Quinta-feira, 6 de Outubro, 2016

 

O novo pericóptero financeiro

Não ouvimos os mais antigos. Eles são velhos. É como todo garoto pensa, como todo jovem pensa no vigor de sua forma física e cheio de energia que vem de sua vasta testosterona. Estudos mostram que os jovens são surdos e desatentos, devido ao excesso e acúmulo da testosterona que modifica o comportamento, que faz aparecer os pêlos e faz com que se sintam um superman.

É por isso que você pode falar quantas vezes desejar sobre um assunto, um jovem sempre parecerá ter visão de raio X, olhando através da parede, como se pensasse: lá vem essa estória de novo!

Me lembro da árdua tarefa de Ciência aos 9 anos, em ter que construir um pericóptero. Era um helicóptero disfarçado, onde se recorta uma cartolina na forma de hélice, toma-se um carretel vazio, amarra-se um barbante e coloca tudo ao redor de um prego fixado em algum tipo de madeira.

A professora mostrou na sala e todos achamos muito legal. Mas cada um tinha que fazer o seu para a próxima aula. Comprei todo material e peguei escondido um cabo de vassoura de minha mãe. Acho que nem hoje ela sabe dessa história, ou seja, o sumiço de sua vassoura num certo dia de primavera.

Serrar o cabo de madeira em pedaços já me deu tristeza. Dá para imaginar um garoto de 9 anos com um serrote maior do que ele, cortando um pedaço duro de madeira. Ufa, pronto! O pior já foi.

Que engano.

Ao tentar martelar o prego na ponta do cabo, a madeira .... rachou!. Lá se vai de novo para o serrote. E de novo, agora com mais calma, ao tentar pregar novamente, pronto, a madeira rachou de novo. Uma terceira vez seria diferente, claro, vamos bater com mais calma, bem devagarinho, e .... de novo a madeira rachou.

Três pedaços bons de madeira do meu experimento foram jogados fora por causa de um mísero prego. Foi quando chegou em casa meu avô e viu aquela sujeira toda. Serragem, cartolina, tesoura, e madeira da vassoura jogada por todo lado. Ao lhe explicar o que eu estava fazendo, ele se dispôs a me ajudar.

Hoje sinto saudades de não ter conversado mais com meu avô. Para uma criança de 9 anos, papo de avô é muito chato, não tem graça. Minha intimidade com meu avô era mais de respeito, de sentimento paterno, do que de intimidade profunda. Eram outros tempos. Mas como ele se dispôs a me ajudar, não quis ser mal educado.

Pensei com meus botões: não vai dar certo. Se eu que sou jovem, em três tentativas o brinquedo rachou, imagina se ele já com mais de 70 anos conseguiria fazer esse experimento.

E foi então que ele saiu de perto e foi para um depósito de casa, e imaginei: já desistiu!

Então ele volta com um pedaço de arame. Arame? O que eu vou fazer com arame nesse brinquedo que só tem prego e cartolina? A figura a seguir mostra o pericóptero simples, que gira na mão, mas o que eu ia construir tinha que puxar um fio de carretel, fazê-lo girar para soltar as hélices.

E a medida que meu avô foi construindo ele ia me explicando. Ele amarrou bem forte o arame ao redor do cabo de vassoura que ainda restava. Sua mão tremia de tanta força que fazia, apertando o arame. Ele me dizia:

" você deve apertar bem o arame para a madeira não se expandir. Quando o prego entra, ele vai querer espaço, e com isso vai forçar a madeira. Como ele forçará a mdeira e o espaço é curto, ela vai expandir muito rápido e não vai aguentar. Vai rachar mesmo.".

E ele foi batendo o martelo devagar e o prego foi entrando e madeira resistiu, sem nenhuma rachadura! E o pericóptero funcionou. E foi bem alto para meu delírio. Ele me explicou que quanto mais leve e resistente, melhor para as hélices. E saiu para comprar um papel bem mais grosso o que deixou o pericóptero perfeito.

Então me explicou que melhor seria fazer um avião, que iria mais longe pois tinha mais sustentação do ar, com suas asas mais longas e era mais divertido de brincar.

Que lição.

