Quinta-feira, 18 de Junho, 2015

 

Plutão - a saga do distante vizinho

"Na minha idade, eu sou completamente indiferente a este debate, apesar de continuar achando que Plutão pe um planeta". Foi essa a declaração de Venetia Burney, a reponsável por dar o nome de Plutão ao então planeta desconhecido de 1930. Na época, com apenas 11 anos de idade, Venetia era ligadíssima em assuntos sobre Ciência, sobretudo adorava a história grega. No dia 14 de Março, enquanto tomava café, seu avô Falconer Madan leu num jornal sobre a nova descoberta. Comentou com a neta e ela lhe propôs o nome de um deus grego, Plutão, o deus grego do mundo subterrâneo que se fazia invisível.

Venetia Burney - responsável pelo nome de Plutão

O avô de Venetia era um bibliotecário aposentado e gostou do nome do planeta, achou que combinava bem com a nova descoberta. Ele telegrafou para alguns amigos do Lowell Observatory, no Arizona, EUA. Foi lá que tinha se dado a descoberta desse novo e distante planeta, um vizinho desconhecido. Clyde Tombaug, o descobridor do planeta, gostou do nome e, em 1 de Maio de 1930, o novo corpo celeste tinha o nome de Plutão.

Na década de 1970 as expedições espaciais da NASA se intensificaram após o pouso lunar. Mais baratas e mais práticas, as cápsulas espaciais mostraram segurança e utilidade, com os controles das operações sendo realizados dentro de um laboratório na Terra, através de sinais de rádio. Pioneer, Mercure, entre outras, mostraram que o homem poderia visitar outros planetas sem precisar sair de casa. E foi então que em 1977 as cápsulas espaciais Voyager-1 e Voyager-2 foram lançadas para analisar diversos parâmetros de Jupíter, entre outras coisas também fotogragar o planeta gigante.

A Voyager-2 foi lançada primeiro do que a Voyager-1, mas a Voyager-1 chegou mais rápido a Jupiter, devido uma trajetória mais favorável e rápida por entre as órbitas planetárias. Nascia a engenharia de trajetórias, usando a gravidade para impulsionar pequenos equipamentos espaciais.

Voyager -1

Depois das fotos mais maravilhosas e detalhadas até então, as duas Voyagers cumpriram tão perfeitamente os objetivos. Até hoje a quantiade de dados enviada não foi totalmente estudada. Conta o grande Carl Sagan, que uma vez terminada a missão, ele próprio deu a ideia de, por que não aproveitar e dar uma "estilingada" nas duas naves usando a força de Jupiter e Saturno? Bastava esperar algum tempo pelo alinhamento e disparar a hydrasina de seus foguetes para reposicionamento.

E foi fantástico! Lá de longe, Carl Sagan teve a ideia de pedir para a Voyager procurar a Terra e nos fotografar. Foi lá, no meio da escuridão, que apareceu um pontinho azul. Carl Sagan o chamou de "um pálido ponto azul", que acabou virando mais um de seus excelentes livros.

"Pálido ponto azul", nossa casa (Imagem da Voyager)

Nem mesmo os engenheiros acreditavam que a primeira viagem interestelar seria possível na época, mas graças ao alinhamento de Jupiter, Saturno e Netuno, as duas naves tomaram rumo fora do sistema solar. Mas infelizmente, um de nossos vizinhos, não foi comtemplado por essa visita. Plutão, ficou de fora, e foi visto apenas de longe, conforme é mostrado no esquema a seguir.

O ponto vermelho do esquema anterior é a Voyager-1, o ponto azul a Voyager-2 e o ponto marrom, onde estava Plutão em 1980, numa trajetória abaixo da Voyager-1. A missão foi tão precisa, que a Voyager-2 atingiu Netuno a uma distância de 100 km depois de viajar 7 trilhões de km. Uma boa comparação seria como acertar um buraco de golfe estando longe a 3630 km. O custo das Voyagers? Trilhões de dolares? Bilhões de dolares?

Só se fosse no Brasil.

Essa fantástica missão custou US$ 865 milhões até chegar em Netuno. Nada, absolutamente nada em termos de ganho de conhecimento, em termos de desenvolvimento e experiência para novas missões. E ainda tem gente achando que Ciência é muito caro, mas acha barato comprar um celular para jogar fora em dois anos. Se dividirmos todo esse custo pelo número de habitantes da Terra, o custo para cada um é de US$ 0,12, ou 36 centavos de reais.

Mas agora é para valer. Uma sonda especial, só para Plutão está para chegar e enviar as mais nítidas fotos do planeta. Infelizmente não podemos mais chamar Plutão de planeta, ele foi rebaixado a planeta-anão, tipo segunda divisão do campeonato de futebol.

A NASA mostrou nessa missão o que é pensamento de longo tempo, investimento de longo período e visão cientifica ainda séria no mundo. O projeto nasceu e morreu diversas vezes na década de 1990. Foi colocado em prática em 2004, com o início de sua construção da cápsula agora batizada de News Horizons.

A New Horizons foi lançada em 2006 e o que aconteceu com toda a equipe? Foi demitida, foi cortada por conta da crise de 2008?

Teve o salário reduzido, foi destratada pela imprensa americana por se tratar de um "mundo de lunáticos" ?

Não, a equipe esteve nesses mais de 15 anos sendo a mesma, com o mesmo chefe de missão, os mesmos analistas, vivendo dia a dia o mesmo trabalho, para, segundo eles, algo ainda incerto em 2006, mas real em 2015.

