Sexta-feira, 4 de Maio, 2018

 

O perigo de crash nas bolsas não está na alta volatilidade

 

Em 2013 escrevemos o texto "IMA-ações: as frequências que avisam" para mostrar como Índice de Mudanças Abruptas (IMA) rodava de modo paralelo em nosso servidor daquela época. Descrevemos no texto que o mais importante de se observar no mercado de ativos é a frequência com que os preços oscilam. Isso é diferente da volatilidade a qual todos na área de finanças comentam.

Índice de Mudanças Abruptas em paralelo para diversas ações no CANAL ONLINE

A volatilidade dos preços ou dos retornos é medida através do desvio padrão. Essa medida estatística se baseia em quanto os dados oscilam ao redor da média, mas não uniformemente e sim seguindo alguma distribuição de probabilidade. Dependendo da curva de distribuição de probabilidade, para o mesmo sinal medido, podemos ter um graus diferentes de medida para o desvio padrão.

Por isso é importante saber ajustar a distribuição de probabilidade, seja para os preços, seja para o retorno, seja para qualquer tipo de medida. E isso é diferente de frequência de repetição.

A frequência mede, por exemplo e a grosso modo, quantas vezes os valores oscilaram dentro da mesma faixa de dados que o estrategista criou para seus investimentos. Isso sim, para o caso de previsibilidade de crash em bolsas de valores é que importa.

Duas semanas atrás o FMI- Fundo Monetário Internacional escreveu em seu relatório que um perigo de outra crise se aproximava pois "eles enxergavam" alta volatilidade à frente. O que se deve saber é que fundos e bancos adoram alta volatilidade! Sim, é com a alta volatilidade que eles podem operar com seus robôs financeiros comprando no fundo e vendendo no topo.

Mas e quando fica de lado?

Esse sim é o perigo. É aí que podemos prever perigosas oscilações incontroláveis à frente. Oscilações rápidas em faixas estreitas de preços ou retornos de índices, ações ou opções é nossa denúncia de queda. Agora que aparece um cenário de uma grande queda, todos correm para a imprensa para mostrar que algo não vai bem.

Para quem nos acompanha e deseja lembrar, nós estamos alertando de uma forte queda no Ibovespa desde fevereiro do ano passado (2017) olhando sempre para o espectro wavelet das frequências. E esse espectro não mudou, continua alto, retratando que ainda estamos com forte risco de quedas (ler "Ibovespa poderá cair 20 mil pontos").

Vamos voltar um pouco no tempo e relembrar como se comportava o Dow Jones em 1929, olhando para a faixa de oscilação. A linha vermelha traçada na figura à seguir, mostra o quanto o índice dos EUA Dow Jones ficou "parado", oscilando numa faixa estreita durante meses antes do crash fatal. Essa oscilação denota alta frequência em intervalos de tempo, precursora de uma grande queda pela frente.

Nas recentes semanas, podemos observar em seus dados diários que o Dow Jones repete o mesmo padrão de todas as quedas, ou seja, depois de atingir seu ápice o índice está oscilando de maneira rápida, mas numa estreita faixa de valores. Depois de sair lá atrás de seus 15 mil pontos, o Dow Jones oscila desde fevereiro desse ano numa faixa em torno de 2 mil pontos. O mínimo valor foi de 23.500 pontos e o máximo de 25.500 pontos (figura abaixo).

Para um índice que subiu 12 mil pontos, essa oscilação de mil pontos para baixo da média e mil pontos para cima é muito pouca. Vários fundos no começo desse ano foram liquidados ao redor do mundo, porque sempre estavam na "perna errada" como se diz no jargão do mercado.

Como escrevemos no início desse ano (ler "Cortinas escuras nos fundos de investimentos") um fundo grande do Credit Suisse tinha perdido em questão de dias 90% do seu patrimônio.

Como eles detestam baixa volatilidade!

Uma outra forma de visualizar o gráfico anterior do Dow Jones é através do histograma. Essa metodologia da Estatística divide os valores em faixas e conta quantas vezes os preços caíram dentro de cada intervalo.

Com isso, um mercado poderia ser dito "Normal" se o padrão do gráfico fosse simétrico e perfeitamente distribuído.

Como vemos ao lado, o padrão das últimas semanas do Dow Jones é de uma concentração mais a esquerda do que a direita.

Sabe o que significa, caro leitor?

Em relação a média, os valores do Dow Jones estão sempre com pontuação muito mais abaixo do que acima da média.

Mesmo em dias de altas, a pontuação não ultrapassa a sua média de quase 4 meses.

Mas o pior é que esse fenômeno é global, o que nos alerta de grande perigo à frente.

O Hang Seng Index, índice de Hong Kong na China, está oscilando na faixa estreita de mil pontos por mais de um mês.

O índice japonês Nikei, depois de bater recordes de alta no ano passado, está estacionado há 6 meses ao redor de 1.500 pontos de oscilação.

