Sexta-feira, 15 de Maio, 2015

 

Pátria Educadora?

Uma grande dúvida paira no ar. Qual o pior bordão de governo federal? Seria o "Esse é um país que vai pra frente" dos militares, ou "Brasil Pátria Educadora", do atual governo? Como em sã consciência a presidente Dilma aceita um bordão tão falso, tão fajuto e até mesmo ofensivo aos brasileiros? O Brasil nunca foi uma pátria preocupada com a educação e nem mesmo o é no atual momento contemporâneo. "Nunca na história desse país" tivemos governos realmente preocupados com a educação.

Tivemos e ainda temos, alguns redutos em cidades pequenas, com alguns prefeitos conscientes que mantém o ensino como uma de suas atividades e compromisso. Mas isso em cidades muito, muito pequenas. Em cidades de porte médio e grande, nem mesmo as escolas particulares do ensino médio estão preocupadas com a educação, mas apenas com o marketing que virá da aprovação dos estudantes no ENEM. Mais aprovados, mais outdoors, mais alunos, mais dinheiro.

Ensino? O que é ensino?

O ensino deveria ser a atividade de passar o conhecimento à frente, dos mais experientes para os mais jovens, mostrando o porquê do funcionamento das inúmeras atividades relacionadas ao estado da arte do saber. Ensino deveria estar diretamente ligado ao respeito de todos pela sala de aula, a magna estrutura do conhecimento. Ensino deveria ser o respeito de todos por aquele que devota seu tempo para preparar um material que vai transformar um ser bruto e irracional, num ser que pensa, analisa e toma decisões logicamente coerentes com o desenvolvimento da mente.

Mas não no Brasil, ironicamente chamada de "Pátria Educadora". Aqui nessa região do globo, o ensino se tornou apenas tabelas e gráficos para satisfazer as estatísticas dos marqueteiros políticos, para garantir sua corrupção em continuar nos cargos por anos e anos, causando mazelas na população.

Um exemplo? O que diz o gráfico à seguir?

Esse gráfico deveria ser orgulho nacional. É a quantidade de cursos de graduação que estão sendo abertos e pior, aprovados pelo MEC, desde o ano de 2003. Os dados são do INEP e estão no Censo Público da Educação de 2013. O censo do ano passado deve estar quase pronto para sair no segundo semestre. Mas quantidade de cursos, não significa qualidade de cursos, significa mais dinheiro, mais roubo, mais enganação.

Estamos utilizando um modelo falido de ensino, mas veja bem caro leitor, "falido" de ensino que enriquece donos e fundações particulares, que agora também possuem ações em bolsa de valores. A grande guerra do FIES não é porque os alunos não vão conseguir seu ensino e se tornar alguém. A guerra e bate-boca sobre FIES é promovido pelas próprias faculdades e universidades privadas que estão vendo seu fluxo fácil de caixa cair. Vejamos o gráfico à seguir, é sobre a comparação entre o número de formandos e número de cursos abertos no Brasil.

Em qualquer outro país civilizado, a queda no número de concluintes seria uma prova de "endurecimento" no ensino, de reprovação e somente a formação de quem realmente merece. Não no Brasil. Essa queda significa que os cursos estão tão banalizados, tão fracos, que qualquer botequim da esquina pode criar sua própria faculdade e aumentar a concorrência. Logo, com mais cursos, basta que um curso fique mais caro que o aluno desiste para ir para outro mais barato. Qualidade? Quem está pensando nisso?

O leitor pode achar que é exagero, que existem muitas faculdades privadas boas. Não, não existem muitas faculdades particulares boas, existem sim muitas faculdades. O gráfico ao lado pode explicar o porquê dessa afirmação.

Com exceção de universidades, onde ainda as públicas possuem um número de alunos quase ao mesmo nível das particulares, quando se observa centros universitários e faculdades, praticamente a mão do Estado não existe.

