Domingo, 06 de Setembro, 2015

 

Refugiados do medo

A nação Canaã teve início com o filho de Noé, chamado Cam, que foi amaldiçoado por ter zombado da nudez do pai. E os cananeus são também chamados de Sirio-fenícios, porque esse povo dominou a costa da Fenícia na cidade litorânea Sidom. Os fenícios foram grandes navegadores e comerciantes da antigüidade, sendo responsáveis pela invenção do alfabeto. Esse povo foi o primeiro a circunavegar a Africa e sempre estiveram na passagem de grandes eventos da história, sejam nas cruzadas, sejam no império romano, ou ainda na idade contemporânea, na época da segunda guerra mundial. E hoje essa região é conhecida como Síria.

A Síria foi durante muitos anos dominada por Califas, com territórios sempre mantidos a ferro e fogo pelos ditadores. Ainda no século XX a Síria era dominada pela França, que entregou o país após uma revolta popular e sob a resolução da ONU. Com a França fora do país, a Síria tentou viver num mundo de democracia, com parlamento e eleições para primeiro ministro.

Mas um golpe militar em 1970 traçou a trajetória para a "moderna Síria". Em novembro de 1970 o general Hafez al-Assad assumiu o poder e fez uma reforma geral na economia e na área social. O país sempre foi uma nação bélica e fortemente armada, sendo contrária às políticas de paz para Israel e Egito. No histórico acordo de paz de Camp David promovido pelos EUA, a Síria fez oposição juntamente com a Argélia, o Iêmen e a OLP.

A paz com o Egito somente foi selada em 1990 e no conflito da invasão do Kwait pelo Iraque de Sadam Hussein, a Síria se alinhou à força árabe, o que por tabela, acabou ficando do mesmo lado dos EUA, Inglaterra e França. Com isso, sua relação com os EUA melhorou muito e os negócios e comércio fizeram o país deslanchar economicamente.

E então, para entender a atual crise que está destruindo o país, devemos olhar para o ano de 2000. O ditador general Assad morreu, e seu filho Bashar al-Assad assumiu o cargo, apertando o cerco contra a sociedade e limitando gradualmente as liberdades, que apesar de poucas, ainda existiam na nação.

Ditador Bashar al-Assad

Não se pode chamar alguém que herda o cargo de presidente de um ditador, como um presidente. Os atos de Bashar al-Assad ano após ano foram sendo criticados pelo mundo. A opressão e atos contra a democracia fizeram os EUA impor sanções econômicas contra a Síria sob acusação de terrorismo. A acusação é que Assad permitia a entrada de terroristas no Iraque, hospedados na Síria, para combater tropas americanas.

Em janeiro de 2011 estoura uma revolta popular na Síria, em protesto à morte de garotos que haviam pintado cartazes e reunidos grupos para protestar contra o ditador Assad e a falta de liberdade. De janeiro de 2011 até esse ano, segundo a ONU, mais de 70.000 pessoas já morreram. Mas com certeza esse número está subdimensionado.

Em diversos sites já se estima que dos 20 milhões de habitantes do país, cerca de 9 milhões tiveram que deixar suas casas e estão vivendo em campos de refugiados nas fronteiras. Foi daí então, que não tendo apoio internacional, grupos e levas de refugiados em desespero e com fome, estão deixando a região em busca de um futuro melhor, na Europa ou qualquer outro lugar seguro do mundo.

Segundo o ditador Assad, a destruição das cidades é promovida pela oposição, com armamentos fornecidos pelos EUA. E com um enorme poder bélico, a repressão do governo é violenta e indiscriminada, usando as forças armadas para lançar bombas em qualquer lugar, em qualquer cidade, sem se preocupar com seu próprio povo.

A Síria, como país, acabou. Game over para o Estado, que agora está na bancarrota. Não existem mais leis, não existe mais sociedade. Existem apenas os que são a favor de Bassar al-Assad e os que querem fugir.

Os que são contra já migraram para outra forma de terrorismo: O Estado Islâmico. Quando o Estado desaparece, surgem as formas mais absurdas, as fomas mais assustadoras de domínio dos fracos e oprimidos. A população carente agora sem casa e sem governo, também se vê sem liberdade, mesmo fugindo.

O Estado Islâmico surgiu dessa falta de propriedade da ONU de intervir da forma mais dura e extensa sobre a Síria. Agora o problema está incontrolável na região, e quando é incontrolável, a melhor solução é cada um por si.

É possível notar nos gráficos ao lado o quão sério está a economia da Síria. O primeiro gráfico ao lado mostra a projeção do PIB antes do conflito começar em 2011. Mas com o conflito, em quatro anos, o PIB caiu mais de 70% do que era em 2010.

Na se exporta na Síria e nada se importade lá. O amontoado de gente em Damasco vive às custas do apoio ao ditador. Quem apóia o ditador, possui ainda algo para trocar, para negociar e para comer. São os restos do dinheiro adquirido na opressão de 30 anos de ditadura.

