ministério da Ciência e Tecnologia, para qual, naturalmente, nós destinamos a nossa atenção ..."

O site da revista Piauí (Folha de S.Paulo) comparou essa frase e mostrou que a fala de Michel Temer é falsa. Nem precisava checar com números, basta olhar o estado que ele está deixando a educação no país. A Ciência nacional sob a tutela de todos os governos sempre teve altos e baixos, alguns lampejos de investimentos, mas quase sempre foi relegada ao segundo escalão.

A política e economia sempre foram as pastas mais vistosas, mais comentadas pela imprensa, enquanto a Ciência quando aparece sempre está nas entrelinhas. Basta ver o caso da medalha fields que o matemático brasileiro recebeu. Muito pouco se falou, apenas o óbvio por volta de uma semana e depois caiu no esquecimento.

Nessa semana, importante para a Matemática no Congresso Internacional mais famoso, o destaque de todos os jornais, não foi a divulgação sobre os avanços na "topologia algébrica", ou na "teoria dos conjuntos", ou nos "sistemas dinâmicos", mas sim, no roubo da medalha.

E também nessa semana, a estaca no coração e cérebro da Ciência nacional foi enterrada com toda a força por Michel Temer.

Michel Temer em Davos

A CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) divulgou uma nota nessa semana onde afirma que se cumprir a determinação do Ministério da Educação em cortar 11% do orçamento, 93 mil bolsistas perderão suas bolsas de estudo. E mais, cerca de 400 mil outros ligados a pesquisa em Educação e Ciência perderão bolsas e verbas de projetos.

A mídia nacional reagiu rápido, mas com ressalvas. Sempre do lado da PEC da maldade, aquela aprovada no ano passado onde os gastos não podem passar o orçamento anterior mais a inflação, criticaram de maneira velada essa brutal afronta ao desenvolvimento da Ciência. Pesquisas em genética, remédios, tecnologias de ponta como física nuclear, enfim, todos os tipos de estudos por profissionais brasileiros vão parar.

Seria essa mais uma maneira sarcástica de Temer para forçar a privatização do ensino e pesquisa nas universidades públicas?

Podem fazer a estatística que desejarem, sob qualquer aspecto. Mesmo sucateado, o ensino público é o maior e melhor representante de nosso desenvolvimento científico, seja em termos de artigos em revistas internacionais, seja em prêmios, seja em novas tecnologias desenvolvidas, novas ideias, tudo o que faz esse país se destacar na Ciência mundial, vem do ensino público superior.

Mas pode ser que não. Pode ser que a ignorância natural de Temer e seu baixo interesse pelo tema desde criança realmente o faz crer que essa área é importante para o discurso, mas não de fato. O jornal O GLOBO publicou no dia 13 de junho de 2018 o boletim escolar de Michel Temer, com destaque para a dificuldade de Temer com a Matemática.

Mas ter dificuldade em Matemática na infância é natural, é compreensível. Entender desse novo e desafiador mundo leva tempo, precisa de muito estudo, e quase sempre soa muito abstrato para uma criança de quarta série primária. Mas e a Ciência? Em Ciência não, existe uma vontade natural, um prazer natural das crianças para se conhecer planetas, olhar plantas nos microscópios, saber como a água se torna vapor, ou tentar entender como a luz se ascende. Quem tem filho sabe que isso sempre acontece em alguma fase da vida das crianças de maneira natural.

Mas não para Michel Temer.

Em seu boletim, em Ciência Natural, a criança Temer tirou notas como 2,5 e 3,0. Talvez seja daí seu estigma e vontade em ignorar um tema que para ele soasse como difícil, ou até mesmo, desprezível. Afinal, em sua cabeça, o mais importante era ter o dom da oratória com seus amiguinhos e talvez fazer os conchavos para se conseguir algo distante de seu alcance.

Podemos inclusive observar que por muito pouco ele não foi reprovado. A média final de Michel Temer em Ciência Natural foi 3,05, mas na composição com outras notas tais como trabalhos, apresentações, trabalhos em grupos, etc, podem ter elevado sua média para 6,1 permitindo-o passar de ano.

