Quarta-feira, 17 de Dezembro, 2014

 

Xeque árabe no xadrez russo

Estão enganados! Sim, aqueles que acham que o preço do barril de petróleo está caindo porque os árabes querem tornar mais caro o óleo extraído do xisto, estão errados. Nunca os árabes iriam prejudicar os EUA. Eles são eternos parceiros desde muito antes dos EUA titar Sadam Hussein do poder. O preço do petróleo está caindo, porque Putin usou de uma estratégia antecipada de retaliar a Europa nesse inverno com a conta de gás.

Ao ser pressionado para entrar em acordo sobre a Ucrânia e a devolução da Cremea, Putin deixou escapar que o preço do gás estava "muito barato" e teria que rever acordos antigos. Um dos acordos foi com a própria Ucrânia, que teve um reajuste Jumbo meses atrás. Até mesmo ocorreu uma ameaça de corte por falta de pagamentos para o gás russo em terrítório Ucraniano. A Europa acabou emprestando dinheiro para a Ucrânia pagar.

Logo, um sinal de alerta acendeu no painel europeu. Eles perceberam que Putin não somente poderia aumentar a conta de gás fornecida para os países, como poderia até mesmo ameaçar cortar o fornecimento. E como Putin estava, e ainda está, irredutível quanto à Ucrânia, as sanções começaram. Primeiro com a Europa e depois com os EUA. Não adiantaram muito e Putin alegou que não gostaria de ser pressionado.

Então, a grande jogada internacional, foi usar o "disfarce" do ajuste do mercado ao preço do barril de petróleo. Quando a OPEP se reuniu, desarmou os russos que não esperavam pela decisão histórica de manter a produção elevada. O preço então imediatamente desabou, caindo para US 54/barril nessa semana.

As fotos que circularam na internet são bastante interessante, mostrando um Putin sem "graça", acuado e sem ação. A cada semana a Russia começa a sofrer uma baixa de dentro para fora. É como se um vírus consumisse os órgãos internos da Russia, que está completamente sem rumo, com sua moeda Rublo desacreditada no mundo todo.

O que Putin está pagando é pela sua incompetência nesses anos todos, com um crescimento instável do PIB, ora aumentando no nível da China, ora caindo no nível no Brasil. E as comparações com a crise de 1998 começaram pelo mundo todo, colocando ainda mais pânico dentro e fora da Russia. Preparamos o gráfico à seguir, para ilustrar o desempenho do PIB nos anos que antecederam os problemas em 1998, e agora, alguns anos antes de 2014. Pode-se perceber uma certa similaridade de resultados para o PIB russo. Putin não aprendeu com a crise de 1998, que derrubou o mundo todo.

No dia de hoje, o secretário de estado norte-americano "comemorou" que Putin está voltando à mesa de negociação sobre a Ucrânia, e que os EUA não colocariam mais sanções contra a Russia. Está foi uma mensagem muito clara e limpa de que tudo foi combinado com os árabes, e que tudo foi armado para derrubar Putin de dentro para fora, brigando dentro do território russo.

E como o PIB está desabando junto com o preço do petróleo, o Rublo está saindo de controle. O único produto de exportação russo importante nos dias de hoje é o gás e o petróleo. Putin parou com os investimentos em outras áreas e com isso viu seu PIB parar de crescer.

A queda no preço do petróleo fez os investidores externos venderem as ações da grande e mais importante companhia russa de petróleo. Os investidores externos começaram a cobrar mais caro para emprestar dinheiro para a dívida russa.

Eles perceberam que o caixa russo de reservas cambiais começa a baixar significativamente nessas últimas duas semanas. Isso significa que se quiser honrar os compromissos, os russos vão pedir empréstimos. Logo, os famosos abutres financeiros estão jogando as taxas de empréstimos às alturas.

O reflexo de tudo isso é sofrido pelos mais pobres e mais carentes na Russia. Ao lado, pode-se perceber os dois gráficos comparativos da inflação, pré-crise de 1998 e nos dias atuais.

A partir de julho de 1998 tudo começou a descambar na Russia, abatidos pela crise que veio caminhando da indonésia, atingindo os russos, mexicanos, argentinos e brasileiros.

