Quarta-feira, 10 de Dezembro, 2014

 

O valor do pré-sal

Existe no "ar" uma tentativa muito estranha entre os meios jornalísticos de, a todo custo, tentar levar a Petrobras cada vez mais para um mar de lama. Na verdade, a empresa já está no mar de lama quando foi surrupiada por canalhas de toda espécie. Doleiros, diretores, políticos, empreiteiros e sabe-se lá quem mais. Mas a imprensa se esquece que essa empresa ainda possui muita gente altamente capacitada, com centros de treinamento de primeiro mundo e um dos concursos públicos mais difíceis de se entrar.

É bastante visível uma certa raiva por parte de alguns jornalistas, principalmente os mais novos, da geração "leite com pêra", que estão a todo custo ligando a banda podre do governo com toda a empresa Petrobras. A pressão está tão intensa que funcionários do bem se sentem acuados em assumir que trabalham na principal empresa brasileira.

Não saber separar ladrões e canalhas, de funcionários de bem e empresa de valor, é jogar no mesmo ralo diamantes com sujeira e dizer que fez uma faxina. Afinal, venhamos, a imprensa nacional não gosta quando a população os ataca, mas eles gostam de atacar a todos sem direito de resposta.

Todo mundo conhece a história de um certo canal de televisão que ainda não pagou os impostos da Copa do Mundo de Futebol de 2004. E pelo que consta, parece que esse processo desapareceu. Logo, todo mundo, criticados e críticos nesse país, tem muito telhado de vidro para se achar o mais honesto e os outros todos corruptos.

Um dos absurdos que rondam pela mídia é sobre o preço do petróleo e o custo que isso significaria para a Petrobras. Tem muito jornalista que não sabe calcular porcentagem, mas se dá conta para escrever artigos inteiros dizendo que com 60 dolares/barril, o pré-sal deveria ser interrompido.

Vamos esclarecer. Existe uma teoria conhecida como "Opção Real". São estratégias elaboradas e complexas para se avaliar projetos e viabilidades de se começar a extrair certo produto (minério, petróleo, jazidas, etc), esperar por alguns anos, ou interromper de vez o projeto. Para tanto, se faz necessário o uso do conhecido VPL (Valor Presente Líquido). Esse número é resultante de uma operação que diz em dinheiro de hoje, quanto vale o produto no futuro distante.

A fórmula é por demais conhecida (não para jornalistas), e não vamos perder nosso tempo explicando passo a passo de fórmula básica de matemática financeira. Maiores detalhes nós oferecemos gratuitamente na aba "cursos" da página principal, principalmente no tópico 4 do curso "Estratégias Quantitativas para Tomada de Decisão em Finanças e Controladoria". Lá e em outras bibliografias excelentes e até mais completas na internet, o leitor encontrará a seguinte fórmula do VPL:

onde "Co" é o investimento inicial num projeto ou o valor do fluxo de tesouraria imediato, e os outros "C" são os valores esperados para entradas do fluxo quando o projeto estiver a pleno vapor. Como esses valores estão no futuro, eles devem ser estimados, pois ninguém sabe o quanto realmente poderá entrar para o fluxo de caixa da empresa. A letra "r" no denominador é a taxa de desconto que pode ser maior ou menor dependendo do risco do projeto. Apenas como exemplo ilustrativo, usamos a Selic para o leitor compreender a ideia. O número no expoente de cada (1+r) são os anos futuros do projeto.

Pois bem, no caso da Petrobras, descobrimos vários relatórios na ANP (Agência Nacional de Petróleo) estimando produção da cada campo do pré-sal, investimentos necessários, produção esperada baseada em amostragem geológica entre tantos outros dados. No enntanto, parece que as reportagens sensasionalistas não consultam esses relatórios para seus textos. Claro, não iria adiantar muito, seria muito difícil para esses jornalistas entenderem e contar aos leitores tudo em apenas um dia de trabalho.

Num desses excelentes relatórios, a consultora Gaffney, Cline & Associates, esclarece a situação dos 10 campos do pré-sal e embora seja de 2010, as projeções são bem interessantes para termos uma ideia do que se esperar na produção de petróleo pela Petrobras. Além do "Co" na fórmula anterior (que é negativo, pois é investimento), ainda existem outros dois tipos de fluxos de caixas necessários no caso do petróleo. Um investimento antes da extração conhecido como Capex, e uma das despezas operacionais durante a produção nos primeiros anos, é conhecida como Opex. Cada um deles está estimado em cerca de US$ 700 milhões.

