O Futuro da Vale

 

Muito se comentou sobre a recente troca de comando da Vale e a participação do governo em todo esse imbróglio.  Analistas ressaltam que o mercado já incorporou, de certa forma, esse maior “risco governo” nos preços das ações da Vale.  Até mesmo porque a semente dessa interferência foi plantada de longa data, quando fundos de pensão de estatais e o BNDES foram estimulados a se associar a diversos blocos de controle de empresas privatizadas.  A saída de Roger Agnelli não significa que somente agora o governo resolveu dar as cartas, uma vez que o próprio Agnelli já foi habitué do Planalto.  Objetivamente, o estado nunca deixou de estar presente na empresa.  Mas o que tudo isso implica para o futuro da Vale?  

A principal investida do governo tem buscado direcionar a empresa para uma maior industrialização local ou “valor adicionado”.  De fato, avançar em siderurgia, enquanto as maiores oportunidades estão em mineração, aqui ou lá fora, significa reduzir um naco do lucro que a empresa poderia obter caso não houvesse essa interferência do governo.  Porém, enquanto os mercados de commodities continuarem indo bem, obrigado, a Vale terá boas perspectivas de lucro, e esse cenário favorável continuará permitindo certa tolerância às armações do estado. 

Mas o mercado um dia mudará, e essa tolerância pode chegar ao seu limite.  Pensando estrategicamente, no longo prazo: faz sentido essa intervenção? 

Antes de mais nada, adicionar valor ao produto não significa adicionar valor à empresa e até mesmo ao Brasil.  Qualquer país, do Japão ao Azerbaijão, pode investir em siderurgia; é só captar recursos para montar uma planta e comprar minério.  Mas poucos conseguem exportar matéria-prima.  O recurso estratégico – escasso, difícil de substituir – é justamente o minério.  Mais ainda, o fato de certas commodities serem “básicas” não significa que a sua produção assim o é.  Para “abrir buracos e exportar minério” (usando a expressão de Lula), é preciso toda uma cadeia complexa de equipamentos de extração e transporte que podem, também, representar uma tecnologia proprietária e diferenciada da firma – sem contar, é claro, os recursos humanos envolvidos no processo.

Como os exemplos do Chile, Noruega, Austrália e tantos outros países demonstram, depender da exportação de matérias-primas não é necessariamente ruim (a chamada “maldição das commodities”).  Tudo vai depender de como o governo usa as receitas dessas exportações para investir em áreas que permitam, no longo prazo, uma maior diversificação e competitividade da economia (por exemplo, educação e infraestrutura).   Adicionar valor ao produto pode simplesmente representar menos valor ao acionista e menos desenvolvimento, comparativamente a uma situação onde a empresa poderia continuar expandindo globalmente em mineração e áreas de suporte na cadeia produtiva.   

Por enquanto, a boa conjuntura internacional ajuda a encobrir essas amarras à estratégia da Vale.  Mas até quando?  

(versão resumida publicada na Folha de São Paulo em 06/05/2011)

email: SergioGL1@insper.edu.br

 

Artigo

O Futuro da Vale

 

Prof. Dr. Sérgio Lazzarini

(Professor de Estratégia)

 

Insper São Paulo


 

 

 

 

09-Maio-2011