Domingo, 28 de Fevereiro, 2016

 

Petróleo dentro do cenário

No dia 11 de janeiro desse ano, fizemos uma previsão para uma banda confiável para os preços do petróleo. As previsões estão inseridas no texto "E o petróleo...". Naqueles dias discutimos vários fatores que poderiam elevar o preço do petróleo ou despencá-lo para um fundo bem longe do valor real da commodity. No caso, afirmamos que o cenário pessimista deveria ser um mês depois, ao redor de US$ 28 com cenário otimista ao redor de US$ 44,00.

Agora que aquele "futuro" já é passado, cabe olharmos para trás e conferir a teoria que prevê estatisticamente eventos aleatórios. Utilizamos para aquele texto o nosso cone de incerteza, só que ao invés de índices usamos para preços. Essa ideia do cone de incerteza é uma metodologia estatística válida para eventos que evoluem no tempo e possuem distribuição de probabilidade normal. Não é o caso do petróleo, muito menos de ações (ler "Por que o mercado financeiro não é normal").

Mas a título de exemplo e para mostrar que essa técnica, mesmo não se aplicando ao fenômeno, é melhor do que as estimativas das agências de análises (principalmente no Brasil), fizemos nossa particular previsão, terminando o texto com o gráfico à seguir.

A teoria das probabilidades nasceu no século XVIII e foi se aperfeiçoando ao longo dos séculos. No caso do mercado financeiro foi Barchalier quem introduziu conceitos quantitativos amplamente utilizados pelos traders nos dias atuais (ler " A escória das finanças"). Então, com cuidado e atenção, é possível usar essa parte da Ciência para tentar se localizar dentro dos eventos do dia a dia. Não é cartomante, não é Ciência, mas ajuda a pelo menos comparar com o passado e tentar explicar o que pode ocorrer e quão certo ou errado isso pode realmente acontecer.

Para o petróleo, muitos eventos aconteceram nesses últimos dias. Muita discussão árabe e no final, acabaram até convencendo parte da OPEP e Rússia a congelar a produção do petróleo. Não é o mesmo que diminuir a produção para elevar o preço, mas essa atitude bastou para que os preços se estabelizassem num patamar mais central.

Longe do que traçamos, o petróleo chegou a US$ 26,19 com as notícias de que a Cina estava interrompendo seu crescimento. Mas depois os preços do petróleo voltaram a entrar na região de confiabilidade.

Então, o que aconteceu em um mês de observação após a previsão? A figura ao lado mostra o cone de incerteza com os preços atualizados do petróleo em um mês de atualização.

É possível notar a oscilação do preço abaixo da faixa, mas ao cabo de um mês exato, os preços voltaram ao cone e por ali ficaram até o dia 4 de fevereiro desse ano.

Esse cone tem 95% de certeza em sua previsão e as equações são construídas para criar um intervalo que varia com a raiz quadrada do tempo e com a variabilidade.

Para quem conhece um pouco de Estatística, essa variabilidade nada mais é do que o uso do desvio padrão.

Resultado da previsão de um mês para os preços do petróleo

Previsão errada com linha de tendência

 

Previsão com cone de incerteza para os preços do petróleo

O que poderemos esperar para o futuro? Uma resposta que um analista vai correndo fornecer sobre essa pergunta, é dizer que no curto prazo a tendência é de alta nos preços.

Certamente esse ponto de vista foi errôneamente realizado, colocando-se no Excel os dados do petróleo e traçando uma linha de tendência. Já escrevemos aqui diversas vezes e mostramos em nosso livro "Mudanças Abruptas no Mercado Financeiro", o quanto isso é errado.

O tempo não se correlaciona com nenhum dado, e a reta de tendência se baseia colocando no eixo horizontal o tempo, e no vertical os preços. Errado! Não pode fazer isso em previsão.

Se ficarmos tentados a fazer esse tipo de erro ( o que é sempre comum), o resultado seria esse ao lado.

Com uma boa inclinação em ângulo positivo, ao esticarmos essa reta, vamos convencer qualquer investidor leigo em Ciência que a hora é de comprar ações petrolíferas, ou mesmo contratos da commodity.

Claro, quem vai contra essa reta que esticada à frente vai fornecer quase US$ 40 em um mês.

Pode acontecer esse cenário? Sim, por que não?

Mas isso não se deve em nada a previsão, e sim a sorte em apostar que o preço do barril vai subir.

Mas e para o próximo mês de março? O que podemos esperar?

Novamente, são apenas cenários, mas com 95% de confiança que isso realmente poderá ocorrer. Se tudo ocorrer com probabbilidade normal, no dia 27 de Março, poderemos ter com cenário otimista preços ao redor de US$ 45,00. Igual ao de tendência! Pensará o leitor.

Mas....

devemos levar em conta que as coisas também podem ficar ainda mais ruins e o petróleo chegar em US$ 20,00. Essa é a diferença da previsão para o cone de incerteza.

Não é fácil fazer previsão no mercado financeiro, pois o investidor faz parte da notícia. Se ele lê um artigo dizendo que tudo vai piorar ele pode piorar ainda mais o cenário. Ou não. Se o investidor tiver cerca de 30% do mercado em sua mão, vai entrar comprando pois deverá achar que o preço vai ficar barato e o fundo do poço já chegou.

Mas essa ação, com o montante em mãos domina o mercado, e por si só fará os preços subirem.

De toda forma, ainda assim, apesar da dificuldade, as ferramentas de análise não podem ser usadas como cartas do tarô, pois evoluímos e o mundo investe milhões na confiança de que as previsões sejam no mínimo checáveis, verificáveis e palpáveis. Fora disso é insight, fofoca, aposta e não investimento.

O petróleo? Sim, se olharmos do ponto de vista estratégico para os árabes, deverá voltar a ter preços mais altos. Mas isso é só uma inferência Estatística e Geopolítica.

 

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