Quarta-feira, 21 de Dezembro, 2011

 

O que Rodolfo tentou fazer?

Noite gelada não é apenas um jargão nessa região. As noites são eternamentes geladas, mas como sempre viveram naquela região, Rodolfo e colegas estão plenamente acostumados. E ainda por conta do degelo estão até sentindo alguns efeitos tal como um calor em plena época de inverno. Ao ser chamado para detalhar os planos, Rodolfo resmungou algo inaudível, traduzido prontamente pelo diretor executivo. "Ah sim, devemos primeiro ir à Europa, mas talvez no caminho eu mude de idéia e iremos à China".

"Não, não, não, esqueça os BRICs, vamos à China. Se lá estiver tudo bem, o resto do mundo estará. Na verdade, falando assim já acho melhor mudar os planos agora e vamos primeiro à China", afirmou o senhor sorridente. Vamos depositar grandes pacotes de esperança lá, pois se crescerem o mundo estará salvo. Novamente Rodolfo resmungou algo que tirou o bom humor do chefe: " Já disse para esquecer BRICs, eles estão bem, somente marolas de problemas. A Europa é mais complicada, vamos deixar para o último lugar. Quem sabe até chegarmos lá, Merkel e Christine Lagarde convenceram os homens a tomarem atitudes de verdade".

Rodolfo não gostou, mas chefe é chefe. Rodolfo viu os últimos dados do emprego com carteira assinada no Brasil e isto lhe preocupou demais. Quem sabe no meio do caminho persuadir os colegas a mudarem de plano? Por que não ir à Espanha em primeiro lugar? Sem chance, eles acham que já sabem tudo e que conseguem resolver tudo sozinhos. E a Itália? Nem pensar, o rombo é muito grande, nada que fizer vai agradar. Humm, ..., França? Logo saiu do pensamento, ia alertar o mundo financeiro que algo ruim iria acontecer. Talvez Alemanha, ou Inglaterra? Não, esses são tão responsáveis que nem deixariam entrar.

O Brasil parecia uma boa opção. O povo do Brasil é sempre otimista, sendo até cego diante dos problemas. Talvez a precária educação o tornavam um povo muito feliz por isso. Sem saber calcular o tamanho do problema, para eles tudo parece pequeno, saudável e tem soluções fáceis. Rodolfo tinha visto alguns comentários que os mais realistas estavam sofrendo duros golpes por conta dos "otimistas" de plantão. Alguns empresários e analistas estavam rindo a todo momento, desfazendo-se de qualquer estatística ruim. O próprio governo estava dizendo que em 2012 a meta de crescimento é de 5%. A bolsa de valores tinha que subir a qualquer custo. Qualquer informação boa deve ser transformada em excelente.

 

Rodolfo olhou para o gráfico ao lado, construído pelo CAGED (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) do próprio ministério do trabalho do Brasil. Os dados eram ainda de 2010, mas preocupavam Rodolfo. Ao observar que o número de emprego formal era negativo em Dezembro de 2010, percebeu que tinha algo de errado na "tal marolinha".

Antes de se arrumar para a longa viagem, Rodolfo resolveu checar dados mais atuais do mesmo órgão brasileiro. Entender de Estatística é uma coisa, mas olhar gráfico e perceber que a coisa não anda boa, não precisa de muito estudo.

 

 

 

Emprego Formal - CAGED

 

 

Rendimentos Reais - CAGED

 

Foi então que Rodolfo viu a adrenalina disparar, pois o gráfico com "estrelas" ao lado mostrava claramente uma queda na renda do trabalhador brasileiro. Isso significaria que as carteiras assinadas deveriam cair em Novembro. Correu para a internet do Brasil e leu sobre o último dado de emprego com carteira assinada.

A queda de postos de trabalho com carteira assinada em Novembro de 2011 foi de 69% em relação à Novembro de 2010 (veja UOL). Apenas 42 mil postos de trabalho foram criados exatamente um mês antes do Natal! É nesse período que históricamente os empregos temporários disparam. Nos EUA a nova fase da crise começou exatamente assim ( "Um olhar para o desemprego"). E depois disso, os bancos começaram a cair e falir ( "Bancos não param de falir nos EUA").

Não convencido, Rodolfo enviou e-mails rápido para amigos no Brasil, para saber mais sobre as compras, os preços de Natal, os presentes, etc. A resposta que ele obteve é que os shoppings estavam lotados, mas os preços irreais. As pessoas não estavam comprando como os comerciantes esperavam. Na verdade as pessoas estavam se endividando em automóveis novos, eletrodomésticos e casas. Mas compras de Natal estavam despencando em comparação com 2010.

Imediatamente Rodolfo correu para o chefe e resmungou sobre a situação. Explicou a seu modo que os dois gráficos anteriores eram a prova de que o Brasil estava em apuros. Se a massa de renda de salários estava caindo e junto o número de empregos com carteiras assinadas, como as pessoas iriam pagar o que compraram? Lembrou a seu chefe que não havia evidências de que o pessoal de renda mais baixa estava poupando, mas sim comprando as coisas mais dispendiosas. Lembrou também que os juros eram os mais altos do planeta e como as pessoas não faziam contas, em 2012 vai ter muito nome indo para o cadastro de devedores.

O chefe ficou irredutível e disse que o plano estava traçado. Primeiro a China, depois os EUA, depois os BRICs e só então a Europa. Mas não iria colocar o Brasil como escala tão necessária assim logo de início. Até empréstimo ao FMI o Brasil tinha concedido, ou seja, estão muito bem.

Após um dia inteiro de carregamento, zarparam em sua viagem planejada. Mas Rodolfo que era o cabeça e primeiro da fila de embarque não tirava o Brasil de sua mente. Tinha que ir ao Brasil, pelo menos alertar os mais necessitados para olharem os juros dos empréstimos. Alguma coisa ele tinha que fazer, não podia deixar a empresa cair nesse tremendo erro de lógica. Tudo bem que a China mantinha o mundo, mas um país poderia cair do seu pedestal em apenas um ano.

E foi então que Rodolfo deu uma guinada na trajetória. Seus amigos com apelidos de Corredora, Dançarina, Empinadora, Raposa, Cometa, Cupido, Trovão e Relâmpago se espantaram. O que teria acontecido a Rodolfo? No meio do oceano em direção a China a rota tinha sido alterada drásticamente. Com certeza seria alvo das punições e todos deixariam de receber os bônus de entrega.

O que o chefe diria? Quando olharam para Papai Noel lá atrás no trenó só ouviram a tradicional bronca: " ... ho, ho, ho, minhas renas Rodolfo, Corredora, Dançarina, Empinadora, Raposa, Cometa, Cupido, Trovão e Relâmpago nada de Brasil. Vamos para a China !!

Feliz Natal !