Quinta-feira, 08 de Junho, 2011

 

 

Pronto para pular?

 

Foto: Brian Bielmann/BBC

Quando pequeno, você ganha uma medalha de um grande ídolo mundial. Isso é um incentivo para seguir a carreira e repetir os feitos do mesmo, se espelhando em seus atos pródigos. O grande problema é que mesmo esse ato singelo e marcante pode se revelar anos depois uma tremenda fraude, ou apenas uma cena não tão grande assim que ficou em sua memória. Muitas histórias de decepções entre ídolos e fãs ocorreram e vão continuar ocorrendo no mundo. Algumas de maneiras trágicas, como o louco que assassinou John Lenon em pleno centro de New York, outras mais engraçadas como a estória do "big Z", do desenho animado "Tá dando onda" (Surf's Up, em inglês) da Sony Pictures.

Na estória do "big Z" um pequeno pingüin (Maverick) corre atrás de seu sonho de ser como seu ídolo "big Z", um grande surfista que desaparece num campenonato. Depois de surfar numa onda gigante, big Z desaparece supostamente morto, com sua prancha chegando à praia toda destroçada. Virou lenda para o jovem pingüin que tenta repetir esse feito. Quando encontra "big Z", que não estava morto, o jovem pingüin se desespera diante da realidade. Por que seu herói se escondeu de todos o tempo todo? Percebe que "big Z" cometeu erros e que tem os mesmos defeitos dele, um pingüin jovem e ansioso pelo sucesso.

Essa é a estória de um jovem país que almejava ser como seu ídolo, grande, imponente e sempre potência. Mas depois de crescer percebe que não existem heróis, que não existem economias fortes e que seus erros sempre criticados são os mesmos do seu ídolo. Brasil e EUA se encaixam na estória do "big Z". Por que?

A semana tão esperada para os EUA começou mal e o mês já está complicado. O Federal Reserve vai parar com sua ajuda artificial ao mercado americano. E a discussão sobre o déficit, sobre a crise, sobre a recuperação, começou embolada com diversas estatísticas decepcionantes apontando para problemas grande, grande "big Z". Nosso herói (EUA) se revela a cada mês tão endividado quanto nós, pobres pingüns econômicos. O rombo do déficit americano bate recorde atrás de recorde e poderá chegar a mais de 1,6 trilhão de dólares nesse ano. Em fevereiro esse déficit já estava na casa dos 650 bilhões de dólares.

Ao observar o gráfico abaixo, dá para sentir a dimensão do problema do governo do presidente Obama.

 

Esse é o gráfico do rombo dos EUA que se acentuaram com a crise de 2008. E depois pioraram com a tal ajuda do FED, injetando dinheiro sem lastro na recompra de títulos da dívida. O Federal Reserve apostou errôneamente que a ajuda de 800 bilhões no início da crise e mais 600 bilhões na recompra dos títulos, tiraria os EUA do lamaçal financeiro. Apostava que o desemprego diminuiria aos poucos e que uma recuperação se seguiria nesse ano de 2011.

Para não dizer que essa crítica agora é fácil, no texto "Rojões sem pólvora" em 11/02/2010 já alertávamos para o discurso vazio e sem sentido do presidente do FED sobre a ajuda dos 800 bilhões de dólares. No texto "Um olhar para o desemprego" em 28/2/2010 tínhamos um ar de solitário e perdido dentro do universo otimista dos analistas. Todos diziam que a crise tinha terminado, e teimosamente mostrávamos que não, postando gráfico do desemprego sem volta.

Retornando e colocando o mesmo gráfico (ao lado) o que mudou? Nada é a resposta. O desemprego caiu até 9% e agora volta a ganhar força para 9,1% e deverá voltar aos mesmos 9,4% de 2010. A política do FED foi boa sim, mas para bancos e fundos de investimento e não para a economia americana. E por tabela também não foi boa para a economia mundial.

Essa lembrança se faz necessário pois hoje o FED divulgou o livro "bege" onde relata que das 12 regiões dos EUA, 4 estão muito mal e devagar. O livro fala ainda da situação de queda nas vendas e importações do Japão por conta do tsunami e ainda no preço alto do gás e combustíveis. Segundo o livro, as regiões que cresceram mais devagar eram regiões onde estão instaladas fábricas japonesas.

Avisamos isso no dia seguinte ao terremoto ( "Super tremor no Japão vai abalar a economia mundial", leia) que a conseqüência não ser tão simples quanto todos da mídia e governos relatavam. Com a mania de não revelar a verdade para não "assustar" o mercado, órgãos governamentais, que teriam a chance de resolver uma pequena crise, jogam para o futuro (no caso esse mês) uma bolha de problemas sem solução. Mostramos no texto do dia 11 de março que a tendência após o terremoto de Kobe foi queda por mais de 6 meses na economia japonesa. Alertamos que no caso desse ano, a queda seria ainda mais duradoura e terrível.

Percebe-se claramente no tal livro "bege" um desânimo nas palavras do presidente que esperava crescimento vigorante com sua ajuda de recompra dos títulos. Foi decepcionante para todos os membros do FED e da população dos EUA os dados desse mês. Ou seja, o programa de jogar dinheiro sem lastro no mercado terminou, o rombo está impagável, o desemprego volta a aumentar, a confiança americana volta a cair e o prestígio de Obama volta a ficar abalado. A nova crise (ou a mesma) está começando ( ou recomeçando) como alertamos no texto "Nova crise já tem dono: Federal Reserve". Profecia? De forma alguma, apenas observação e história que sempre se repete.

Mas por que estamos contando tanta coisa que está mal na economia dos EUA? A resposta é que desgraça de menos não tem interesse. O grande problema é na verdade um problemão que vai estourar nos próximos dias. Pegue sua prancha e esqueça o "big Z". Na reportagem do yahoo, o FED dá um alerta obscuro e sinistro. O título (traduzido) é "Fed: calote seria perigoso; Fitch pode cortar notas". Ou seja, começaram a falar em calote americano nos títulos que eles recompraram?

A reportagem é sobre o corte do AAA dos títulos de dívida americana pela agência Fitch. Isso aconteceu exatamente uma semana depois que outra agência a Moody's já alertou que está estudando cortar as notas dos títulos mais seguros do mundo! O leitor pode estar perguntando: qual a razão? Resposta: déficit impagável em agosto!

Surpresa? Nenhuma, pois a história como já alertamos em outros textos, está sempre bem clara escrita em códigos só decifrados com muita calma e observação. Para as duas agências alertarem o que poderão fazer é porque que vão fazer. Mas o mais preocupante é que o FED usou essa palavra de preocupação também. Por isso o Senado americano está pegando fogo nessa semana em discussões intermináveis sobre cortar ou não o orçamento de Obama. Por outro lado o presidente Obama não quer pois, acredita nas ações do FED, mas a oposição política dos EUA quer cortar assim mesmo.

Se você tem sua pranchinha, volte para a areia. Se acha que é profissional, seja como o "big Z". Pelo menos ele ficou vivo para influenciar positivamente o jovem pingüin e os dois viveram felizes para sempre.