Boletim da 4a. série primária de Michel Temer (publicação O Globo)

Mas tudo bem, como criança devemos perdoar, faz parte do crescimento e da aprendizagem. Ir bem ou mal em disciplinas nessa fase não reflete ainda o caráter que a pessoa será. Mas ela precisa ser bem educada para corrigir seus erros, para realmente aprender o que é certo e o que é errado.

A criança precisa ser exposta à realidade para aprender regras básicas sobre como não prejudicar os outros, como não roubar, como não mentir, sempre dando prioridades para as coisas que fazem dela, sua família e toda a sociedade, elos importantes para crescer de forma feliz e progressiva.

Mas não parece ser isso o que aconteceu com Michel Temer.

Para ninguém achar que estamos criticamos agora essas medidas de cortes de Temer, demos o alerta de que tudo isso aconteceria em 14 de outubro de 2016 sobre a aprovação da PEC-241. Indicamos no texto "Ninguém precisa da PEC da maldade" que a PEC foi mal feita, mal elaborada e com explicações com dados e modelos de previsões assustadoramente maldosos pelos economistas.

Agora estamos colhendo o que foi escrito dois anos atrás. Educação e Ciência é investimento e não gasto! Sem perceber isso, vamos fechar as portas e irmos embora daqui. Não se constrói um país dizendo que existem "gastos com ensino e Ciência".

Henrique Meirelles defendeu e ainda defende essa PEC da maldade que paralisou o país de maneira totalmente desnecessária. No documento lançado por esses sujeitos e seus amigos economistas, com o título "Uma ponte para o futuro", pode-se ler alguns parágrafos onde eles escreveram que iriam dar atenção especial para a Ciência. Sem ela, eles afirmavam, o país não teria condições de crescer economicamente.

Cadê a atenção, senhor Meirelles?

Onde está a verba necessária para pelo menos manter em nível já deplorável a pesquisa nacional? É isso que a PEC da maldade está fazendo ao cortar verbas importantes no país. E vai fazer ainda mais coisas maléficas nos próximos meses se o próximo presidente não mexer e aperfeiçoá-la, readequando às necessidades de investimentos.

A CAPES foi criada em 1951 com o objetivo de assegurar aos quadros de profissionais do país quantidade e qualidade de mão de obra para o desenvolvimento científico e tecnológico.

A industrialização só foi possível pois tivemos a mão de obra especializada formada para engenheiros e físicos dentro do país.

Ao invés de enviar profissionais para fora afim de fazer mestrado ou doutorado e voltar para trabalhar, a CAPES foi responsável por trazer professores de fora e qualificar estudantes do Brasil com esses professores.

De maneira barata e oferecendo bolsas de ensino para que o estudante dedicasse integralmente em seu aperfeiçoamento, a CAPES deu um salto de qualidade nos profissionais acadêmicos e técnicos.

Junto com a CAPES outro órgão importante é o CNPq (Conselho Nacional de Pesquisa Científica e Tecnológica). A dirferença é que a CAPES está embaixo da pasta de Educação e o CNPq embaixo da pasta de Ciência e Tecnologia.

Graças a esses dois importantes órgãos é que temos hoje ainda, apesar das desgraças dos governantes, um certo reconhecimento internacional sobre nossos estudos.

Como pode ser visto ao lado, o orçamento da CAPES vem caindo ano após ano, desde que Michel Temer assumiu o governo.

 

 

Obviamente, como se pode notar, esses dados ainda estão defasados, pois demonstram valores com o orçamento de 2018. A partir de 2019 esse orçamento tanto do CNPq quanto da CAPES serão menores.

Mas em alguns setores da educação tem gente dizendo que poderá perder 50% do orçamento. Obviamente que setores da educação menores, com menos aparência e voz para criticar, vão sofrer cortes maiores.

Em 2015 o orçamento da CAPES era de R$ 7,65 bilhões, caiu em 2016 para R$ 5,845 bilhões, depois para R$ 5,121 bilhões em 2017 e agora em 2018 é de R$ 3,975 bilhões.

Michel Temer usou cerca de R$ 20 bilhões com a liberação das emendas no ano passado para não ser investigado. Pergunta: para onde foi essa verba?

