Quarta-feira, 23 de Fevereiro, 2011

 

 

Petróleo vermelho e a cruzada às avessas

 

O mundo levou uma rasteira ("prevista"). A ONU e todos os países esqueceram os milhares de mortos que o general Kadafi assassinou ao longo das décadas passadas e deram-lhe o reconhecimento de chefe de Estado. Até representantes nas entidades de direitos humanos o chefe líbio possui. Mesmos os grandes órgãos e países se esquecem de estudar a história e aprender com seus erros. O mundo deixou Napoleão invadir a Europa e assassinar seus opositores. O mundo permitiu que o louco de Hitler se tornasse chefe de Estado e aparelhasse a Alemanha, mesmo sendo proíbido pelas contas da primeira guerra mundial. E a ONU e demais países estão deixando loucos assumirem ditaduras sob o despeito de que os países têm liberdade de escolha.

É verdade, ninguém deve interferir em outro país, desde que a escolha não tenha sido de forma sangrenta e ditatorial. A ONU foi criada para isso e por isso. Mas como vive de "chapéu na mão" pedindo colaboração aos países, deve favor aos mesmos e não interfere em atrocidades. A ONU somente interfere quando esses eventos fazem parte do "eixo do mal" e venham a prejudicar o conselho de segurança.

E agora o povo árabe achou o caminho das pedras para uma liberdade ainda bastante discutível. O que significa dizer que a troca de regimes poderá ser ainda mais perversa e perigosa do que o atual regime. Sem fundamentos de democracia, e sem noção de representatividade do povo, com certeza os fundamentalistas vão tomar o poder. Sejam disfarçados de deputados, sejam por golpe de Estado. Então Ocidente, nos preparemos para o pior. Talvez estejamos diante de uma cruzada no sentido reverso, onde os fanáticos e fundamentalistas do Islã, após tomar o poder, se vingarão do ocidente "demoníaco" e povoado de " diabólicos" cidadãos.

Isso nada tem haver com religião, onde os verdadeiros religiosos estudam seus livros códigos e os interpretam sob o comando da paz, da harmonia e da convivência pacífica. Quantos católicos e batizados não estão assassinando seus próprios filhos nos últimos anos? Quantos judeus não mataram os próprios pais nos últimos anos? Logo, quem assume o poder não são os religiosos, mas àqueles que em nome da religião precisam do poder. E quando uma mudança drástica ocorre, o lado financeiro sente e percebe primeiro que o lado humanitário dos direitos humanos. Só quando começa a perfurar o bolso, é que os chefes de Estado pressionados pelos banqueiros tomam alguma decisão.

Foi assim com a crise do Petróleo em 1979, quando todos os países pobres sofreram e perderam com uma recessão violenta. Só quando a recessão bateu em New York é que os EUA resolveram fazer algo contra o preço alto do petróleo. Poucos se lembram, mas no Brasil os postos de gasolina fechavam a partir das 9 horas da noite de sexta-feira e só abriam as 8h da manhã de segunda-feira. Sábados, domingos e feriados, nem pensar.

 

 

Os xeques árabes sempre gostaram de confusões, pois com a subida do preço do petróleo eles embolsavam estratosféricas quantias de dinheiro. No entanto, agora a confusão está ao lado do muro dos palácios deles. Algumas empresas americanas e mesmo brasileiras estão se beneficiando desse processo. Esse é o primeiro passo quando tem uma crise. Mas logo em seguida vem o aperto dos países importadores para diminuir a importação, para economizar combustível e o preço despenca. Então, como muitos adoram apostar nos índices futuros começam a tornar o mercado financeiro mais arriscado a cada dia. E então...todos perdemos.

Chegando o petróleo no dia de hoje ao patamar de US$100,00, estamos no mesmo patamar histórico de 32 anos atrás. Com um agravante: ainda não saímos da crise de 2008. Se a recessão nos EUA ainda estava andando de lado para terminar, agora vai fincar as estacas no chão. Os desdobramentos no mundo árabe ainda serão mais severos daqui alguns meses. O petróleo pode até voltar ao patamar anterior, mas os retalhos vão ficar sem remendos.

Irlanda, Islândia, Grécia, Escócia, Portugal e Espanha estão no bloco dos desesperados com suas contas e agora com o petróleo com os altos preços, seus governantes vão ter que rever todas as estratégias. O sangue derramado na Líbia vai atingir o petróleo, uma vez que os opositores, num ato de descontrole poderão incendiar algumas refinarias. Se isso acontecer, a segunda perna da crise de 2008 estará instalada.

Olhando para o gráfico diário do petróleo (fechamentos dos preços ao final do dia) percebe-se que nesse ano de 2011 havia uma oscilação entre 70 e 85 dólares. Mas em fevereiro essa oscilação terminou, assumindo uma trajetória de alta com algum ruído de altos e baixos devido à especulação de mercado. A oscilação de janeiro foi benéfica para os xeques e sua liga árabe, pois estavam distante do conflito do pobre país Tunísia. Mas agora os homens de branco não devem estar olhando esse gráfico com muita alegria.

Se Kadafi vai cair não é discutível, ele já caiu. O problema é quantos ele vai levar com ele. Poderá levar muitos países do ocidente e muitas vidas de seu próprio país. Na verdade ele não tem país, ele se acha "o país". Kadafi é o Luis XIV da arábia (ou africa). Ele é uma versão mais bipolar do que histórica. Na verdade os tiranos modernos também carregam os problemas mentais normais do dia-a-dia. Bin Laden queria ser americano quando nasceu e ficou triste a vida inteira com isso, a ponto de se vingar dos americanos. Ele é o lado "down" da síndrome bipolar. Kadafi também queria ter nascido americano, e então virou ditador para poder visitar os EUA. É o lado "up" do bipolar. E quem sofre é quem está sempre no meio, os inocentes e trabalhadores.

Para onde vai o petróleo? Apenas prolongar uma reta em cima dos dados, já mostramos que isso é falácia de analista. Podemos construir um intervalo de confiança probabilístico, como fizemos com o "cone de previsão" do Ibovespa. Ao repetir o modelo do "caminho aleatório" para os dados do petróleo, obtém-se a seguinte projeção.

Pela projeção do caminho aleatório, a Estatística nos ajuda a traçar um horizonte provável, mas não certo. Esse horizonte nos garante 95% de confiança de que o preço do petróleo nos próximos 30 dias poderá ficar entre US$85,00, num cenário otimista de controle da situação e US$106,00 (pessimista).

O mais provável é que estamos numa trajetória altista dos preços devido aos acontecimentos. Se Kadafi for morto, poderemos atingir os 85 dólares. Se Kadafi durar mais tempo, o erro de 5% dessa previsão será batido e teremos um preço do petróleo muito mais alto do que os 106 dólares.

O triste de tudo é que vamos estar comprando petróleo nos próximos dias, não com sua cor natural e textura marron escura, mas coberto de sangue e ódio de quem sobreviver. A incerteza não é ruim, mas sim a certeza de que os atos incertos vão dominar os próximos tempos.