Como visto no gráfico ao lado, da balança comercial que girava em torno de 15 bilhões de dolares para a importação e 10 bilhões de dolares para exportação, após 2013 está praticamente em zero.

PIB da Síria antes de depois do conflito

 

Comércio da Síria com o mundo

Desemprego, Inflação e impacto no PIB da Síria

 

Produção de petróleo na Síria

 

Segundo estimativa da bloomberg (ao lado) o desemprego na Síria está por volta de 60%. Com certeza é maior do que isso, visto que não existe mais economia.

A inflação atingiu 80% em 2013 e estimativas afirmam que foi de 40% em 2014. Com certeza, também deve ter sido muito maior do que isso. O escambo com troca direta de mercadorias domina as ruas das cidades que ainda restaram.

As cidades agora, ou são do governo, ou não existem. E as poucas que existem agora fazem parte do auto denominado Califado Islâmico. São os malucos que estão decaptando pessoas, principalmente ocidentais que trabalham no Oriente Médio.

E esse Estado Islâmico, para desespero dos americanos, já domina alguns campos de petróleo. E a produção continua e estão vendendo esse óleo. Mas para quem? Quem compra petróleo de terroristas?

Os principais negócios são com os terroristas que vendem armas poderosas para o Estado Islâmico, e dáí se destacam os grupos de mafiosos russos e chineses.

Ao lado pode-se verificar que dos 300 mil barris/dia a Síria hoje exporata quase nada. A exportação oficial é praticamente zero, mas a exportação do Estado Islâmico continua a produzir dinheiro para os armamentos.

E é por isso que dois fatos marcam essa história. Primeiro é que o ditador Bassar al-Assad não é deposto, pois tem apoio da Russia e China. E o conselho de segurança da ONU fica travado, visto que Russia e China tem cadeiras permanentes.

O segundo fato é a onda de imigração. Sem Estado, sem governo, sem dinheiro, e com perseguição de um lado pelo ditador e por outro pelo Estado Islâmico, as pessoas de bem, as pessoas que cuidam de sua família estão fugindo em desespero.

E mesmo com tudo isso, não dá nem para imaginar o desespero dessas pessoas que conseguem sobreviver ao transporte pelo mar quando chegam na Europa. Essa onda de refugiados crescente tende a aumentar, caso a ONU continue em silêncio. Esse povo que está chegando a Europa são famílias e não terroristas.

Ao aportar na Europa, no início foram tratados como bandidos, como pedintes vagabundos e colocados em campos que mais parecem campos de concentração nazista. Que revolta não deve passar na cabeça de uma pessoa que vê uma embarcação virar, matando pessoas da própria família, amigos de infãncia e centenas de crianças e ainda são tratados como terroristas.

Imagine, caro leitor, que esses refugiados não tem mais país, não tem mais governo, não tem dinheiro e nem dignidade, e ainda quando chegam à Europa são aprisionados! O que poderão virar essas crianças que hoje estão viajando sem rumo. Essas crianças são nitroglicerina pura, prontas como uma bomba relógio para explodir no futuro.

Se essas crianças que viram mães e pais morrerem, se essas crianças que hoje passam fome, não forem devidamente acolhidas, daqui 10 anos, o 11 de Setembro será um episódio pequeno. Se essas crianças forem arrebanhadas por loucos extremistas que lhes deêm comida, armas e façam lavagem cerebral religiosa, dentro de 5 anos o Ocidente pagará caro, muito caro por esse descaso.

Estimativas falam que só nesse ano chegaram à Europa mais de 300 mil refugiados. Não basta abrigar famílias, não basta pedir para que todos os europeus deêm emprego, abrigo e comida. Essas pessoas querem voltar para seu país, querem ter seu próprio dinheiro e sua vida de volta. A ONU deve intervir imediatamente na Síria e reestabelecer a região como um país. Se a Síria voltar a ser país, esses refugiados terão novamente seus lares, sua vida e sua tradição de volta.

Intervir hoje na Síria é evitar outro 11 de Setembro com muito mais mortes no futuro. Se esquivar ou relevar a situação apenas como ajuda humanitária trará consequências caóticas no futuro. Essa não é uma situação de ajuda humanitária, é uma situação de reestabelecimento da dignidade humana e da recriação de um Estado que está na mão de um ditador sanguinário e inconsequênte.

Não basta as pessoas ficarem constrangidas ou melancólicas com a forte imagem do garotinho Alayan morto, afogado, sendo carregado pelo socorrista. Não precisamos mais ver essas cenas, se todos pressionarem os políticos para intervir na Síria e se esquecerem do dinheiro e petróleo, recriando a verdadeira Síria com suas belas tradições e seu povo maravilhoso.

A ONU precisa trabalhar, para que todos tenhamos na memória apenas belas imagens de um povo com 50 séculos de existência, e não imagens de pessoas morrendo afogadas ou decaptadas por loucos religiosos.

 

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