E assim como o tráfico de drogas nos morros e favelas das grandes cidades, onde o Estado é ausente, os bandidos fazem a festa. E bandidos no ensino existem tantos ou mais do que traficantes. Como sempre, bandido é sempre bandido, não faz diferença sua área de atuação.

Quando um coordenador de ensino privado, um diretor ou mesmo um dono dá entrevista à mídia, gosta de enaltecer sua faculdade como a melhor, a que melhor emprega, a que tem mais alunos empregados, etc.

Mas quando o assunto é "no pé-do-ouvido" a pressão para não reprovar é enorme e de baixo nível. Ameaças são constantes no ensino privado para que os professores ensinem muito, mas não reprovem ninguém.

Ensinar tudo sem reprovação é "o mundo ideal", qual professor não gostaria? Mas todo mundo sabe que isso só existe na cabeça do dono das faculdades particulares. Os donos e diretores não querem perder alunos.

E então você tem um professor desmotivado, perseguido por alunos e coordenadores fracos e mal preparados, e sobretudo coordenadores covardes que não assumem posições para tornar um curso A ou B digno de garantia de emprego para o formando.

E aquela faculdade particular que disser que isso não existe, é aquela que mais apronta no ensino privado.

A formação de professores deveria ser a prioridade nacional. Foi assim no Vietnan, na Coréia do Sul, no Camboja, e todos eles possuem um parque tecnológico gigante e de longe muito melhor do que em nossa "Pátria Educadora".

No Brasil, formação de professores não é prioridade nem do estado, nem das faculdades particulares. O gráfico ao lado mostra que o número de cursos de licenciatura se manteve constante em 10 anos. Mas o de bacharelado aumentou 80%.

Temos hoje em dia até curso de modas, como se fosse uma modalidade acadêmica. Moda é ciência ou desenvolvimento social e tecnológico? Qual a importância da moda para as pessoas? Salvará vidas?

Claro, um curso de Moda tem seu valor, garante emprego de muitas pessoas, gera muita renda, contrata diversos tipos de profissionais de altíssima qualidade, mas não é um curso que precisa tomar tempo e dinheiro de universidade.

Moda é um curso técnico, gostem ou não. Precisamos de muitos cursos técnicos no Brasil, não de universidades particulares.

O que o Brasil precisa é de curso técnico, desde a infância de nossas crianças. Mas curso técnico não dá status, tem um parque de laboratórios muito caro e os donos de escolas de ensino médio não querem gastar, querem só lucros.

 

Comparação Ensino Público x Ensino Privado

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Comparação Bacharelado x Licenciatura

 

 

 

 

Comparação curso Presencial x Distância

 

 

 

 

 

 

 

 

Comparação professores em tempo integral (Pública x Privada)

E como professor "só atrapalha", melhor é retirá-lo da sala de aula. O número de cursos presenciais ainda é muito maior do que os cursos à distância. Mas a arrancada dos cursos à distância é algo de assustar (gráfico ao lado).

Claro, as faculdades particulares que agora tem ações em bolsa de valores já perceberam que o melhor modelo de ensino para seu caixa é contratar o professor para fazer um material de vídeo e dispensá-lo. Depois contrata qualquer monitor aluno para tirar dúvida em site e não precisa mais pagar direitos trabalhistas para ninguém.

Por isso que os donos de ensino privado sempre dizem que educação no Brasil é um excelente negócio. Claro, tem muitos querendo dar aulas, muitos querendo aprender (ou fingir que aprendem) e poucos querendo pagar bem.

Um motorista de uma montadora de automóveis nos confessou certo dia desses:

"Eu fazia engenharia civil e tinha o FIES. Um dia na sala de aula, a professora de cálculo não conseguia resolver uma equação de segundo grau. Meu colega pediu licença, foi a lousa e resolveu pra ela. A turma toda bateu palma pra ele, eu desisti da faculdade."

O nome da faculdade? Claro que não vamos mencionar, mas vive na mídia e tem ações na Bovespa. A culpa não é da pobre professora. Ela nunca foi professora de ensino superior, mas como precisava aumentar o caixa familiar, por que não fazer essa boquinha? A faculdade finge que é séria, o aluno finge que entende e o professor finge que ensina. Pátria Educadora?