Pode parecer que os gráficos estão diferentes para a inflação, visto que nos dias atuais ela está em patamares muito menores do que em 1998. No entanto, com a venda de dolares no mercado interno para tentar segurar o Rublo, a população também está em pânico, correndo aos bancos para retirar dinheiro.

Os milionarios ricos estão comprando ferraris (segundo a Bloomberg) para usar como ativos depois que a crise passar. Para os milionários, automóveis ferraris são uma commodity tão boa quanto ouro ou dolar.

A notícia do dia que abalou as bolsas de valores, foi a alta para 17% na taxa de juros na Russia. A taxa saiu de 10% para 17%. Mas se olharmos para os dados históricos, os russos não tem uma tradição de subir devagar a taxa de juros como no Brasil e demais países (ver gráfico abaixo sobre juros).

O BC russo sempre usou de fortes reajustes em suas taxas, e talvez por isso observa-se contrastes violentos no crescimento do PIB, com fortes altas de 7% num ano, com quedas por volta de 8% no ano seguinte. O descontrole é total há muito tempo, na verdade, desde que Putin entrou para seu reinado de poder.

Inflação pré-crise de 1998

 

Inflação atual na Russia

Taxa de juros russa nos anos de 1998

 

 

 

 

O que poderá acontecer ainda está em aberto no mundo. Os senado dos EUA deu nessa semana, um cheque endossado para Obama aprovar mais sanções quantas forem necessárias contra os russos. Logo, Obama poderá bater ainda mais em Putin a hora que bem entender sem perder tempo com negociação no Congresso americano.

Mas pelo andar das conversas, numa rápida entrevista, Obama disse que não quer prejudicar a Russia que já está sendo bem afetada pela "crise do petróleo".

Na verade não é que Obama está "bonzinho", ou tem "piedade" dos russos. É que ele sabe, pois estudou em Harvard, e viu em suas matérias com dados históricos o que foi o calote russo de 1998. Empresas americanas sentiram de imediato e o FED teve que correndo aumentar os juros para segurar capital no país e conter uma possível inflação americana.

Foi a saída que Alan Greenspan chamou de "pouso suave" para a "exuberancia irracional nas bolsas" dos EUA alguns anos depois da crise de 1998. Mas o início foi nesse ano.

Um sinal de que o preço do dolar vai parar de cair foi dado hoje pelo secretário de Estado dos EUA. Se Putin sentar à mesa novamente, bem calmo e tranquilo, os Xeques árabes poderão anunciar que vão diminuir a produção.

Mas mesmo sentando à mesa, não podemos esperar a benevolência de Putin. Assim como Stalin, ele não gosta de deixar pedras fora do lugar, e tem prazer em dizimar inimigos.

Por isso, seu ministro de Estado já deu entrevistas hoje, afirmando que a Cremea é russa. A eleição foi "democrática" e agora que ela está incorporada, eles vão poder instalar armas nucleares na fronteira.

Uma maneira bem clara de intimidar a Ucrânia e a renascida OTAN que faz vôos regulares com caças na região para proteger os rebeldes separatistas. Assim, o que começou com um simulado de preço de mercado para o petróleo, poderá ser o início histórico do renascimento da guerra fria, ainda por agora com tom mais ameno e cordial.

Mas agora que os abutres do mercado gostaram dessa nova modalidade de cenário, vão testar o preço do petróleo até chegar aos US$ 40 /barril. Isso porque um Xeque da OPEP afirmou que não haverá nenhuma reunião extraordinária da OPEP, a menos que o preço chegue em quarenta dolares. E talvez esse seja o patamar interessante para o mercado de petróleo.

Os Xeques árabes jogaram um bom xadrez contra os melhores enxadristas do mundo. Mas essa foi apenas uma jogada de cavalo comendo a torre. A rainha agora vai ao ataque, e os árabes não perdem por esperar. Por exemplo, os russos poderão ajudar os rebelsdes do Estado islâmico com armas em pleno território árabe. Atentados poderão ser financiados por Putin. Sequestros de aviões por nacionalistas russos. Ou ainda, o que já ocorre diariamente, invasões em bancos do mundo inteiro com os hackers russos na direção.

O momento é histórico e importante para o mundo. As peças estão apenas se movendo. Muita história ainda será contada até o fim desse ano de 2014.

 

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