Isso hoje parece bobeira, assunto sem nexo, mas me marcou muito. Aprendi com esse singelo e despretensioso gesto que temos que baixar a cabeça e abrir bem os olhos, aguçando os ouvidos, quando os mais vividos falam. Se eles falam que vai acontecer, vai. Não depende se é uma pessoa estudada em escola ou não. A escola da vida é muito melhor do que qualquer escola boa com nota A do Enem.

É isso que ocorre nos últimos dias. Muitos acontecimentos aparentemente desconexos guiam o mercado financeiro para outro abismo. Mas falar sobre isso com analistas jovens, é besteira. Coisa de "velho". A soberba lhes deixam cegos e surdos.

Quando se iniciou a crise de 2008, os grandes corretores da crise de 1929 já não existiam. E ler isso em livro ou filme parece história medieval, onde "naquele tempo" ocorria porque não tinhamos esse ou aquele mecanismo de segurança.

Ah esses bobos jovens. Conseguiram errar até numa planilha do Excel em uma fórmula de risco, levando o J.P. Morgan a perder bilhões em três meses (ler aqui " J.P. Morgan: a culpa foi do Excel"). Os novos "traders" estão animados, liberados para fazer o que mais gostam: brincar de comprar e vender.

Comprar ouro, como se sabe, significa apostar na segurança. O ouro é a commodity mais desejada em tempos de crise, mais procurada, devido a sua segurança financeira como base de toda moeda.

Quando o FED (banco central dos EUA) jogou trilhões de dolares no mercado americano para "fazer a economia girar", como alertamos aqui diversas vezes, esse dinheiro não foi para o emprego. Parte foi para as ações, parte para os títulos e parte para as commodities.

O gráfico abaixo demonstra a explosão no preço do ouro a partir de 2009. Foi quando o quantitative easying entrou em ação, com despejo de dolares goela abaixo dos bancos.

Do valor de US$ 900, o salto foi para US$ 1.700 em três anos. O mundo estava agitado, o desemprego em alta nos EUA, as dúvidas sobre o Euro, depois guerra na Síria e assim por diante. Muitos analistas na época projetavam mais de US$ 2.000 para a commodity em questão de "meses".

Então, de repente, o ouro "perdeu a graça". O gráfico a seguir mostra a mudança abrupta no preço do ouro nessa semana. Caiu para valores ao redor de US$ 1240. E para onde foi esse dinheiro?

Depois de muita reunião, a OPEP foi convencida a cortar a produção de petróleo para fazer o valor subir novamente. Após muitos anos, a reunião terminou com os árabes concordando que era hora de estancar a sangria do preço do óleo. O perigo terminou? Mas que perigo?

As empresas americanas que extraem xisto praticamente faliram. Não aguentaram o tranco e estão em hibernação. Não vale a pena com esse preço do petróleo extrair óleo combustível na velocidade com que elas faziam antes. Outro fator é que a ameaça Chaves/Venezuela está no fim.

Com o país quebrado sem nem mesmo sabonete para comprar, agora o país está importando gasolina. Suas refinarias não tem capacidade de extrair o combustível e a empresa estatal de petróleo entrou em crise também.

E no Brasil, a partir de hoje, os deputados liberaram a Petrobras de participar do pré-sal. Claro que o mercado gostou, óbvio. Agora as concorrentes da Petrobras que estavam incomodadas e desconfortadas com essa situação, vão dominar o pré-sal. Mais que depressa o governo já abriu a sessão de novas vendas, para se desfazer de poços estratégicos.

Ah sim, aquele papo de prejuízo para extrair petróleo do pré-sal se mostrou armação, mentira, balela.

Enquanto todos nós especulávamos que (estimativas de analistas da área) petróleo abaixo de US$ 30 era inviável para a Petrobras, esse fato se mostrou errôneo. Eike Batista quando esteve em Curitiba para "ajudar" a lavajato mencionou que um "amigo" seu, de uma empresa britânica que trabalha para a Petrobras, lhe afirmou que o custo da extração é de US$ 7,00.

Segundo Eike, ele era pessoa não grata na empresa, pois queria uma fatia pra ele, por causa do baixo preço de extração, mas ninguém permitia. Ainda Eike disse que os geólogos sabem que o pré-sal é um afloramento magnífico, ainda muito maior do que se diz. Novamente, desemente políticos que diziam ser o pré-sal uma farsa.