Alguém notou em sua cidade novas escolas, novos hospitais, novos pavimentos, novas viaturas de polícias? Cadê esses 20 bilhões que tanto os deputados queriam para não investigar Michel Temer de seus crimes já denunciados?

Para piorar temos nomes errados nos lugares errados. Por exemplo, o ministro da Ciência e Tecnologia, o senhor Kassab, nunca nem mesmo chegou perto da área de Ciências.

Seu maior feito como prefeito de São Paulo foi brigar com os outdoors com sua lei da "limpeza visual" da cidade. Nunca se preocupou com a Ciência do município.

Quando falamos em Ciência de município, não estamos falando de "feirinhas de ciência" para crianças, ou caminhões com alguns livros infantis. Estamos falando em realmente construir Ciência de verdade, com salários melhores para que os professores do ensino fundamental se especialize em formas de ensinar Ciência.

O senhor Kassab está no ministério basicamente como um intermediário de acordos entre as empresas de telefonia e o governo federal.

Com ele, por exemplo, os canais de telecomunicação do mais caro satélite já comprado pelo Brasil estão nas mãos de uma empresa americana.

Sim, compramos um satélite com tecnologia dos EUA que agora será gerenciado por empresa .... dos EUA ! Que maravilha.

Até mesmo os canais voltados para a área militar poderão cair nas mãos da empresa americana. Claro que eles afirmam que não, que os canais militares são criptografados, que a segurança é total e que o objetivo é levar "banda larga para o maior número de pessoas aos confins do país".

Vamos traduzir assim. Eles não estão interessados em levar banda larga, mas vender mais telefones celulares do tipo Iphone para comunidades carentes.

A maldade da imprensa nacional é tanta que colocam em horário nobre imagens de crianças indígenas na frente de 8 computadores dizendo que estão felizes por ter internet. Quem será contra essa imagem? Ninguém.

No entanto o principal objetivo era exatamente preparar o terreno para que as empresas de telefonia chegassem primeiro nessas regiões para vender mais aparelhos. Esse foi o objetivo maior do senhor Kassab ao assumir a pasta de Ciência e Tecnologia. Ele nunca esteve e nunca estará preocupado em fomentar pesquisas, em correr atrás de verbas para pesquisadores.

E com isso, vemos uma CAPES, um CNPq definhando. O desânimo tomou conta de nossa Ciência há muitos anos e agora, graças a PEC-241, sim a PEC da maldade, Michel Temer e Henrique Meirelles jogam a pá de cal no defunto cientítico.

Mas existe um outro lado. Os cientistas também tem sua parcela de culpa. Não se vê como em outros países, cientistas juntos com professores em protestos, escrevendo textos em jornais, publicando protestos nas televisões, correndo os veículos de mídia contando o que acontece com a pesquisa nacional.

Em alguns jornais de debates estão dizendo que isso nunca ocorreria nos EUA, pois lá a pesquisa é 100% privada. Errado. Outra mentira da imprensa nacional.

Quando Donald Trump assumiu ele resolveu que cortaria a verba da NASA. A NASA tem sim orçamento junto às empresas privadas, mas o maior orçamento vem do governo americano. Contra o corte no orçamento, os cientistas dos EUA colocaram em todas as revistas de pesquisas do mundo, como Nature e Science protestos e dizendo os riscos que os projetos espaciais estavam correndo.

O Congresso dos EUA entrou em cena e garantiu o não corte no orçamento da NASA. Caso o corte tivesse ocorrido toda a grade da viagem à Marte feita por astronautas em 2031 seria atrasada.

Enquanto nossos cientistas ficarem apenas olhando para microscópios e telescópios, ou osciloscópios, a visão macro do governo continuará destruindo tudo ao redor da Ciência, comendo pelas bordas. E em breve, vão escrever em jornais que melhor do que desenvolver nossa Ciência é comprar. Tudo lá fora é melhor e mais rápido, além de mais barato, pois não tem que pagar salário de pesquisador.

Quem não protesta, acaba destruído pelo futuro. O futuro não perdoa o silêncio e a omissão. A CAPES demorou demais para colocar os fatos e aumentar o som de sua revolta. Resta saber se realmente agora, tardiamente, isso terá efeito.