
Terça-feira, 14 de Setembro, 2010
Sabores dos índices do mercado
Qual o sabor do índice da confiança do consumidor americano? Ou quem sabe o sabor do índice do empresário brasileiro? Ou ainda o índice do investidor americano? Talvez, atualmente, o sabor do índice de confiança do consumidor americano seja ácido e o brasileiro seja doce. O fato é que nos últimos anos (última década mais precisamente) os investidores brasileiros tiveram que se acostumar com os tais índices e sua influência no mercado de ações. Estudar a degustação e dar notas aos produtos além de divertido pode ser gostoso, ou não. Dentro da degustação o índice usado para dar "notas" aos alimentos é dividido em - Exame visual - Exame olfatório (aromas) - Exame gustativo (referente a sabores e tatos) E o exame pode ser ainda mais profundo dependendo da empresa, da indústria, do produto, etc. ( ver "degustação"). Esses índices são interessantes pois sua nota pode ser verificada por leigos e atestar ou não a nota dada ao produto, pegando na mão, cheirando, experimentando e provando seu sabor. Mas e o índice do consumidor? Que real importância esse tipo de índice tem para nossa vida, ou nosso investimento no mercado de ações? Sem sombra de dúvida, nenhuma. Espere um pouco...quase nenhuma. Esses índices viraram um prato cheio para os analistas internacionais em suas recomendações aos grandes clientes. Se o índice do consumidor americano sobre, "compra, compra, compra". Se o índice cai, "vende, vende, vende". O real sentido estatístico de um índice, que na verdade se chama "número índice" é relativizar os dados para algum período passado e facilitar as comparações entre os valores de um mesmo produto. Esse tipo de índice foi muito importante para nós brasileiros quando tínhamos inflação espacial ou extratosférica. Para sabermos o reajuste de salário na época do governo Sarney ou Collor, dependíamos estritamente desse índice. Sem os índices deflacionários tanto economistas como cidadãos comuns se perdiam nos reajustes da casa própria, do preço dos produtos, dos salários, da inflação e das valorizações dos investimentos. Sim, esses índices são importantes nesse sentido. A definição clássica de números índices é:" É uma medida estatística idealizada para mostrar as variações de uma variável, ou grupo de variáveis, correlacionadas ao tempo" (definição de Murray R. Spiegel). A palavra "idealizada" deve ser lida várias vezes para reter bem o conhecimento dessa definição. O número índice fornece apenas uma idéia da situação, uma foto em "preto e branco" e não tão fiel ao pensamento e ações dos indivíduos. Para se começar existem diversos tipos de medidas dos índices tais como: agregado simples, médias, agregado ponderado, ano-base, ano-determinado, ano-típico, ideal de Fisher, Marshall-Edgeworth, de quantidade, de volumes e de deflação. Todos os autores de Estatística são bastante claros ao cuidado que se deve ter em usar números índices. Inúmeros problemas aparecem quando se relativizam as informações. Dependendo de onde se escolhe a base, o resultado pode ser otimismo ou pessimismo. A figura a seguir mostra o índice de confiança do consumidor nos EUA.
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Em Setembro de 2007 o consumidor americano estava bem confiante na situação econômica, o índice marcava pouca coisa acima de 100. Ou seja, em relação à um ano base no passado, os consumidores tinham a mesma sensação que tinham na base. Um investidor que confiasse nessa informação entraria comprando, e comprando com muita confiança. Os analistas que gostam de projeção de tendências com base no passado, se traçassem uma reta de tendência diriam que em 2008 " a projeção é de uma confiança de 120 pontos!". E o que aconteceu um mês depois? As notícias sobre "crise de subprime" começaram a circular, os investidores começaram a ficar temerosos e se alguém tracasse a mesma tendência ia encontrar zero no final de 2009. E o que tivemos? As bolsas se recuperaram ou pelo menos pararam de cair. Tudo bem, mas o investidor saiu e causou pânico e por isso o índice do consumidor caiu. Vamos olhar o índice do investidor americano na figura a seguir.
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Se os analistas realmente gostam de usar a linha de tendência para previsão futura, como explicar a recomendação de compras, como explicar as frases que a situação melhorou, se na figura anterior a linha de tendência seria um "pessimismo" do investidor ainda maior no futuro? Pode-se observar que ainda assim, mesmo em queda, quando se dá alguns solavancos de alta, os analistas recomendam altas compras e as bolsas sobem, como nesses últimos dias. Mesmo com índices de crescimentos pequenos, próximos a nada, basta um índice de confiança subir em relação ao mês anterior que as bolsas disparam. Mas cadê a coerência? Se abaixo de 100 é pessimismo, por que insistir que não há mais crise? Por que tentar esconder ou esquecer o altíssimo desemprego americano. Já alertamos sobre o abuso da Estatística ("Economia USA e radiação fazem bem a saúde") em Dezembro de 2009. Alertamos para o perigo do motor do mundo não girar ("O motor que faz o mundo girar") em Janeiro de 2010 e sobre o desemprego nos EUA ( "Um olhar para o desemprego") em Fevereiro de 2010. E o que mudou? Nada, pois o desemprego continua em 9,6% e a confiança do investidor está em baixa nos EUA. Se esses analistas gostam tanto de Estatística, por que não manter o padrão? Escolher dados favoráveis tornam esses analistas "nobres" fanfarrões do mercado. Em termos de Brasil? Não esquecemos. Vamos olhar a figura a seguir produzida pela CNI(Confederação Nacional da Indústria) no relatório de Agosto último sobre o índice de confiança do empresário industrial no Brasil. Fonte: Confederação Nacional da Indústria |
Olhando-se para Abril de 2008, um analista de tendências certamente recomendaria aos empresários investirem pesado no Brasil, pois ao se traçar a tendência os outros estavam bem animados e tudo seria ganho certo. E realmente fizerma isso ao se declarar abertamente na imprensa que 2008 era "Céu de birgadeiro". Em Julho a história do Lehman que já estava circulando desde o início do ano nos bastidores, veio a público. E então, a bonita curva da confiança veio abaixo. A curva veio abaixo por causa do mercado, ou seja, ela é conseqüência e não causa como estão vendendo a todo momento. Números índices são apenas "idealizações" das variáveis e não são responsáveis por causar crises ou alavancar bolsas. Mas os analistas econômicos insistem em plantar idéia na mídia, a cada novo índice positivo, que as coisas melhoraram. É interessante ler alguns sites nacionais sobre economia, onde o repórter tenta explicar altas e baixas do dia. Ao entrevistar "traders" que normalmente não gostam de se identificar para "não ferir a ética" (essa é boa!), dizem que as bolsas subiram por causa de um índice X, ou caiu por causa de outro índice Y. O maior risco desses índices de confiança é que são baseados em entrevistas, questionários pra lá de chatos, com perguntas pra lá de exaustivas que as pessoas respondem correndo, escolhendo às vezes respostas contraditórias. E em termos de Brasil, o universo restrito de empresários que participam desses questionários é completamente diferente do universo do empresário da venda do bairro. E com isso, estraga toda a estatística e dá contradições aberrantes nas informações passadas ao mercado. Cabe lembrar ainda que as ferramentas estatísticas para testes qualitativos, como esses são chamados, são muito mais fracas do que para testes quantitativos. Melhor ficar com o índice de degustação, pois podemos experimentar e jogar fora o produto se não gostarmos e no máximo vamos perder alguns reais do produto, e não milhares de reais colocados pelos índices de confiança. |