Quarta-feira, 4 de Agosto, 2010

 

 

E a recessão está chegando

Por que temer a recessão mundial? Como resultado de um crescimento exagerado conhecido como bolha, a recessão sempre ocorre. Não adianta os governos jogarem dinheiro público para evitar uma recessão. Na verdade deveriam economizar dinheiro público para amenizar as conseqüências da estagnação. Na década de 1990 quando os EUA estavam em crescimento exagerado, onde empresas conhecidas como "dot com" (representando internet com ".com") valiam mais do que propriedades solidamente construídas, o presidente do FED Alan Greenspan professou: " A águia tem que pousar" e deve ser um "pouso suave" .

Então o FED aumentou a taxa de juros americanos para atrair os investidores para os títulos da dívida americana e forçar os preços do mercado caírem. Quando a bolha estourou o FED entrou em desespero e começavam a se perguntar se a dose do remédio não era alta demais. Com taxas mais altas de juros, os EUA tinham que pagar mais para os investidores e isso diminuia ainda mais sua poupança interna. Então o FED resolveu baixar as taxas de juros gradualmente a níveis históricamente baixos.

Os mercados reagiram e se inflaram na bolha das hipotecas. A bolha da hipoteca estourou em 2008 e os juros que não estavam tão altos (por volta de 5% ao ano) foram a zero. No japão literalmente o juro anual é nulo se desconsiderar a inflação. E agora? Outra bolha está formada e vai estourar. É a bolha dos bancos que usaram empréstimos públicos para jogar no mercado de ações. Os lucros apresentados nessa semana por bancos americanos, ingleses e brasileiros não são reais, pois não se baseam em serviços reais, mas na especulação recorde do mercado financeiro. Na tentativa de segurar a bolha desses bancos, as regras do mercado americano mudaram, mas ainda não foram implementadas ( "Começam as restrições em Wall Street"). O secretário do tesouro americano alertou que as regras precisam entrar rapidamente em funcionamento. Ele já percebeu e está dando sinais ao mercado que tem coisa errada. Lembrando do nosso texto "O código das bolsas" , quando um recado vai ser passado ao mercado ele nunca é direto.

O presidente do FED também nessa semana semeou algumas frases dizendo que a economia americana está bem, que o pior ficou para trás, mas que "temos um longo caminho para recuperação plena". E Nouriel Roubini, hoje em seu artigo está afirmando que o quadro de recessão se formou e a crise vai ser em W. ("Uma época de recessão em W", Nouriel Roubini) . Ele afirma no artigo que na melhor das hipóteses estamos diante de um prolongado período de crescimento anêmico. Claro que vão continuar chamando ele de Dr. Doom, mas ele está certo ("O oráculo de Cassandra").

Dean Baker do jornal "The Guardian" inglês afirma que a economia dos EUA não está em franca recuperação e os 2,4% do PIB é bom mas não muito. Para ele o grande problema ainda está no mercado de casas. As vendas cresceram com a injeção de recursos, mas passada essa primeira fase o mercado começa a dar sinais de estagnação.

Se a tudo isso lembrarmos da taxa recorde de desemprego de 10% nos EUA (já discutido em "Um olhar para o desemprego"), não se tem motivos para altas tão expressivas e descabuladas como na semana passada. Estatística de confiança de consumidor, ou relatórios de lucros altos quando comparados com 2009 não são motivos para tamanho crescimento das bolsas. Até porque comparar 2010 com 2009 é outra artimanha estatística, pois 2009 foi horrível para o mercado financeiro. Mais quatro bancos dos EUA foram fechados nessa semana ( veja nossa discussão em Abril, "Bancos não param de falir nos EUA").

Quantos bancos americanos faliram em Julho? No texto "bancos não param de falir nos EUA" tem um link do Federal Deposit Insurence com essa informação. Poderá se perceber que somente em Julho o governo americano fechou 22 bancos! Em Junho foram mais 8 bancos. Então quem está reportando lucro não teve lucro, é dinheiro do próprio governo especulado, pois os bancos que não tomaram empréstimos estão fechando. É só olhar os dados reais e não as estatísticas manipuladas do mercado.

O aumento no preço do petróleo é motivo para impulsionar as bolsas? O preço do minério em alta é motivo para um crescimento sólido da economia? Claro que não.

 

O que é o duplo dip em W?

Mas o que Nouriel Roubini, Peter Schiff e Paul Krugman estão dizendo sobre "double dip"? Já comentamos que concordamos com eles sobre a recessão mas não com a letra em W tão falada por eles para representar a nova fase da crise (" A letra da crise"). Como dissemos no texto, dessa vez a letra não será W mas "n", onde Roubini agora chama de período anêmico.

Quando se fala em duplo fundo é porque a recessão mais longa ocorreu entre 1960 e 1974 quando uma estagnação mundial pós-guerra aconteceu no mundo. Com a guerra fria o comércio era mais restrito e pequeno. Quando ocorreu o grande problema com o petróleo saudita no começo da década de 1970 o mercado se estagnou e afundou formando a letra W. Veja a figura a seguir. A ilustração mostra o período onde o Dow Jones ficou estagnado entre 600 pontos e 1000 pontos.

 

 

Pode-se reparar como sempre após um "rally" do mercado e euforia, como entre 1963 e 1965, o índice tem uma queda. Depois torna a aumentar como entre 1966 e 1968 e logo depois retorna a níveis de 1958 (10 anos antes!). E então cresce para recorde de 1000 pontos e cai novamente para níveis de 1958. Se observar o padrão atual é um pouco parecido com daquela época, mas não igual.

E o pior, a diferença é que dessa vez os EUA estão com 1 trilhão de dólares em débitos, com a população endividada e com o mundo em desconfiança nos níveis de desemprego. Cada nova notícia da semana é motivo para comprar e vender. Os investidores não estão mais pensando em longo prazo, apenas em recuperar o que perderam, ou cair logo fora para não perder como os outros que perderam.

Que padrão isso chegará? No texto dessa semana sobre modelos de evolucionismos ("Darwin, as bolhas e crashes do mercado de ações") mostramos que esse padrão de "sobe e desce" só chega a um lugar: recessão prolongada sem crescimento de valores dos ativos. Mesmo que num modelo rudimentar, simulado por computador, foi possível notar e corroborar com as afirmações dos chamados "pessimistas".

No mercado de ações deve-se ter cuidado com as notícias em geral pois, "notícias ao ar faz o dinheiro voar".