Sexta-feira, 12 de Novembro, 2010

 

 

Quem quer dinheiro?

 

A teoria do Cisne Negro ("Black Swan") voltou a aparecer. As pessoas às vezes se confundem em falar em eventos prováveis, possíveis e probabilísticos. O que a probabilidade faz é colocar um número sobre as chances de um evento ocorrer quando comparado a todas as suas "possibilidades". Estatísticamente essas possibilidades são conhecidas pelo belo nome de "espaço amostral". Esse "espaço amostral" é o conjunto de tudo que pode acontecer num determinado experimento. E quando se diz tudo, é tudo mesmo. Por exemplo na Astronomia sempre se calcula a probabilidade de um cometa atingir a Terra. Na Aeronáutica cálculos da Engenharia mostram a probabilidade de um motor falhar e um avião vir a cair. Na Medicina a probabilidade de um equipamento falhar ou de um remédio não ter efeito e o paciente morrer. E todas essas probabilidades são calculadas por uma divisão matemática: Número de resultados prováveis pelo número de resultados possíveis.

Logo, dizer que um evento é "impossível" não é verdade. Um evento pode ser pouco provável, o que quando dividido pelas suas possibilidades de ocorrência tornam a probabilidade tão baixa a ponto de se dizer que nunca vai ocorrer. O que é um erro. A falência da Petrobrás não é impossível. A falência dos EUA não é impossível. Mas é tão pouco provável que isso venha a ocorrer que suas probabilidades começam com 0,00... e em algum lugar vai aparecer o número 1. A chance da Terra ser atingida por um meteoro é 0,00 seguido de uns 10 números zeros antes do primeiro 1. Mas já ocorreu na Terra e nessa década tivemos um meteoro que passou entre a Terra e a Lua e só foi percebido depois.

Então dizer que é impossível que o grupo Silvio Santos venha a falir devido ao problema do banco PanAmericano não é verdade. É até bastante provável e diante de suas possibilidades, a probabilidade disso ocorrer é muito grande. As possibilidades de uma falência são grandes pois ele tem um banco, mas está na mão de outros. É provável de ocorrer porque esses diretores, operadores e sócios estão operando no mercado financeiro. E o que aumenta ainda mais a probabilidade de falência é que das 44 empresas do grupo, apenas 16 não atuam na área financeira. Logo, as outras vão depender do humor do mercado para se manter em pé.

Será que foi tão surpresa assim o rombo do PanAmericano?

 

Ações do Banco PanAmericano

 

Olhando para o gráfico das ações do PanAmericano (acima) pode-se reparar que desde Janeiro as ações não paravam de cair. Dos R$12,00 caiu para um patamar de R$9,00 e depois em Maio despencou para quase R$7,00. Por que será essa queda vertiginosa se não havia notícia relevante nenhuma? Prejuízo? Todos os bancos brasileiros estão com lucros batendo recordes atrás de recordes. Todos estão investindo em marketing pesado. Todos estão fazendo novas aquisições. Talvez essa grande queda em Maio seria a descoberta de investidores influentes na "falha" contábil do banco.

O nosso Banco Central correu em dizer que foi "super eficiente" em descobrir a tempo a falha e sanar o problema antes da contaminação sistêmica. Mas depois do relatado, que foi apenas em nota de rodapé de alguns sites, agora todos os dias tem novas e mais recentes descobertas do caso. Ao dar garantias de seus bens, Silvio Santos quer se desfazer do problema o mais rápido possível. Não perdeu tempo em colocar à venda o SBT e disse à Folha de São Paulo que quem pagar leva! O primeiro comunicado do BC dizia que o problema estava resolvido e o PanAmericano seguiria vida normal. Mas ontem já se falava que Silvio Santos provavelmente teria que vender a parte dele do Banco.

Todos sabemos que uma coisa é seu imóvel valer algo, outra coisa é o comprador pagar o que ele vale. E a agência internacional de risco Fitch fez seu papel "de carniceiro benevolente": rebaixou nessa semana a nota de crédito do PanAmericano. Parece que para o SBT, um potencial comprador já apareceu. Será o "megacomprador" Eike Batista, que já negou, mas deve consumar o fato. Mas óbvio que não vai pagar os R$2,5 bilhões que Silvio Santos quer pelo SBT. E venda de licença de transmissão tem algumas barreiras, que podem ser transponíveis, mas são barreiras.

