Sexta-feira, 02 de Dezembro, 2016

 

Produção não quer calma, quer pressa!

O dia estava lindo e as crianças felizes pelo primeiro dia de férias. Sol, céu azul, tudo perfeito para um bom início de férias. A viagem a Ilha Grande-RJ estava bem planejada e 5 dias seriam poucos para a grande aventura no lugar paradisíaco. Ao entrar no barco em Angra dos Reis, nuvens estranhas começaram a aparecer.

O tempo quente de céu a pino, aquele Sol que arde, convidava para um mergulho. Da Marina de Angra o barco saiu, na verdade, uma traineira de pescador com o timoneiro e seu ajudante. Perguntei ao ajudante:

-Quanto leva para chegar na ilha?

- Não mais do que 50 minutos.

-A travessia do canal é tranquila? Perguntei eu apreensivo com as nuvens escuras.

-As vezes balança um pouco. Respondeu o ajudante.

Que balança um pouco! Quase morri de tanto medo! Como se diz no interior, eu vi a "viola em caco". Quanto mais a traineira se aproximava do canal de Ilha Grande, mais as ondas eram altas e mais o barquinho balançava. Jogava pra lá, jogava pra cá, água entrando por todo lado, barco subindo e descendo e eu pensando:" que irresponsável que eu sou, colocar minha família inteira pra morrer".

Numa determinada hora, ouvi o "capitão" dizer ao ajudante:

-Vai lá na frente e me orienta, não estou enxergando nada!

O ajudante responde:

- Mas a chuva tá gelada, calma que já vou.

- Calma nada, tô mandando agora. Vai lá já e me orienta.

E o ajudante foi, indicando qual o melhor caminho pra fugir das ondas grandes.

Hoje isso parece engraçado, mas no momento, eu não achei nada de graça. Percebi no entanto que o "capitão" era bastante responsável e mandou na hora certa. Apesar de calmo, quando precisou, tomou a decisão e deu ordem. Não tem esse negócio de calma quando o barco está em perigo.

Nessa semana, Michel Temer, extremamente irritado com os péssimos indicadores, bradou para que todos tenham calma e que a situação vai melhorar no segundo semestre de .... 2017! Talvez daqui 10 anos vamos rir dessa afirmação, como sinto graça do meu desespero de Ilha Grande. Mas nos dias atuais, o comandande em chefe, pedir calma, é sinal que o barco tá com água no pescoço.

Não temos que ter calma, temos que ter atitude, ideias, sacodir e espalhar investimentos. Governo é para isso, usar o dinheiro público para fazer o bem, aquecer a economia com projetos arrojados, senão, esquece, não vamos sair dessa lameira.

Como um presidente da República pede calma quando nossa indústria está morrendo? O gráfico a seguir foi composto com dados do IPEA, órgão do próprio governo e nos mostra que de 2014 pra cá não existe melhora nenhuma. É pura mentira dizer e afirmar que a situação agora está melhor, sendo que a atividade econômica desce a ladeira.

A comparação com o Ibovespa (índice das ações da Bovespa) é proposital, para que todos percebam que a bolsa está completamente deslocada da realidade. É o que se chama no jargão do mercado econômico, "atrair sardinhas" para dar o golpe. Grandes fundos exibem relatórios magníficos, com projeções futurísticas para 2018, 2019, ...mas não conseguem prever o que acontece no mês que vem.

E quando pequenos investidores entram comprando no mercado de ações, os fundos vendem. E tudo desaba.

Uma bolsa de valores sólida é aquela que não vive no mundo dos sonhos, inventando motivos para ser feliz, mas sim, aquela que reflete a esperança em dados reais da economia. Como se pode ver a seguir, a produção de aço bruto não reage a nada. Hora tem uma pequena alta, hora tem queda mais forte. Mas mesmo assim, mesmo com a produção caindo, a bolsa subiu forte. Movida pela .... esperança.

Nossas siderúrgicas, as quais empregam muita gente e cidades inteiras dependem delas, estão afundando. Os dados do IPEA mostrados no gráfico a seguir, nos mostra que a produção de ferro-gusa está despencando desde novembro de 2014.

Claro que quando dá saltos e altas sazonais, o governo vende a ideia de que a produção está "reagindo". Claro que não, a tendência é de queda forte. E mesmo assim, o Ibovespa teve seus momentos de rally.

A produção de ferro nos mostra o quanto as indústrias estão aquecidas, pois esse tipo de produto está nas obras de empreiteiras, nas construções civis, nas embarcações, nos chassis de automóveis, enfim em tudo o que produzimos. Não é surpresa nenhuma que o PIB está caindo e vai cair mais do que a estimativa do governo.

