Domingo, 13 de Setembro, 2015

 

Persistência fractal do medo na Bovespa

Benoit Mandelbrot foi o inimigo número 1 dos velhos economistas. A geração mais nova de economistas até certo ponto usa as ideias de Mandelbrot e tem certa admiração por seu trabalho, mas os dinossauros dessa área de estudo o abominam. Se um pesquisador dessa linha desejar ver seu artigo rejeitado e humilhado ao submeter para alguma revista "de ponta" na Economia, é só citar o nome de Mandelbrot.

Por que tanta raiva? Porque Mandelbrot bateu de frente com toda área de Economia, ao criticar desde a década de 1960 todos os modelos econômicos simplistas demais para explicar ou prever algo que realmente ajude a vida do investidor comum. Mandelbrot chamava os economistas e seus modelos para o mercado financeiro de "torres de marfim", intocáveis pois expõem toda fragilidade quando confrontados.

Em 13 de março desse ano, escrevemos sobre as ideias de Mandelbrot em nosso texto "Mercados Fractais", o qual analisávamos a Bovespa sobre o aspecto de dimensão fractal. Diante dos novos acontecimentos, o que será que nos diz uma medida de Mandelbrot, conhecida como expoente de Hurst?

Uma das técnicas criadas por Mandelbrot foi medir a chamada "dimensão" fractal de um conjunto de dados. Essa medida indica o quanto os dados estão mais próximos da aleatoriedade ou mais distante. Um brócolis, por exemplo, tem muita rugosidade, e suas entrâncias parecem ser totalmente aleatória. Seu grau de rugosidade é muito maior do que uma maçã, um mamão ou uma banana.

O tal expoente de Hurst, conhecido pela letra H, está relacionado diretamente com a equação

onde a letra "s" denota as diversas bandas e tamanhos com que são divididos um grande conjunto de dados e H um expoente, chamado de expoente de Hurst. A relação (R/S), a grosso modo, seria uma espécie de relação entre as diversas diferenças entre os dados e seus desvios padrões.

O importante é que H, mesmo para quem não conhece nada sobre desvio padrão ou estatística, mede o grau de aleatoriedade dos dados, ou ainda, H mede se existe "persistência" de um movimento ou não. A relação é a seguinte:

- Se H=0,5 os dados são completamente aleatórios

- se H<0.5 os dados são antipersistentes, com correlação negativa.

- Se H>0,5 os dados são persistentes, com correlação positiva.

Isso signfica dizer que, com H<0,5, se num dia o preço de algo sobe, no outro poderá cair na mesma proporção. Agora, se H>0,5, se num dia o preço de um ativo sobe, no outro poderá subir na mesma proporção.

E claro, quando existem quedas fortes, a relação também vale. Se num dia existe uma queda forte na Bovespa e H>05, no dia seguinte a queda será tão forte quanto a anterior. Por isso o nome de correlação positiva. Os efeitos se reforçam.

Ao lado temos alguns dados sobre o Ibovespa, o índice da bolsa de valores de São Paulo, desde antes da crise de 2008 até esse mês de Setembro.

São colocados lado a lado, seus retornos diários, ou seja, o quanto o índice subiu ou caiu de um dia para o outro.

O segundo gráfico é interessante, pois mostra como se comportaram os retornos da bolsa na época da crise de 2008. É possível ver que realmente uma onda oscilou o mercado financeiro, justamente nos momemntos de maior medo, quando a bolsa caía.

Quedas de mais de 10% se alternavam com ganhos de mais de 15%. Muita gente perdeu, pouca gente ganhou. Mas quem mais ganhou, foi quem operou o mercado.

Quem mais ganhou foram as agências que dão nota de crédito (Standard & Poor's), seus clientes de fundos de investimentos e os grandes bancos internacionais, que possuiam algoritmos automáticos de compra e venda para colocar medo nas pessoas comuns.

Esses algoritmos conhecidos como robô-trader já operavam nos bancos internacionais, e compras e vendas se realizavam de forma constante, deixando o ar nebuloso nas bolsas de valores.

E as notícias se alternavam, à vezes no mesmo dia, entre ruim e boas. Liberação de bilhões de dolares pelos bancos centrais, operações de recompras de títulos, tudo sempre tinha o lado bom, mas também o lado ruim.

E naqueles dias, o lado ruim sempre estava mais presente, sempre tornava as quedas "persistentes".

Ainda em fevereiro desse ano, a Standard & Poor's, a mesma agência agora reverenciada pela imprensa brasileira, pagou US$ 1,5 bilhão para se livrar de um processo movido pelo governo dos EUA.

O governo dos EUA fez as contas, e cobrava da S&Poor's US$ 5 bilhões pelos falsos relatórios, erros e má conduta da empresa nas recomendações fraudulentas sobre a situação do país e das empresas.

Para não perder o processo, nem seus clientes, a S&Poor's resolveu assumir que errou em seus relatórios, que agiu de má fé, e pagou nesse ano de 2015 para terminar o processo.

