Quarta-feira, 22 de Setembro, 2010

 

 

O "efeito Nikita" do JP Morgan

O ano é 1962 e a região é a ilha de Cuba. O grande amigo de Fidel Castro era Nikita Khrushchov, na verdade o único "amigo" de Fidel na época pós-morte de Che Guevara. Nikita era o presidente da então poderosa União Soviética (URSS). Quando se tem como amigo uma pessoa sem instrução nenhuma, que tirava os sapatos para bater em mesas de reuniões e vivia sentado em ogivas nucleares, quem precisa de inimigo? Nikita recomendou a Castro que precisava se defender dos EUA, pois estes tinham plano de invadir a ilha. Na verdade, Fidel venceu os americanos quando tentaram por diversas vezes tomar o poder e depô-lo. Inclusive contam-se que escapou de envenenamento em episódios que lembram filmes de espionagem. O "efeito Nikita" foi articulado numa aposta de que, ao instalar mísseis em Cuba, a URSS tinha um fundo de investimento de curto prazo. Nikita tinha certeza que seu plano daria certo pois os EUA não iriam retaliar e se expor à uma guerra tão perto da população americana.

No curto prazo ganharia desestabilizando John F. Kennedy, presidente dos EUA e se livrando da pressão interna devido aos problemas econômicos. Mudaria o foco e sairia nos braços do povo russo e cubano. No longo prazo teria uma base dentro da América para expansão do comunismo russo. Mas Nikita esqueceu de avisar Kennedy de seu plano. E teve que sair correndo de Cuba, humilhado e perseguido por esquadrão de bombardeiros americanos. Conlcusão: Nikita caiu e foi preso, morrendo em 1971 na prisão domiciliar.

Nikita morreu, mas seu efeito de "amizade" e "recomendação" continua modernizado no século XXI. As agências de recomendação e bancos de investimentos que possuem analistas de recomendações seguem de perto o "efeito Nikita". Ganham na desestabilização das bolsas e economias mundias, que recebem o singelo nome de volatilidade.

No dia 05/07/2010 o JP Morgan recomendou forte exposição para o Brasil e todos os emergentes. Dizia o analista do JP Morgan: "Pense no longo prazo". A profecia do analista era que o petróleo iria cair abaixo de US$65,00 e que todo mundo deveria se expor e comprar todo tipo de ação nos emergentes. Errou.

O que é um pensamento de longo prazo para o JP Morgan? Solução: 3 meses!

No dia de hoje (22/09/2010) o mesmo JP Morgan mudou de idéia e agora Brasil e China terão desempenho pior do que o resto do mundo. O nome elegante para isso é "underweight". Mas por que o JP Morgan mudou de opinião no cenário de "longo prazo" de 3 meses? Não, o JP Morgan não mudou de opinião, está bastante coerente com sua própria opinião. Ir à imprensa e divulgar que tudo vai melhorar quando eles estiverem "comprados" e depois voltar a imprensa e divulgar " que tudo está indo mal" quando estiverem "vendidos". Sempre estarão ganhando e desafiando o mercado e os seguidores assim como o dirigente russo. O problema é que as vezes pode aparecer um Kennedy chamado "sub-prime" e o plano quebra.

Observando o gráfico abaixo do Ibovespa, percebe-se que alguém com tamanho poder que recomendasse uma forte compra no dia 5 de Junho aos seus investidores (e claro que eles vão atender) teria ganho até o dia de hoje 11,2%.

 

 

Mas por que ganhar 11,2% se pode ganhar mais? Os investidores chamados de pequenos ou também comumente ditos com "aversão ao risco", sempre vão olhar para os preços à vista. Sempre vão olhar para depois de um ano ou mais. O que grandes fundos e agências ligadas à grandes fundos olham é para seus mísseis cubanos apontados diariamente para as bolsas. Eles ganham na volatilidade. Marasmo não é bom, não tem graça para se ganhar dinheiro.

Qualquer um poderá pegar sua planilha Excel e verificar nesses 3 meses quanto foi a variação dos preços diariamente. Basta subtrair o Ibovespa (por exemplo) de um dia em relação ao dia anterior. Ao se fazer isso vai obter o gráfico a seguir.

 

VOLATILIDADE DIÁRIA DO IBOVESPA DESDE JULHO DE 2010

 

Os dias não foram calmos como parecem. As variações às vezes foi para além de 2000 pontos em certos dias. Emitindo uma nota na imprensa ou relatórios para investidores que possuem bilhões, qualquer 1000 pontos faz um estrago em termos de ganhos. Por isso a indústria de recomendações não pode parar e não importa se elas estão certas ou erradas, o importante é recomendar e aumentar a volatilidade.

Interessante são as declarações que no jargão do mercado sempre dizem: "os investidores estão nervosos e entendemos que a volatilidade vai aumentar no próximo trimestre". Os investidores nervosos? Ou os investidores seguem as recomendações para ficarem nervosos?

Soltar um relatório de longo prazo para 3 anos e errar, ter a humildade de revisá-lo a cada ano é uma coisa. Mas dizer que se deve pensar em longo prazo e 3 meses depois mudar a recomendação, é clara técnica de manipulação do mercado. O que essas agências se esquecem, é que assim como Nikita, estão sentados em ogivas nucleares e a hora que errarem a "perna" de entrada e saída, podem causar um efeito cascata em outros bancos de investimentos. Com o mundo financeiro mais fragilizado, pode não dar tempo de disparar a ogiva e ela vai explodir em seus próprios colos.

O investidor de longo prazo deve ouvir música e não recomendações de agências. Só para descontrair, que tal ouvir "Nikita" de Elton John? Com isso o investidor não ganha dinheiro, mas ganha saúde.