Terça-feira, 20 de Janeiro, 2015

 

Parada Chinesa?

Em 1938, o professor Edward Kasner da Universidade de Columbia nos EUA, inventou um número como fator de diversão e para investigar o quanto nossa intuição sobre valores grandes e pequenos é limitada. Para isso, ele resolveu investigar e dar exemplos de comparação com um número que aparentemente não parecia chamar muito a atenção. O número significa o número 1 seguido de 100 zeros à sua direita. O nome que o professor Kasner deu a esse número foi googol (não confundir com google). Escrever esse número sem a representação exponencial acima fica difícil e complicado. Seria algo como isso:

Se perguntarmos para muitas pessoas nas ruas qual a idade do Universo, muitas afirmarão que é infinita. Outros vão afirmar que é trilhão de anos. Outros vão afirmar que o universo não existe, que tudo é invenção humana, invenção da nossa mente, e que existe um universo paralelo junto a outros universos. Enfim, dependendo da corrente que uma pessoa siga, seja ela religiosa, espiritual ou acadêmica, a resposta tem valores distintos.

Do ponto de vista científico, os dados convergem para 14 bilhões de anos. Sim, tudo o que conhecemos como Sol, estrelas, planetas, cometas, animais, tudo tem uma vida construída em "apenas" 14 bilhões de anos. As primeiras medidas sobre essa idade ainda foram piores e datavam de algo em torno de milhares de anos. O fato é que 14 bilhões é representado pelo número 14 seguido de 9 zeros. Apenas 9 zeros à direita do número 14 representa a idade do Universo.

Um busca rápida no wikipédia, podemos descobrir que se levarmos em conta os segundos, a vida do universo não chegou nem perto do googol. Em segundos, a vida de tudo que conhecemos tem apenas 4,7 seguido de 17 zeros de segundos de existência. Podemos então dizer que o total de grãos de areia na Terra deve ser maior do que o googol?

Não, nem mesmo isso. A quantidade de grãos de areia na Terra, se pudessem ser enfileirados e medidos, chegaria ao número 1 seguido de 40 zeros. Ainda faltariam 60 zeros para se chegar ao googol.

Isso serve apenas para ilustrar, que afirmar certas coisas em finanças ou economia requer um pouco de preocupação com números para não cair em tentação de dizer asneiras. Nessa semana foi divulgado o crescimento do PIB da China, e foi de "apenas" 7,4% em 2014. Muitos veículos de imprensa (por exemplo aqui) já correram publicar que a economia da China está parando e vai afetar o mundo todo.

O que se viu foi uma enxurrada de dados e comentários, alguns incluindo gráfico como esse à seguir.

Nossa, que assustador! Parece mesmo que a China está parando e teve um assustador resultado para os últimos anos. O mundo entrará em recessão, temos que nos preparar para pior! Ou então, como alguns consultores de catástrofes andaram publicando no ano passado, é "O fim do Brasil". Vamos embora e o último, por favor, apague a luz.

A verdade não é bem assim.

O que está diminuindo desde 2010 é a taxa de crescimento do PIB chinês. Mas poucos veículos de notícias tem comentado sobre quanto é o PIB chinês. O PIB (produto interno bruto) é a soma de tudo que é produzido (indústria, agropecuária, serviços), ou por um outro método, é a soma de tudo que é comprado (consumo de famílias, consumo do governo, investimentos do governo em exportações).

Ainda existe um terceiro método em que se calcula o PIB pela soma das remunerações (salários, juros, aluguéis, lucros distribuídos). Os três métodos fornecem no final resultados similares. Mas quando olhamos o valor do PIB, se não nos atentarmos ao efeito "googol", achamos que tudo é pequeno e perigoso.

Pois bem, o PIB chinês de 2013 foi de US$ 9,24 trilhão. O PIB do Brasil em 2013 foi de US$ 2,24 trilhão. Isso significa dizer, que se o Brasil for colocado à venda, a China poderá nos comprar quatro vezes. O PIB dos EUA foi de US$ 16,8 trilhão em 2013.

Em termos quantitativos, esses números todos são seguidos por 12 zeros em dolar americano. Claro que devemos ter em mente, que esse é um dinheiro teórico, e para ter valor, esse dinheiro precisa de lastro, ou seja, ter riqueza que sustente esse número inventado pelos economistas chamado de PIB.