Usamos os dados da consultora, mas realizamos nossos próprios cenários, apenas simplificados para o leitor verificar a complexidade desse assunto. Na primeira simulação, usando inclusive um preço do petróleo da própria consultoria, utilizamos também uma taxa de juros de 10% (hoje está em 11,75%). Dos 10 campos, escolhemos um dos maiores, conhecido como Campo "Franco" que começará sua extração em 2016. O resultado pode ser visto à seguir.

Preço do barril em alta

O valor do lucro líquido (VPL) da Petrobras apenas com um campo do pré-sal, daqui 25 anos poderá ser de US$ 150 bilhões, ou em dolar de hoje, 390 bilhões de reais. No gráfico anterior a curva azul é o VPL medido no lado esquerdo e a curva em vermelho o preço do barril estimado pela consultoria. É de amplo conhecimento, que só se deve desisitir de um projeto, se para um período de anos após o início do projeto, o VPL dê como solução um número negativo. Ou seja, alterando-se preços, taxas, insumos, investimentos, se daqui 25 anos o lucro líquido for negativo à preços de hoje, então deve-se reestruturar a empresa ou desistir do projeto.

Logo, segundo alguns textos da mídia, US$ 60 decreta o fim do pré-sal. Será?

Apesar de não ser factível, colocamos o preço do petróleo como constante a US$ 60 por 25 anos. O que aconteceria com o lucro da Petrobras, apenas para o campo de "Franco"?

Preço do barril estável em US$ 60

Pode-se observar no gráfico anterior, que mesmo com esse absurdo cenário que criamos, mantendo o preço do barril em US$ 60 por 25 anos, ainda assim só esse poço de petróleo teria um lucro líquido de US$ 70 bilhões. Numa operação matemática rápida, como são 10 poços, algo em torno de US$ 700 bilhões, ou RS$ 1,82 trilhões ! Como que o atual preço do barril de petróleo é inviável para o pré-sal?

Estão escrevendo por aí, que é a "agonia do Brasil", que o "Brasil acabou", que "a Petrobras vai falir" e por aí afora uma porção de bobagens. Então simulamos a "agonia do Brasil" fazendo o preço do barril cair exponencialmente ano após ano até chegar a US$ 17/barril.

Surpresa na figura ao lado! O mundo não acaba, e mesmo assim, em valores de hoje, somente esse campo "Franco" teria um lucro líquido de US$ 13 bilhões.

Conforme os controladores de empresas entendem, ainda assim o projeto deveria continuar sendo tocado.

Mas então, para dar respaldo a essa enorme quantidade de textos, que escrevem que o projeto do pré-sal deveria parar por causa dos ladrões, qual deveria ser o preço do petróleo?

A figura ao lado (e abaixo) nos motra que mantendo tudo como antes, mas deixando o preço do barril em US$ 28, então o projeto deve parar. Ou seja, nem perto dos atuais US$ 60.

Se esse fosse o caso, se o barril caísse e estacionasse por mais de 15 anos em US$ 28, aí sim, os catastrofistas de plantão teriam razão. E o projeto não deveria ser deixado de lado porque queremos, ou porque o presidente A ou B é melhor.

O projeto para ou continua com base em operação matemática simples. São estratégias financeiras, que os leigos da mídia deveriam estudar ou se calar, em vez de colocar pânico nos leitores.

No caso do pré-sal, em 25 anos o campo de Franco teria um prejuízo de US$ 475 milhões, o que decretaria sua extinção já antes mesmo de começar a extrair petróleo.

Poderemos ter um cenário com US$ 28/ barril no mundo real? Sim, por que não? Mas não a curto prazo, pois isso quebraria a OPEP e mesmo os EUA. Se US$ 28 quebra a Petrobras, quebra também os EUA, pois o custo da extração de xisto seria tão alto que se tornaria inviável.

Mas nosso principal problema, não é nessa "balela" sobre qual o melhor preço para o pré-sal. A principal discussão é sobre a taxa de juros. E aí, sim, temos um sério problema.

Taxas de juros mais altas, farão os problemas serem antecipados não apenas para a Petrobras, mas para todas as empresas.