Agora é "endeusada" pela imprensa brasileira...

Para checar a história é só visitar esses sites de notícias desde 2013 a 3 de fevereiro de 2015: Reuters, Global Research, RollingStone, PBS NewsHour entre tantas outras.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Rodamos um programa em Matlab para calcular o expoente de Hurst (H) que mede o quanto de persistência existe nos dados da Bovespa nesse momento mais recente.

Ao lado plotamos o resultado, comparando dados do nosso outro artigo com esse novo período.

Antes da crise de 2008 o expoente de Hurst mostrava um movimento praticamente próximo do aleatório na bolsa de valores. O valor de 0,44 indicava um momento antipersistente na Bovespa.

Durante a crise de 2008 o expoente pulou para 0,59, bastante persistente. Quedas eram seguidas de quedas e assim foi o segundo semestre inteiro de 2008.

No período pós-queda, até março desse ano de 2015, o expoente voltou ao normal. Novamente tínhamos no início do ano, um valor de 0,46.

Mesmo com as notícias ruins e distribuições de malefícios à economia, o expoente de Hurst mostrava mercado ainda antipersistente e dentro da normalidade da compra e venda de ativos.

Mas nesse mês, o índice H nos mostra muita preocupação. Pode-se observar ao lado, que H = 0,71, é muito, mas muito alto.

Esse valor é ainda maior do que a crise de 2008.

Não é apenas pela perda de grau de investimento do Brasil e de suas principais empresas. Não é apenas pela má condição econômica. E também, apesar de ser difícil aceitar, não é apenas pela crítica situação política em que estamos. O expoente de Hurst reflete que estamos perdendo a tal rugosidade que falamos no início desse artigo.

E como estamos com tendência de baixa em todos os dados, esse expoente mostra que a aleatoriedade vai diminuir e a tendência vai se reforçar. Se a cada dia a imprensa somente contar o lado ruim das notícias, ela por si só (além do governo, é óbvio) estará fazendo o serviço de tornar o movimento persistente de baixa cada vez mais forte.

Por exemplo, o que pediam nossos exportadores do agrobusiness alguns meses atrás? Eles imploravam pela alta do dolar. Agora que o dolar está altamente favorável aos agricultores, a notícia divulgada nessa semana, é que o dolar alto vai prejudicar a próxima safra pois o adubo importado em dolar vai encarecer o plantio. Mas cadê o estudo sobre o retorno da venda da safra, o desconto em relação aos gastos com adubo e o saldo positivo desse processo?

A situação realmente é ruim, mas está muito discarado a imprensa nacional mostrando apenas o lado vazio do copo com água. Os produtores de soja estão muito contentes, pois com a safra alta e o dolar alto, terão um bom retorno do plantio. É claro que nossos importadores vão fechar vagas, fechar estabelecimentos e as vendas vão despencar. Mas os exportadores de grande porte vão ganhar muito.

O dolar alto não é bom, assim como o dolar baixo também não. Sempre para qualquer um dos lados que o dolar vá, vão existir pessoas reclamando. Basta somente escolher como se vai vender essa notícia.

O que as pessoas reclamam, e com muita razão, é sobre a oscilação do dolar. Se o preço for alto, mas oscilar pouco, as pessoas conseguem fechar negócios futuros de maneira segura. É a oscilação que causa o desconforto e a agonia tanto do produtor, do exportador ou importador. E como parar as oscilações fortes? Terminar com a persistência.

Quanto mais o mercado oscilar de maneira aleatória natural, com o expoente de Hurst em torno de 0,5, mais a economia se acerta e mais nossa vida volta ao normal. Mas se plantarmos o tempo todo somente um lado da notícia, os investidores de maior peso no país ficam com receio e vão embora. E já estão indo, vide o volume de investimentos estrangeiros na Bovespa.

Certa vez, Madelbrot escreveu em um de seus livros:

"... Prever o rumo dos preços é difícil, proteger-se contra as guinadas violentas é ainda mais difícil e aproveitá-la e lucrar com ela mediante esquemas de engenharia financeira é a mais difícil das tarefas. Evidentemente, a teoria financeira convencional ignora essa realidade. Ela presume que o sistema financeiro pe uma máquina linear, contínua e racional....".

O país está muito dividido, muito sem educação, muito sem tolerância, e parece que as pessoas não percebem que a política está fazendo isso de propósito. Com essas desavenças entre pessoas que nem se conhecem, os maiores beneficiados são os políticos, que estão cedentos pelo poder. O basta deve ser dado aos políticos, não ao próximo que você nem conhece.

Se persistirmos nessas desavenças sem nexo, muitas vezes provocadas e amplificadas pela imprensa sobre as fofocas políticas, a persistência negativa dos negócios será recorde a ponto de estourar a medida do expoente de Hurst. E persistência negativa dos negócios só leva a um caminho para todos: a falência.

 

 

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