Sábado, 18 de Agosto, 2018

 

O Sabotador

Talvez a figura mais desprezível da raça humana seja a de um sabotador. A figura de um traídor ainda pode ser entendida, pois são doentes que buscam o poder como forma de satisfação pessoal. E isso inclui às vezes trair o próprio amigo, aquele com quem conviveu muitos anos. Mas a figura do sabotador é aquela que se configura não pelo poder. O sabotador tem o desejo pessoal de interferir nos rumos de um projeto apenas por dinheiro, apenas por uma recompensa, mesmo que isso custe a vida até mesmo de pessoas próximas.

Claro que muitas vezes os sabotadores também se confundem com os traidores, sendo a mesma figura. Além de trair, estando com medo de seu plano dar errado, a pessoa não delega a uma segunda pessoa a tarefa da sabotagem. Ela própria se incumbe de fazer as duas coisas, o que torna o ato e essa pessoa ainda mais abominável.

Dois seriados norte-americanos de sucesso mostram bem a figura do sabotador. Na série "Perdidos no Espaço" nos anos 60, o doutor Smith é contratado para sabotar a missão espacial que levaria o homem às profundezas do universo. Preso sem querer na nave espacial, Smith carrega consigo sempre a vontade de se entregar aos "extraterrestres" para o seu bem estar pessoal e a busca por voltar ao planeta Terra.

Em muitas situações Smith faz planos para o seu bem, se vende às outras raças, mesmo que isso coloque em risco o resto da tripulação de humanos da nave espacial.

Perdidos no Espaço - Doutor Smith está em realce com retângulo vermelho

Na versão mais recente da série (2018), o personagem do sabotar passou a ser feito por uma mulher (atriz Parker Posey), que rouba o casaco de um tripulante da nave espacial com nome de Smith e foge da explosão da espaçonave para um planeta desconhecido. A história das sabotagens são as mesmas, porém com ar moderno e feminino.

Outra série de sucesso foi "Terra de Gigantes" lançada no final dos anos 60 nos EUA que ficou em exibição no Brasil até 1984 na TV Bandeirantes. Uma nave espacial que viajava para Los Angeles foi atingida por um raio de uma tempestade magnética e se viu em outro planeta, onde todos os seres eram gigantes. A figura do sabotador é vivida por Alexander Fitzhug (ator Kurt Kaznar), um militar reformado que acabara de roubar uma grande fortuna em dinheiro vivo.

A todo custo Alexander tenta ser amigo dos gigantes buscando inúmeras vezes vantagens, ou mesmo, se vendendo para entregar os amigos da nave. Em muitos episódios quando todos estão presos, Alexander se vende para os gigantes e volta ao acampamento com a finalidade de entregar os demais com a garantia dele próprio ser livre. Claro que os sabotadores dessas duas séries sempre se dão mal.

Terra de Gigantes - Alexander está em destaque com retângulo vermelho

No mundo real, no entanto, os sabotadores em grande parte se dão bem. São protegidos pelos maus elementos da sociedade e, na surdina, são sempre contratados para destruir projetos. Se esses projetos são em empresas, os sabotadores se passam por funcionários e espionam os produtos, as linhas de montagens, tiram fotos e colocam subterfúgios técnicos nas produções para atrasar o processo.

Alguns sabotadores sofrem de lavagem cerebral e morrem junto com a sabotagem que fazem. Por exemplo, a nova leva de terroristas que matam inocentes em razão de religião, tal como na tragédia de 11 de setembro nos EUA. Vários sabotadores treinados como pilotos no plano diabólico onde sabiam que não teriam volta.

Já contamos aqui o mais típico, porém ainda escondido, caso de sabotagem econômica (leia o texto "A complexidade da simplicidade"). John Perkins, autor de "Confissões de um Assassino Econômico", conta em seu livro e em vídeos de entrevista, como trabalhou para empresas ligadas ao governo dos EUA para causar desastre econômico em países "não alinhados" aos interesses americanos.

Entre esses países estão Chile, Equador, Panamá, Nicaraguá e Iraque. John Perkins foi em quase toda sua vida um típico sabotador, mas ele gosta de ser chamado de "Assassino Econômico" (Economic hitman).

O que parecia ser teoria da conspiração até o fim da década de 90, torna-se realidade com as confissões de Perkins. E esse sabotador está bem até os dias atuais, mesmo que para isso veja a todo instante a desgraça que vivem as pessoas de onde ele causou as sabotagens.

Com toda certeza o Brasil tem não apenas um sabotador, mas diversos sabotaderes econômicos.

Talvez pela nossa colonização, onde o sentimento de pátria e de igualdade nunca de fato existiu, a população mais abastada sempre esteve alheia aos problemas sociais.

No entanto, nessa última década, o número de milionários no Brasil aumentou, a porcentagem que eles concentram de renda é absurda e a divisão existente entre as classes sociais se acirrou.