Mesmo para aqueles que não gostem: Tem sim solução. É o Estado voltar a ser forte no ensino, dominador e superior, concorrendo com o ensino privado até desarticulá-lo.

Se o Estado pagar salários de mercado, nosso enorme corpo de professores com doutoramento voltará correndo para as universidades públicas e faculdades estaduais e federais.

Somente o ensino do Estado pode ensinar melhor, porque o professor é livre da pressão pelo preço da mensalidade e número de reprovação. Quem disser o contrário, ou é coordenador de faculdade particular, ou diretor, ou dono.

As melhores e mais importantes pesquisas vem das universidades públicas. Gostem ou não, as mais sérias e produtivas, aquelas que geram artigos em revistas de qualidades ainda vem das faculdades do Estado.

Mas isso poderá acabar.

É só olhar o péssimo exemplo do Paraná. Ou ainda de vários estados do Nordeste. Ou mesmo do governo federal que está voltando a dar reajustes abaixo da inflação.

Somente professores em tempo integral tem um compromisso com o ensino, seja ele superior ou para os garotos so ensino médio. O gráfico ao lado mostra o enorme disparate entre a rede pública e privada. Pouquíssimas univerisidades privadas mantém um quadro sério e efetivo de professores em tempo integral.

E mesmo aquelas que mantém, via de regra, esses professores em tempo integral são considerados os coordenadores e diretores. Mesmo o salário é colocado como hora-aula para diretores e coordenadores. Essa é uma forma de burlar as estatísticas de governo, mas na verdade, são apenas gerentes do ensino a serviço do dono da faculdade.

 

A última do governador do Estado de São Paulo foi mudar, na calada da noite de terça-feira, a LDO orçamentária do estado. Não contente com a greve dos professores da rede estadual do ensino médio que já dura 60 dias, o governador Geraldo Alckmin praticamente convocou uma greve geral, agora também nas universidades USP, UNESP e UNICAMP. A lei antiga, dizia que o governador era obrigado a repassar verbas de NO MÍNIMO 9,57% do imposto ICMS para as três universidades.

Como a comunidade acadêmica está precisando de mais recursos para tocar pesquisas, bolsas de estudo de alunos e salários, o governador Alckmin teve a brilhante sugestão de alterar apenas uma palavra: trocou mínimo por "NO MÁXIMO". Ou seja, se o governo do Estado de São Paulo não repassar mais nada para as 3 universidades, ele, senhor Alckmin, está livre de processo. Mesmo negando verba para o ensino ele agora está amparado pela lei.

Essa é uma luta histórica das 3 universidades, conseguida vitória com uma greve duradoura e cansativa em meados de 1989 quando o governador Orestes Quércia sancionou a independência universitária garantida por essa fatia de repasse automático. Por que Alkmin fez isso? Por que negou e voltou às trevas, uma discussão que nem se comentava mais?

É porque ele é filho da chamada "Pátria Educadora"? Para a semana que vem, a Pátria Educadora vai começar a ver talvez um gigante movimento educacional e quebra-pau nas ruas. Em Curitiba, o governador Beto Richa negou aumento aos servidores de 8% e disse que não dará nada além de 5%. Estão convocando passeatas com mais de 50 mil servidores nas ruas de Curitiba. Assembléias das universidades paulistas começam a ser convocadas.

Mesmo no governo federal, diversas universidades estão iniciando seu movimento de assembléia devido o atraso do governo de verbas importantes para a educação. O que a presidente Dilma quis dizer com o bordão "Pátria Educadora"? Não seria melhor o bordão "Pátria Caducadora"? Só podemos estar diantes de prefeitos, governadores e presidente caducos! Não tem outra explicação. Ou loucos!

Quando se pensa que chegamos ao fim, percebemos que a educação nacional está no seu início, triste início do fim, daquela que poderia ser a maior "Pátria Educadora".

 

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