Quarta-feira, 17 de Novembro, 2010

 

 

O pote sem vinho

Quem disse que Alice no País das maravilhas é só estória? Portugal viveu nos últimos 15 anos um período de conto de fadas, de crescimento exuberante, de inflação baixa e dinheiro farto. O dinheiro foi farto até onde deu, mas os portugueses aproveitaram a entrada do Euro no país. Lisboa ficou moderna, com metrô para todos os cantos (pelo menos os turísticos), com calçadões para pedestres ao invés de carros e congestionamento de bondes no centro histórico. A presença da Feira Mundial dos países fez Portugal revitalizar áreas abandonadas e dominadas por drogados em Lisboa. Hoje se vê shoppings, centro cultural, oceanário e até cassino. Mas a paciência européia acabou e o pote secou para Portugal.

Já era previsto que isso ia acontecer há 15 anos atrás. Transformando Lisboa e Portugal num canteiro de obras, os governos portugueses iludiram o povo a ponto de esquecer que toda modernidade gera um custo e ele um dia vai ter que ser pago. A conta começou a atrasar e agora Portugal é mais uma letra de país na berlinda da contaminação do rombo financeiro.

Portugal virou manchete nessa semana por admintir que já se contaminou. O mais irônico é que o governo admite que vai ter que pedir ajuda, mas acha que 86% do PIB como dívida não é muito, porque a Grécia deve 124%. Por isso nós brasileiros somos assim, ao invés de nos preocupar com nosso quintal, olhamos para ver se o quintal do vizinho é mais sujo. Não é porque a Grécia deve 124% que a dívida de Portugal de 86% é pequena e pode ser paga. Não pode, como pode-se ver no gráfico abaixo.

 

PIB de Irlanda, Islândia, Portugal e Grécia

 

O que o gráfico nos mostra é que após o ano de 2000, a entrada definitiva no Euro foi muito boa pois injetou sangue novo na economia portuguesa. Mas os gastos com as reformas em prédios e transporte não foram proporcionais ao crescimento do PIB. Dos quatro países problemáticos Portugal só ganha da Islândia em termos de PIB. O PIB saiu de algo próximo a US$100 bilhões para US$250 bilhões, mas muito ajudado pela zona de comércio da Europa que se fechou e se enclausurou colocando barreiras estúpidas de protecionismos. E agora toda Europa vai pagar caro e o PIB português não fecha a conta.

Não dá para afirmar que Portugal será um novo tsunami financeiro como afirma o "The Telegraph", mas existe um movimento frenético para liberarar logo o dinheiro para que outros mercados da Europa não entrem juntos nessa nova perna da crise.

Na verdade, não é uma nova perna da crise para Portugal pois, como se vê abaixo, Portugal não saiu da crise. Sua bolsa de valores, ao contrário do Brasil (Ibovespa) não voltou nem perto do valor que tinha na euforia de 2007. Dos antigos valores recordes de quase 14 mil pontos, o PSI português está estacionado ao redor dos 8 mil pontos há mais de um ano. Isso significa dizer que a bolsa portuguesa está em alta frequência, onde seus investidores estão esperando para tomar uma decisão mais forte. Essa decisão deve ser para outra correria de venda em massa. O padrão é o mesmo que já explicamos na metodologia do IMA-Índice de Mudanças Abruptas.

 

 

Ajuda financeira? O presidente chinês esteve hoje em Portugal e com sua voz "mansa" disse que a China está disposta a ajudar Portugal. O movimento chinês é de aquisição e está clararamente competindo com outros países. Ao "ajudar" países em crise como Portugal, a China quer se tornar credor e dominar o mundo assim como fez Inglaterra e EUA no passado. É um movimento de xadrez onde os "cavalos" abrem caminho para torres e bispos, pulando pelos obstáculos.

Pode-se reparar que a China nunca está estacionada por muito tempo e a exemplo de um cavalo do xadrez, intimida o rei adversário e volta para sua base, destrói alguns mercados com sua moeda e se volta para o mercado interno. É clara a deflagração de confronto com os EUA. O que os EUA fez como ato de desespero, ao jogar 600 bilhões de dólares sem lastro no mercado, foi tentar o jogo da China. Ao jogar o mesmo jogo de xadrez do adversário, vai ser pego de surpresa em breve.

Por isso, a ajuda da China à Portugal não é verdadeira. Tanto é isso que na própria reportagem o presidente Hu Jintao não disse no que eles vão poder ajudar. O que Portugal pode fazer?

O primeiro passo é não dizer publicamente que está quebrada como o governo vem dizendo. Já vimos isso aqui no Brasil na década de 1980 quando o então presidente José Sarney disse que "para proteger o povo brasileiro, o Brasil não pagaria mais juros da dívida externa". E o povo aplaudiu. E pagamos caro por 10 anos!

O segundo passo é fazer aquilo que nós no Brasil precisamos fazer também. Diminuir os gastos federais, o que não é segredo para ninguém, pois muitos economistas de lá e de cá já dizem isso há muito tempo.

O terceiro passo é mudar o secular padrão das exportações portuguesas em vinho e cortiça. A Coréia do Sul é um país tão pequeno quanto Portugal e estava em situação muito mais crítica do que Portugal no passado. Era também um país agrícola e preso à sua tradição. O que fez? Mudou da água para o vinho, mudando e criando parques tecnológicos e desenvolvendo componentes eletrônicos. Essa é a saída para países pequenos e endividados, mudar radicalmente seu parque, nem que para isso custe favorecer empresas estrangeiras em termos de impostos. Existe uma perda inicial, mas um grande ganho a longo prazo. Os cassinos estão saindo aos poucos de Las Vegas e indo para onde? Para o leste asiático.

Mas claro, tudo isso deve ser aliado à educação de ponta, à uma boa ciência, um bom padrão de publicação e desenvolvimento de patentes. Se insistir em apenas aceitar dinheiro dos "amigos" do Euro, todo o desenvolvimento conseguido nos últimos anos vai voltar a estaca zero.

Um bom vinho, um bom bacalhau e um bom fado são ótimos para alma. Mas para tudo isso continuar a existir, uma política de mudanças abruptas e radicais deve ser tomada logo, antes que os especuladores do mercado financeiro tomem todo vinho, comam todo bacalhau e deixem os portugueses cantando sozinhos.