E então ontem, o presidente do BC disse em entrevista que não há chance alguma de contaminação do sistema financeiro nacional. Será? Observando o gráfico a seguir, pode-se perceber que o presidente do BC apenas faz às vezes de pacificador de humor ao invés de expor a realidade de sistemas financeiros.

 

O gráfico foi feito tomando-se dados do Banco Mundial. No eixo das abscissas colocou-se a relação crédito bancário por depósitos e no eixo das ordenadas a dívida do país pelo PIB. Esse gráfico foi feito para todos os países desenvolvidos e todos os países em desenvolvimento (segundo critérios do Banco Mundial). Em 1999 tinha início os problemas dos mercados financeiros asiáticos, passando pela Russia, México, Brasil e Argentina. Pode-se observar a Irlanda e Islândia se destacando fora do grupo, com créditos superiores aos demais países do mundo e débito também maior. Quem na época suspeitou que a Irlanda e Islândia poderiam dar problemas de crédito em 2008/2009/2010, levados pelo Lehman Brothers?

E então em 2008, tem-se a seguinte situação mostrada no gráfico abaixo.

O gráfico anterior mostra o que aconteceu com a Irlanda e Islândia. Contaminaram todos os países a tal ponto deles se dispersarem entre si, criando novos blocos. A Irlanda e Islândia estão com débitos impagáveis e muito acima de sua produção e capacidade de pagar. E levaram consigo Dinamarca e Suécia fazendo um bloco particular. Um segundo espalhamento surgiu na Europa onde agora estão Espanha, Grécia e Portugal e até mesmo o minúsculo Luxemburgo, que tem baixo depósito e dívida muito alta.

E os BRIC(Brazil, Russia, India e China)? Na verdade deveria ser BIC sem a letra "R" da Rússia. O país só mantém status de "em desenvolvimento" por que o preço do barril de petróleo melhorou. Caso contrário estaria no mesmo grupo de Portugal, Espanha e Grécia. Mas voltando aos BRIC, estão com crédito baixo em relação à Europa e EUA, mas proporcional à sua dívida. Por isso estão de uma certa forma "unidos" nesse grupo.

Isso mostra que, em termos da teoria do "enxame de partículas", basta um líder negativo com algum tipo de informação maléfica para contaminar e dissiminar todo mal ao sistema. E isso é perfeitamente visível em simulações por computador (ver vídeo). Então o caso do PanAmericano vai contaminar o sistema brasileiro? Possivelmente sim, 100% de chance. Provavelmente sim, o que nos leva segundo a definição estatística (casos prováveis/casos possíveis) de que as probabilidades não são ignoráveis ou pequenas.

Olhando fora da teoria de sistemas dinâmicos e suas instabilidades numéricas, pode-se perguntar por que o PanAmericando teve essa falha? Não foi falha. Se ele fez é porque teve idéia de outros estarem fazendo. Algum primeiro banco fez isso e dissiminou a idéia para outros. É sempre assim. Se vasculharmos as ações dos chamados pequenos bancos, alguns indícios talvez podem mostrar que essa "falha" contábil está sendo realizada por aí. Como saber? Somente o BC que tem todos esses dados é que tem condições de saber hoje quem são eles.

O BC errou? Claro que sim. Dizer que o BC foi rápido é tentar ignorar a enorme falha do banco cujo sistema possui todos os dados e super-computador à sua diposição para emitir qualquer alerta sobre esse tipo de irregularidade. Nos tempos atuais de alta tecnologia, esperar por "balanços" para encontrar possíveis fraudes contábeis mostra o quão vulnerável é o nosso sistema financeiro. Não se precisa de balanço nenhum quando se tem todos os dados de todos os bancos sobre todas as atividades.

A parte interessante dessa história é que de tanto dar "aviõezinhos" de dinheiro à sua platéia, agora Silvio Santos, um ícone da TV brasileira, um verdadeiro professor dos palcos, vai precisar de "jumbos" para sair dessa história. Esse vai ser mais um caso de ganância bancária que pode levar à falência de tradicionais pessoas e firmas do Brasil. Por isso, dinheiro fácil do "Quem quer dinheiro" não leva a lugar nenhum. Errado, leva à falência moral e financeira.