Existem interessantes videos de entrevistas (acessar aqui) contanto como a equipe traçou os planos e esperou por esses 9 anos até esse mês de junho de 2015.

As primeiras imagens começaram a chegar, revelando algumas luas ao redor de Plutão (tem 5 luas próprias). O encontro final será no dia 14 de Julho.

Numa das entrevistas o chefe de missão disse ter apenas ideia do que encontrar em Plutão, mas nenhuma certeza. Astrônomos esperam ver rios de hélio líquido, ou ainda vulcões expelindo gases de dentro do planeta, gelo por toda parte, com montanhas diversas com sombras que vão revelar suas altitudes em comparação com a Terra.

O movimento das cinco luas é descrito como caótico, completamente oscilatório, deixando qualquer terráqueo enjoado de tanto balanço ao redor de Plutão.

Um video da NASA composto de diversas imagens em dias diferentes, mostra o movimento completamente oscilatório de uma das luas, mais parecido com um pedaço de rocha do que um corpo celeste.

Imagem da New Horizons (18-Abril-2015)

 

 

 

 

Sonda New Horizons

Fotos mais recentes da New Horizons

 

Por que tamanha curiosidade?

Porque é o último corpo celeste ainda não fotografado por completo, por inteiro e com qualiade HD. A nitidez das imagens dessa vez será superior a todas as outras imagens já fotogradas dos planetas.

Com redirecionamento laser e pré-programação, o controle da nave permitirá diversos ângulos, onde a programação já está instalada no software de controle de bordo.

Isso vai evitar o controle em Terra ter de ficar enviando sinais de rádio, que demoram muito para reposicionar a sonda espacial. Ela automaticamente poderá se realinhar para fotografar melhor.

Algoritmos baseados em redes neurais e pré-processamento paralelo de imagens, podem tratar as fotos e enviá-las para o centro de controle de forma clara e bem nítida. As horas que se levavam antigamente para colocar cor artificial e fazer todo processamento digital em computadores antigos, ficaram para trás.

Será que depois disso tudo, Plutão voltará à primeira divisão da escala de planetas? Provavelmente não. Mas como disse a senhora Venetia, isso não tem importância. O importante é que ele estava lá desconhecido e dentro de 25 dias vamos ver quais os segredos do último corpo celeste em forma de planeta descoberto em 1930.

O mais impressionante é que o projeto teve sim, seus atrasos e também brigas acadêmicas sobre sua concepção. Mas uma vez definida sua grade de execução o projeto foi à frente. Ao contrário do Brasil, "patria educadora", onde os alunos idolatram cantores supérfluos, atores infantis e gostam dos últimos modelos de celulares. "Não tem conta no "face", ah.... que atraso". Quem é o atrasado? Um país que não tem o marketing de "patria educadora", mas está em Plutão e outras áreas distantes do universo, ou nosso país que possui o péssimo recorde de maior quantidade páginas e acessos no facebook?

Só prova nosso atraso.

São esses engenheiros e astrônomos lunáticos de fato? Nos EUA isso não é assim. Para quem gosta só de dinheiro, desconhece o quanto a Ciência básica nos EUA movimenta em dinheiro. Os museus de ciências precisam de maquete de planetas, naves espaciais em tamanho real, e outros tipos de engenharia para entreter o visitante e forçá-lo à voltar.

Cursos são fornecidos semanalmente dentro dos museus, ao lado de dinossáuros, luas, planetas, cometas, vulcões entre tantos outros recursos científicos. E todos pagam para entrar, sentar e ficar o dia todo visitando, fazendo curso, assistindo videos, ouvindo músicas etc.

No Brasil, fora os museus de Rio e São Paulo, os outros das outras capitaís são ridículos, mantidos com verbas das prefeituras, ou apenas cobrando dois reais de entrada. Claro, mesmo em São Paulo e Rio, esses dois, cinco ou dez reais já são caros, pois são museus chatos, parados, sem multi-mídia, sem obras de engenharia para entreter o visitante. Exceção ao museu da língua portuguesa, na antiga Estação da Luz em São Paulo, que se parece bastante com os museus de fora do país.

Então, para aqueles que acham que Ciência básica é bobagem e não traz dinheiro, refaça seu conceito. Investir em Ciência pode trazer enormes retornos. Quando se fala em investir mais em foguetes ou em estudo de naves espaciais no Brasil, jornalistas e analistas blogueiros ignorantes logo vem com a comparação tosca de: "não tem dinheiro para comida, vai investir em foguetes...".

Acontece que se tivessemos investido em foguetes, em naves, em cápsulas, em satélites, hoje estaríamos como a China e como a Índia. Vistando outros planetas com sondas e tendo o que contar para seu povo.

Que governo não gosta de marketing? Não seria uma boa propaganda "Brasil o país da galáxia!" ou "Brasil pátria dos planetas" ou "Brasil pátria da Ciência", ao invés de "Brasil pátria educadora" ? Educadora do que, se não temos Ciência, a base para animar nossos garotos e jovens em seus estudos? (ver "Pátria Educadora")

Agora faltam 25 dias, 17 horas, 2 minutos e 13 segundos para Plutão se revelar. Mas quanto falta de verdade para virarmos uma "patria educadora"?

O que podemos fazer, é admirar as conquistas dos outros, ver as mais belas e recentes imagens de Plutão, pois apesar de sermos de outro país, "somos todos americanos" como disse Obama.

 

 

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