Terça-feira, 29 de Março, 2016

 

E a pílula do câncer?

Fosfoetanolamina. Esse é um nome complicado, para um assunto difícil e solução conturbada: a cura do câncer. Todo esse assunto tomou uma dimensão enorme nos últimos meses e após aprovada pelo Congresso Nacional espera a assinatura da presidente Dilma para entrar em vigor. Debates acalorados tanto na internet como no Congresso, além de divulgações desastrosas pela imprensa nacional, tornaram o assunto delicado e complicado para pacientes acometidos de algum tipo de câncer.

No centro de tudo isso está o professor aposentado de química da USP de São Carlos, o Dr. Gilberto Orivaldo Chierice. Nesse interessante vídeo o próprio professor explica a origem dos estudos, responde às diversas questões junto com outros pesquisadores que lhe ajudam no estudo da Fosfoetanolamina em células cancerosas.

O professor Chierice foi pessoalmente em sessão do Senado para explicar seus estudos, como pode ser assistido nesse vídeo. Percebe-se um homem extremamente chateado, aborrecido pela situação em que foi envolvido. Seu currículo vitae é público e consultando na internet é possível ver que sua atividade em pesquisa e docência é inquestionável.

Suas publicações incluem artigos em revistas como a PlosOne, com fator de impacto acima de 4. Quanto maior o fator de impacto, maior o grau de importância da revista. A revista Science e Nature são as com maior fator de impacto mundial, acima de 20.

A imprensa iletrada do Brasil ajudou a dissiminar um bate-boca totalmente desprovido e desnecessário, cunhando termos perigosos e que acabam, por si só, jogando por terra toda uma vida de estudo. Por exemplo, utilizar o estudo para dizer que o professor e seu grupo descobriram a "cura do cancer" foi irresponsável e desqualificador.

Primeiro que o próprio grupo de estudo afirma que os resultados tem sido testado em roedores e que os experimentos humanos foram em paciêntes com extrema condição desfavorável à vida, onde o tratamento com as metodologias convencionais não davam mais certo. Claro, isso é também questionável, e tanto os de opinião a favor quanto os de opinião contrária tem suas razões.

O segundo problema é que essa ideia de "cura do cancer" mexeu com interesses mesquinhos de outros grupos de pesquisa, que recebem milhões de dolares ou milhões de reais para encontrar essa cura que até hoje não existe. Como então poderia alguém ou algum grupo encontrar a cura, ainda mais de forma barata e com substância comum na natureza?

E por fim, tudo isso mexeu com interesses das indústrias farmacêuticas. Não vamos entrar aqui na tosca teoria da conspiração que se observa nos fóruns, onde a indústria da farmácia estaria perseguindo o professor Chierice e seu grupo.

Por exemplo, grupos a favor da pílula chegaram a ofender outro grande professor e pesquisador, o Dr. Drauzio Varella, tentando associá-lo com a industria farmacêutica por ser apresentador de alguns quadros de uma rede de televisão.

O que é necessário, é um estudo estatisticamente severo e controlado para dar validade à descoberta da Fosfoetanolamina para tratamento do câncer, e parar com guerras ideológicas que nada ajudam. Estudos mais aprofundados são necessários e deve-se cumprir as fases da investigação necesssária para a aprovação do tratamento. Não se pode apenas afirmar que a experiência do dia a dia mostrou resultado, que apenas evidências positivas foram observadas. Certamente haverá evidencias negativas ainda não descobertas, mas isso não invalida a ideia e a pesquisa em si.

O professor Chierice conta que seu estudo começou, pois havia um estudo japonês ainda na década de 1990, que dizia que a Fosfoetanolamina era cancerígena. No estudo japonês com roedores fora encontrada em enorme quantidade dessa substância. Mas o que o professor Chierice afirma é que em sua pesquisa encontrava sempre pouca quantidade dessa substância em células tumorais. Algo não estava certo.

O que mais o animou a aprofundar o estudo, foi que quando fez um estudo de altas dosagens que seria letais aos roedores, conhecido como DL50 (dose letal 50) o resultado foi inesperado. Esse estudo coloca doses que provavelmente vão matar as cobais e quando se chega em 50% de mortes na amostra, todas as cobaias são sacrificadas e observada a atuação do medicamento.

Mas no caso da Fosfoetanolamina, isso não ocorreu! Nenhum roedor morreu mesmo com doses extremamente altas até então conhecidas para essa substância.

Só isso por si só é uma informação importante e isso deveria ser debatido. Isso deveria ser testado e não os embates políticos e judiciais que foram observados nos meses passados.

Todas as células possuem sua fonte de energia, sua "usina" que as fazem trabalhar. Numa célula normal, essa usina conhecida como Mitocôndria fornece energia para a célula.

Mas no caso de células cancerosas, a Mitocôndria não atua, ela está desativada e o que trabalha no núcleo da célula é o tumor.

Esse tumor cresce, mas não depende de oxigênio, por isso são conhecidas essas células tumorais como anaeróbicas.

As células cancerosas começam a se multiplicar loucamente, a uma velocidade 11 vezes maior do que o normal, fazendo então surgirem outras células e formando o tumor.

Em fase final e avançada essas células podem cair na corrente sanguinea originando então a metástase, a forma de infecção global e para todos os órgãos do corpo.

Ao tomar a substância Fosfoetanolamina, quando a mesma atinge a célula, ela penetra facilmente pela membrana mais externa. E essa substância volta a ativar a Mitocôndria que emite então sinais de alerta para nosso sistema imunológico.