 

Queda exponencial no preço do barril de petróleo

 

 

Preço do barril estável e baixo em US$ 28

 

Comparação do lucro do campo para 3 taxas de juros

 

 

 

Lucro do campo com taxa de juros Selic variável ano após ano

 

E o que o governo deveria fazer para não ter que aumentar a taxa de juros referencial? Lição de casa: gastar menos do que arrecada. Não tem mágica.

Criamos então um novo cenário, agora avaliando o poder do governo de combater a inflação. Nossa taxa Selic já está em 11,75% e deverá subir ainda mais no primeiro semestre de 2015.

Mantendo-se as mesmas condições iniciais, sobre o preço do barril sempre crescendo, com os mesmos custos e com a mesma proporção de extração, alteramos apenas a taxa de juros Selic.

E nesse caso, sim, um problema sério apareceu (figura ao lado)

Com taxa Selic de 10%, o campo de "Franco" é viável com lucro líquido em 25 anos de US$ 150 bilhões (curva azul no gráfico ao lado).

Se o governo mantiver por muito tempo uma Selic de 12%, observa-se uma queda acentuada no lucro do campo Franco, mas ainda assim viável. O lucro nesse caso seria de US$ 76 bilhões (curva vermelha).

E se a Selic chegar e ficar por muito tempo em 15%, o campo de Franco deveria ser colocado em repouso, pois em 25 anos o prejuízo (curva verde) seria de US$ 2 milhões.

O leitor deve ter percebido, no entanto, que existe uma falha nessa técnica. A taxa de juros nunca fica constante e muito menos por muitos anos.

Deixar uma taxa de juros em 15% por mais de um ano, é aumento de desemprego, e nesse caso, um caos total como nos anos 1980 com o governo Sarney e Collor. Fernando Henrique deixou a taxa em 50% na crise de 1998 e quase quebrou tudo que construiu.

Então criamos outro cenário. Agora simulamos o governo tentando controlar a inflação (figura ao lado), aumentando a Selic até 15% e deixando alguns anos nesse patamar (curva azul). Depois, lentamente diminuímos a taxa até níveis de 7% ao ano.

E nesse cenário um pouco mais real, o campo de Franco volta a valer a pena (figura ao lado), com lucro líquido em 25 anos de US$ 82 bilhões.

Para não deixar dúvidas, colocamos um cenário agora onde o preço do barril também será variado ao longo dos anos. Supomos que a tendência do barril seja realmente de queda. Ao longo de 25 anos, supomos que começa com US$ 60 e devido às outras descobertas de energias renováveis, a demanda caia. Com isso o preço do barril poderá despencar. Mas ele não vai cair de uma única vez, mas em patamares. Supondo que dos atuais US$ 60/barril, o preço cai para US$40/barril e por fim a US$ 20/barril em 25 anos.

Seria ainda rentável continuar com o projeto do campo "Franco"?

O leitor poderá observar em vermelho que fomos modificando gradualmente o preço do barril. A cuva da taxa de juros básica também se alterou como no cenário anterior (azul). A curva em tom verde nos prova que sim, o campo de "Franco" é rentável ao fim de 25 anos, mesmo com essa política perversa de juros altos (mas que declina com o tempo) e queda "soft" no preço do barril.

Com todos esse cenários, ainda podemos concluir que é irreal. Os valores da Selic mudam bruscamente, os valores do preço do barril mudam como ruídos aleatórios, incertos e mal humorados e a taxa de juros depende sempre da economia do país. Então, mesmo nesse nosso estudo, ainda assim podemos ser muito hipotético. Não há como, e seria irresponsabilidade, afirmar que com US$ 28/barril, o campo de Franco dará prejuízo. Como projeto financeiro daria boas discussões nas mesas da diretoria, mas como realidade isso não funciona, pois o preço oscila para cima e para baixo para tantas quantas mudanças de variáveis se desejar.

A única coisa que parece sempre oscilar para baixo é conhecimento teórico, prático e acadêmico de muitos que escrevem textos colocando medo na população. Não será o preço do barril ou da taxa Selic que vão guiar o lucro do pré-sal. O que vai determinar seu destino é a capacidade da Petrobras de vencer e punir ladrões, vencendo com resultados positivos e reais na produção e vendas, colocando um tampão natural na boca de quem escreve o que não sabe.

 

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