Essas faixas estreitas surgiram após diversos problemas, sejam eles econômicos, sejam eles dos twitters de Donald Trump, seja pela ameaça dos mísseis da Coréia do Norte.

Mas na Ásia, as altas terminaram nesse ano e agora são apenas pequenas correções para baixo e para cima da média, numa faixa estreita.

Ou seja, alta frequência.

Voltando os olhos para nosso cenário interno, o Ibovespa está no mesmo padrão. Do dia 18 de abril até o começo de maio a bolsa de valores oscilou dentro de uma estreita faixa de valores.

Como pode ser visto no gráfico à seguir, a oscilação ficou entre os valores de 85 mil e 86.500 pontos.

As setas vermelhas no gráfico denotam a faixa de oscilação da bolsa de valores do Brasil.

 

Histograma Dow Jones

 

Índice Hang Seng (China)

 

Índice Nikei (Japão)

 

Faixa estreita na pontuação do Ibovespa

 

 

 

 

 

 

IMA-crash intradiário de 15 min (linha vermelha) e Ibovespa

Muitas incertezas e muitos erros econômicos estão travando o Ibovespa. Primeiro que a alta veridicada foi irreal, mais provocada pela tal "expectativa" do que por um resultado real.

Após aprovar a PEC que limita os gastos de investimentos e a mudança na CLT, a indústria parou de crescer e os empresários começaram a aumentar as demissões.

As demissões foram mascaradas no fim do ano passado pela contratação temporária e sazonal de fim do ano. Uma vez terminada essas contratações em janeiro, a partir de fevereiro se vê mês após mês o aumento na taxa de desemprego.

Para não dizer que só estamos escrevendo isso agora, alertamos ao leitor em 21 de dezembro que o desemprego aumentaria e já estava muito maior do que a imprensa anunciava (ler "Desemprego é muito maior do que se diz").

A taxa de desemprego, que estava na casa dos 12%, saltou em fevereiro para 12,2%, março para 12,6% e agora em abril para 13,1%, segundo IBGE.

São 13,7 milhões de pessoas sem emprego no país.

Em nosso texto de dezembro, nós mostrávamos que a taxa tinha caído momentâneamente porque a ocupação própria estava segurando a estatística.

Muitas pessoas que foram demitidas por conta da mudança da CLT usaram seu FGTS para abrir seu próprio negócio.

É só observar quantas lojas de vendas de roupas, quantos bares e quantos carros de sandwiches abriram nas cidades. E agora, passados 6 meses eles começam a fechar.

E quanto a indústria?

Sim, também alertamos que só aguentaria dois meses de crescimento a partir dos dados de novembro de 2017. Em nosso texto "Indústria aguenta só mais dois meses de crescimento" mostramos que a alta na produção era sazonal.

Desde então, passadas as encomendas de fim de ano, também segundo o IBGE, o último dado já mostra uma estagnação mensal na casa de 0,1%.

E com tudo isso, os investimentos em bolsa de valores obviamente ficam incertos e restritos a estrangeiros ou aos grandes fundos.

E com bolsa de lado, fundos não ganham tanto quanto ganhavam antes. Logo após a estreita faixa do Ibovespa o que sempre se vê nas bolsas é uma arrancada para o alto e depois uma forte queda.

Ao lado colocamos os dados da bolsa brasileira (Ibovespa) com pontuação medida em nosso CANAL ONLINE com os alertas do IMA-crash.

Podemos reparar que o IMA-crash (linha vermelha) atingiu o pico máximo três vezes e nas três, quedas foram verificadas no Ibovespa.

Infelizmente o cenário pela frente não é bom, se ainda considerarmos que os EUA vão realmente impor cotas de importação de aço, o congresso braileiro não anda e não vota mais nada nesse ano, as eleições estão com cenários incertos, a taxa de desemprego vai aumentar, a indústria vai parar e por fim, o setor de serviços vai começar a mostrar fraqueza.

Um resultado perigoso é que pequenos bancos não resistirão e clientes estarão em perigo. Um exemplo clássico de que bancos não aguentam alta frequência foi o fechamento do banco Neon, um banco digital na data de hoje (ler aqui).

Poderemos também ver em breve o aumento de liquidação de fundos de investimento com essa faixa estreita também ocorrendo nas bolsas ao redor do mundo.

Se o desemprego continuar caindo nos EUA, o banco central americano (Federal Reserve) com toda certeza irá aumentar a taxa de juros por lá, aumentando por consequência a fuga dos investidores estrangeiros da Bovespa. Se a tendência de queda se reforçar para o Ibovespa nos próximos dias, o efeito de retroalimentação aumentará as proporções de quedas.

Olhar para a volalitdade é importante, uma importante medida estatística. Mas olhar para as frequências é fundamental como medida de perigo e rápido rompimento de tendências.