Com esse sinal de alerta as células de defesa do organismo correm então para eliminar a célula doente, matando-a num processo chamado de apoptose.

As imagens ao lado são desse video bastante didático e informativo, com ilustrações simples e fáceis de ser assimiladas por qualquer pessoa. (ver video aqui).

Mas a Fosfoetanolamina realmente tem eficácia comprovada? Tudo depende da dosagem, depende do organismo que está recebendo e de outros fatores biológicos que deveriam ser mais estudados.

Disseram por exemplo que o professor e seu grupo são charlatães, que são pajés com distribuição das pílulas. Isso é realmente lamentável nesse lugar que ainda assim insistimos em chamar de país.

O desconhecimento é uma doença pior do que o câncer. Outros ignorantes escreveram que nos artigos do professor sempre ele está em último lugar. Que um pesquisador chefe sempre se coloca em primeiro quando escreve artigo internacional.

Jornalistas do W.Post - Carl Bernstein e Bob Woodward

 

Richard Nixon - EUA - renunciou em 9 de agosto de 1974

 

Vamos chamar esses blogueiros que escreveram isso e seu amigos jornalistas de ignorantes, para não ser mais mal educados. Conhecemos diversos excelentes pesquisadores que abrem mão de se colocar em primeiro lugar na referência de um artigo para colocar em evidência pesquisadores em início de carreira.

É mais do que normal orientador se colocar em último lugar quando se escreve um bom artigo e se deseja prestigiar o pupilo.

A lenda de que o estudo não tem comprovação científica é mais um absurdo de comentarista ignorante. No artigo "Anticancer Effects of Synthetic Phosphoethanolamine on Ehrlich Ascites Tumor: An Experimental Study" diversas provas do estudo são apresentados para a revista Anticancer Research, pelo professor e seu grupo.

Além de evidências de imagens de destruição das células como as apresentadas na figura ao lado, o artigo apresenta inquestionáveis resultados favoráveis do ponto de vista estatístico.

Uma das formas de avaliar o bom desempenho no combate aos tumores, é a capacidade de matar essas células. A medida estatística que já comentamos aqui algumas vezes em análise de risco é o conhecido p-nível.

Esse valor indica a probabilidade do resultado obtido ser apenas uma mera coincidência. E no artigo, de uma revista séria, isso é incontestável. Não é querer ou não querer, não é gostar ou não gostar, é valor numérico final e ponto.

A figura mais importante do artigo consta da página 100, e apresentada ao lado. Ela mostra a porcentagem de mortes nas células que receberam a Fosfoetanolamina e nas células que não as receberam, chamadas de grupo "controle".

O grupo controle aparece nas primeiras três barras da esquerda para a direita. Observa-se uma morte rápida das células por apoptose de 10% para o grupo controle. No grupo que está sendo tratado com Fosfoetanolamina as mortes foram de 30% em média.

Com o passar do tempo, as mortes do grupo controle vão diminuindo, com a resistência das células cancerosas. No grupo que foi tratado com Fosfoetanolamina as mortes continuaram aumentando e chegando ao impressionante patamar de quase 50%.

O único grupo que a Fosfoetanolamina não foi melhor do que o grupo controle foi no quesito necrose. Talvez a Fosfoetanolamina realmente funcione mais como uma "sirene" para avisar as células de defesa do que para necrosar o câncer.

E o caro leitor sabe quais as chances desse resultado ser apenas uma mera coincidência? Segundo os autores a probabilidade de ser "sorte" é de 0,001. Ou seja, apenas 1 a cada mil experimentos isso aconteceria se fosse "coincidência".

Um blogueiro não leu o artigo inteiro do grupo e afirmou que eles tinham dito que "havia uma suspeita de sua eficácia". Não é verdade. Essa frase aparece na versão de página de rosto, que geralmente as revistas obrigam os autores a escrevem com linhas limitadas. Na versão completa de quase duas páginas de conclusão, os autores escreveram:

"... baseado nos resultados dos experimentos in vitro com tratamento das células, nós podemos assumir que a Fosfoetanolamina induz a apoptose (morte das células) mais provavelmente por um caminho intrínsico devido a muitos fatores associados...".

Ou seja, os autores não ficaram "em cima do muro", mas chamaram para si a responsabilidade dos resultados estatísticos.

Apesar de tudo isso, o outro lado também deve ser comprovado. Testes por outras pessoas devem ser realizados de forma independente para testar e comprovar a eficiência da substância. Ninguém pode acreditar apenas nos autores e a replicação é sempre obrigatória na Ciência para comprovação do sucesso. Se isso não ocorre, fica o dito pelo não dito e tudo torna-se apenas boato.

Alguns grupos não conseguiram a eficácia observada pelos autores. Por exemplo (ler aqui) um grupo de estudo encontrou outras substâncias além da Fosfoetanolamina nas cápsulas. O resultado foi uma duvidosa eficácia da substância. Mas isso não reduz a pesquisa, pelo contrário, agora é a vez da comunidade científica testar os resultados do professor Chierice. A corrida é aberta a todos e o desafio é chegar no mesmo resultado.

Somente caso o resultado não seja obtido com a mesma eficácia do artigo, é que a comunidade cientifica poderá se manifestar. Dizer algo antes, ou escrever artigos leigos sem antes saber das entranhas do estudo é que se torna charlatanismo.

Temos que parar de criticar por criticar, mas devemos estudar para fazer críticas construtivas e evolucionárias. E se realmente a pílula não curar o cancer, se ela melhorar em 50% a um preço mais baixo, só isso por si só, não terá sido bom?

Vamos crescer Brasil!

 

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