Dentro das próprias classes sociais vemos acirramento e divisões. Seja em condomínios de classe média, classe média baixa ou em comunidades carentes, as pessoas não se entendem mais.

O gráfico ao lado foi retirado do IPEA-data, com dados de horas trabalhadas nas indústrias, onde as medidas são feitas pela CNI- Confederação Nacional da Indústria.

De 1992 a 1999 as indústrias praticamente pararam, com o índice caindo ao menor valor histórico.

Mesmo com 3 governantes diferentes, Collor, Itamar e Fernado Henrique, a indústria nacional parou. As importações tornaram-se prioridades, o que acabou por destruir com a produção nacional.

É possível ver uma boa recuperação entre 2003 e 2008, com a produção aumentando aos galopes ultrapassando o índice de 110 pontos.

 

 

 

 

Mas daí pra frente, tudo ruiu. O que aconteceu?

A primeira queda forte no gráfico é explicável, pois apesar de Lula dizer que a crise mundial de 2008 era apenas uma "marolinha" no Brasil, não era.

As horas trabalhadas desabaram do meio de 2008 até seu fim. Mas em 2010 a indústria estava retomando seu crescimento, recontratando funcionários e voltando aos patamares de 2007.

Daí pra frente, nada foi o mesmo. Crises, notícias ruins, disseminação de ódio, passeatas, black bloc, quebra-quebra até levar nossa indústria a zero.

Com tudo isso e, mesmo o mundo financeiro se recuperando, as horas trabalhadas na indústria do Brasil estão no pior patamar em 26 anos!

Nem mesmo o governo Collor de Melo, o desastre maior até hoje, havia conseguido levar as horas trabalhadas tão baixas. E o que os empresários fazem?

Nada.

Ou melhor, choram o tempo todo, financiando campanhas políticas nefastas que já provaram serem mais sabotadoras do que recuperadoras de estima e empregos.

E por falar em empregos, podemos tomar a taxa de desemprego na maior e mais industrializada cidade do país. Medida não pelo IBGE, mas pela fundação Seade, os dados ao lado mostram a curva de desemprego na cidade de São Paulo.

Entre 2000 e 2001 a cidade de São Paulo tinha um índice de desemprego de quase 21%. Claro, como vimos anteriormente, a indústria tinha parado e a contratação de funcionários estava em baixa.

Entre 2002 e 2013 a taxa de desemprego caiu para 9% na cidade de São Paulo. E hoje, vemos a tristeza ao caminhar pelas ruas e shoppings com vendas paradas e pessoas pedindo esmolas nos semáforos.

Ao observar ao lado, pode-se ver que, segundo a fundação Seade, a taxa de desemprego na cidade que tem seus representantes o ex-prefeito João Dória (candidato ao governo de SP) e ex-governador Geraldo Alkmin (candidato à presidência) está em 17%.

Só na cidade de São Paulo existem 2,89 milhões de pessoas sem emprego (dados da fundação Seade), mas o discurso de seus representantes é que "só eles" poderão salvar os empregos.

 

Não parece muito óbvio que mesmo uma curva de desemprego caindo forte e com números de horas trabalhadas aumentando, apenas uma crise mundial de 2008, ou atos desastrosos possam levar o país ao caos. Fica sempre uma dúvida maior sobre quem, ou o que, foi o catalisador, o acelerador para aumentar a crise no país.

Muitas pessoas terão nomes para os sabotadores. A questão que fica é: por que parece que aqui no Brasil o número de sabotadores é maior do que em outras partes do mundo?

Será pela falta de educação? Será pela falta de cultura? Falta de identidade com a terra? Foi a colonização?

Ou será apenas uma impressão, uma "teoria da conspiração"?

Nunca vamos eliminar a figura do sabotador, ou do sabotador econômico. Mas poderemos diminuir o número de sabotadores, ou melhor, poderemos melhorar o sentimento de consideração e respeito entre as pessoas? Pelos dados que vemos sob qualquer óptica parece que não. Ao observar os discursos dos candidatos à próxima eleição, temos quase certeza que não.

O mais estranho é que quem sabotou a eleição dos EUA em favor de Donald Trump foram os russos. Quem sabotou a Turquia semanas atrás foi o médico americano que lá está preso. Quem sabotou o Iraque foram americanos se passando por iraquiamos. Mas no Brasil, os sabotadores são brasileiros! E muitos brasileiros.

A solução existe, mas talvez nunca usaremos. A solução só passa pela boa e tradicional educação. Se começar hoje, o resultado demorará 30 anos e não teremos tempo nem governos para esperar esses resultados. O mais triste é que a ficção que envolvia os sabotadores das séries americanas terminou, mas a realidade dos sabotadores do Brasil não.

Que o tempo tenha pena de nós.