O termômetro é a produção. Produção parou? País morreu!

É possível observar que também a produção de laminados está em queda forte. Não reage como o governo e a imprensa tentam vender.

A produção de laminados está visivelmente seguindo a tendência de queda. A figura ao lado não deixa dúvidas.

Mas claro, sempre vai ter alguém que vai observar a alta de janeiro a julho desse ano como uma "reação". Que reação?

Para algo no mundo econômico realmente esboçar reação, a trajetória de alta deve ser bem consistente e contínua durante muitos meses. Talvez até mesmo um semestre inteiro, para podermos dizer que o cenário é de "confiança".

A imprensa e o governo levaram um susto quando viram os dados da produção de automóveis. Só existe surpresa para quem não entende de dados, gráficos e tendências.

Ao lado colocamos uma comparação entre a produção de automóveis e o Ibovespa. Novamente se vê que o rally da Bovespa é "teórico", "inventado", nitidamente para funcionar como isca de "sardinhas".

A tendência de queda na produção de automóveis deve continuar (linha laranja ao lado). Em dezembro a produção pode até aumentar um pouco, pois existe a expectativa do aumento das vendas de natal.

Mas lá para fevereiro ou março a queda pode ser ainda maior do que vemos no gráfico ao lado. E se isso se confirmar, mais gente será despedida e o número de desempregados vai disparar.

Dos 231 mil veículos montados em outubro de 2014, hoje a produção é de 131 mil.

A queda é de 43% na produção de veículos. Sim, 43% e esse valor não se recupera em um mês ou trimestre. Vai levar pelo menos um ano para se tentar chegar ao patamar de 2 anos atrás.

Claro, isso se a crise passar.

Mas com a aprovação da PEC do teto dos gastos no Congresso, os investimentos do governo, que poderiam ajudar o setor de produção, não vão poder ajudar os setores mais produtivos.

Mês de Outubro 2016 - Recorde de 27 mil acessos

 

 

Análises semanais do mercado teve 57 mil acessos em 3 anos

 

 

Depois do Brasil, Portugal e Alemanha foram os maiores acessos

 

 

E juntando todos esses indicadores num único indicador, nós temos o índice de produção industrial (ao lado) que é medido no eixo da direita.

De janeiro de 2014 até setembro desse ano (última medida do IPEA) esse índice caiu 36%. Nossa atividade está respirando por aparelho.

Novamente, sempre vai aparecer comentários dizendo que as coisas estão melhorando, pois já esteve pior, em janeiro desse ano.

Essa é uma tese para ludibriar quem não entende de tendência. A produção industrial poderá sim melhorar. Mas para que possamos visualizar esse fato, o índice deveria crescer para além de 80 pontos no gráfico ao lado (laranja).

Na verdade o que vemos e sua estabilização em 70 pontos por dois meses.

E essa é uma comparação importante, pois podemos ver que o Ibovespa está totalmente descolado da realidade do nosso dia a dia.

Então, se uma bolsa de valores existe para refletir a saúde das empresas, para negociações que envolvam o valor tangível das empresas, para que reflita o desempenho trimestral das empresas, como pode esse índice subir tanto, se a produção nacional está "capenga"? Só tem um cenário de curto prazo: queda forte na Bovespa.

Sempre que índices de bolsas, ou valores das ações, se distanciam muito da realidade das empresas, uma forte correção acontece, seja ela lenta ou abrupta. Isso pode virar uma crise ou não, depende de outros fatores.

No caso brasileiro, os dados de todos os lados mostram estagnação, mostram paradas ou quedas nos medidores. Como vimos nos dados anteriores (e existem outros tantos no IPEA) a tendência de queda é geral. Nesse caso é muito mais preocupante, pois caso o Ibovespa se corrija muito forte, pode afugentar grandes e pequenos investidores e aí sim, levar a uma crise sem solução.

Então, assim como nosso timoneiro do barco, o presidente da República não deveria pedir paciência, mas agir. E não agir com políticas, mas agir para investir. Estar atrelado a uma PEC a qual vai agravar o momento em que vivemos, e ainda por cima pedir "calma", é sinal de total afastamento da realidade que está descrita nos próprios dados do governo.

Se o capitão do nosso barco não tivesse ordenado ao ajudante para ir à proa, o barco com certeza tinha virado no meio do canal, pois todo marinheiro sabe que se cortar errado uma onda, é pedir para afundar uma embarcação.

Talvez valesse à pena nosso "capitão" dar algumas aulas ao governo, sobre hora de pedir "calma" e hora de agir. As ondas estão entrando em nossa economia, e se uma mais forte bater, o Brasil afunda de vez, como na época de outro pmedebista, José Sarney em 1986.

Se esse barco virar......

 

 

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