De nada adianta ter números em trilhões de dolares, se a diferença entre as classes é enorme, como no Brasil, India e China. A desigualdade acaba sendo camuflada por esses números de riqueza e isso acaba no fim, afetando a capacidade de poupança do país, barrando seu crescimento.

Então, mesmo que a taxa de crescimento chinês reduza cerca de 0,3% de um ano para outro, ainda assim a riqueza chinesa é uma curva exponencial que em breve poderá bater o PIB dos EUA.

Na comparação ao lado, o gráfico de barras mostra a taxa de crescimento do PIB chinês, enquanto a linha tracejada com valores medidos no eixo à direita em %, nos apresenta a taxa de crescimento do PIB dos EUA.

É possível ver que somente no ano que passou, em 2014, o PIB americano começou a voltar a crescer.

O leitor deve observar que no início de 2014 a taxa foi negativa, mostrando que a riqueza dos EUA até diminuiu, enquanto ainda assim a China continuou crescendo.

Para quem é da área de Ciências Exatas, sabe muito bem, que uma coisa é você observar a conhecida "derivada" de um gráfico, e outra coisa é observar o próprio gráfico.

A imprensa usa a derivada para plantar terror de coisas ruins que estão (ou podem estar) por acontecer aos leigos dos jornais.

Comparação entre taxa de crescimento do PIB dos EUA e China

 

 

 

Comparação entre o PIB dos EUA e da China

Em vez de olhar a derivada, ou a taxa de crescimento, se olharmos o montante entre os dois países (EUA e China), podemos reparar que existe muito dinheiro para ser queimado.

O gráfico ao lado mostra o estado real das riquezas. Ou seja, se em vez de olharmos o quanto um país cresce de um período para o outro, se olharmos o quanto ele tem de riqueza, podemos perceber que uma queda de 0,3% não afetará em nada o gigante asiático.

O gráfico ao lado mostra em barras o valor "cheio" do PIB chinês. A China ainda continua com tendência de acumular muita riqueza.

E a linha tracejada mostra o "valor cheio" do PIB dos EUA. O valor medido para o PIB dos EUA deve ser visto no eixo da direita.

É possível observar que a linha tracejada do PIB dos EUA apresentou uma queda em 2008 até 2010. Isso mostra que os EUA ficaram menos ricos e perderam por volta de US$ 2 trilhões com a crise.

E se olharmos para a China, mesmo com a crise de 2008 o PIB continuou a crescer. A diferença entre o PIB dos EUA e da China em 2004 era de 84%.

A diferença em 2013 caiu para apenas 37,5%. No ano de 2014 podemos ver novamente essa diferença cair, pois o PIB dos EUA deve ficar entre 4% e 5% de crescimento. Novamente a China ganha mais 2% de riqueza em cima dos EUA.

 

Isso tudo nos mostra, que uma coisa é por exemplo você ter uma reserva de 100 reais na poupança e um salário de 10 reais por mês, que foi diminuído para 9,7 reais. Você vai diminuir seu poder de colocar dinheiro na poupança, mas só um pouco. Mas se sua poupança é de 12 reais e seu salário caiu de 10 reais para 9,7 reais, nesse caso sim, o impacto da poupança será enorme.

Por isso todos afirmam que o Brasil deve poupar, e muito. E quando se diz Brasil, estão dizendo que a população deve parar de comprar supérfulos e se endividar, pois isso corrói nossa própria riqueza. Sem poder de poupar, quando nosso fluxo de caixa diminui como está sendo previsto para esse ano, nós ficamos expostos aos abutres financeiros que vão cobrar juros altos para podermos construir hidrelétricas, melhorar a saúde e educação.

Além disso, claro, é mais importante acabar com a corrupção. E nesse caso temos que concordar com a imprensa, que é mais fácil o PIB chinês ficar negativo do que a corrupção diminuir no Brasil, e também entre a população que acha que a "lei do Gerson" deve continuar a imperar ("seja experto você também"). Ele próprio, o grande jogador Gerson, já revogou essa lei há muito tempo atrás, mas a população gostou tanto dela que continua usando.

Assim sendo, o investidor pode dormir tranquilo com relação a China. Ela ainda vai crescer e poderá, em breve, alcançar de vez os EUA. Não será por conta de sua riqueza ou pobreza que outra crise poderá ocorrer. Outra crise poderá ocorrer pela sua atitude de comprar mais, ou de comprar menos, mas não por causa de seu PIB.

 

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