Se o pré-sal é uma farsa, porque a Shell veio correndo para o Brasil e está interessada. É sinal que não existe farsa, e apesar do "senhor X" não ser a melhor fonte de informação, parece ter razão dessa vez.

E então, o preço do petróleo disparou. Os fundos começaram a aumentar suas cotas nas vendas futuras da commodity fazendo o preço disparar.

Junto com isso também apostaram nas ações das empresas petrolíferas, entre elas a Petrobras. As duas ações PETR3 e PETR4 não param de subir todas as semanas.

O gráfico do investidor externo nos mostra que a leva de investidores estrangeiros está voltando, ainda mais agora que parecem prever que o FED não aumentará os juros.

Todos os fundos estão vendendo ouro, com boa probabilidade de acerto nessa afirmação, e comprando muito petróleo futuro.

Os árabes agradecem.

Mas os alemães não. Justamente agora que eles queriam participar dessa fartura, a justiça americana condenou o Deutsche Bank a pagar 14 bilhões de dolares.

Foram culpados, assim como J.P.Morgan, Goldman Sachs e outros, pela crise de 2008.

Mas justamente agora?

E desde meados do ano passado, quando esse assunto estava nos corredores do mundo, as ações do banco começaram lentamente a cair até acelerar nessas semanas.

Dos US$ 30 que valiam em N.York, hoje elas valem US$ 13,54. Mais de 50% de queda no valor da ação.

Dados do preço do petróleo

Valor da ação do Deutsche Bank

Queda do Lehman Brothers

Comparação Deutsche e Lehman

 

Mas o que o Deutsche tem com isso? Ele é só um banco, e não vai acabar com o novo pericóptero financeiro. Só que esse pericóptero está com a madeira começando a rachar. E não vai levantar e voar muito alto.

Assim como o Lehman, o banco alemão se endividou e recebeu recursos para estancar a crise de 2008. Se recuperou um pouco, mas com a recessão na Europa ele não voltou a ser como antes de 2008.

Com os problemas rondando o banco, seus arrojados analistas resolveram apostar alto, em títulos, oferecer produtos duvidosos, operar no futuro e mesmo com tudo isso, não terão dinheiro para pagar a monstruosa multa.

E se lembrarmos de 2008, por muito pouco, muito pouco mesmo o Deutsche não quebrou como o Lehman Brothers.

Ao lado é possível ver a comparação no preço de suas ações junto com as do Lehman. A derrocada final do Lehman fez a diferença para o Deutsche, que aguentou firme e estancou a queda.

Mas e agora?

As preocupações são muitas e os líderes da Europa não escondem mais prepcupações.

Primeiro cogitou-se de Angela Merkel ajudar o banco. Negativo, ela se recusou.

Depois escapou que o banco estava em conversas secretas para pedir diminuição na multa. Coisa básica. Algo em torno de US$ 6 bilhões.

E ainda no dia de hoje, Christine Lagarde, presidente do FMI afirmou estar preocupada e pediu para que um acordo seja firmado rapidamente.

O FMI tem medo, e com razão, de que essa crise de confiança se espalhe para outros bancos, atingindo a Europa toda novamente.

Ainda para o lado do petróleo, temos agora o furacão Mathew, o mais violento desde 2005. Ele passará bem em cima de Miami e já está causando temor financeiro.

Estimativas da Bloomberg apontam para prejuízos da ordem de 25 bilhões a 35 bilhões de dolares (ler aqui). Como sempre eles erram, se realmente o furacão atingir em cheio a Flórida, pode multiplicar por 10 esse número.

E por que o preço do petróleo continua subindo?

É que o furacão está passando perto das plataformas de petróleo e qualquer vento pode paralisar a produção ou mesmo causar outro desastre ecológico com vazamento de óleo.

Vamos supor que o furacão passe bem em cima de Miami. Diversos investimentos imobiliários vão desaparecer. As casas destruídas vão ter de ser reconstruídas. Vamos imaginar uma população de 5 milhões de habitantes pedindo seguro desastre nos bancos para reconstruir suas casas.

As seguradoras terão dinheiro pra isso, exatamente nesse momento?

Como meu avô e outros tantos avôs ensinaram aos seus netos. Tudo que sobe rápido cai rápido. E as vezes, como no caso do meu pericóptero, arrebenta antes de voar. Que pena os analistas jovens não nos ouvirem.

 

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