Terça-feira, 27 de Janeiro, 2015

 

Seca histórica e mudanças no campo magnético

O que antes era um problema apenas do Nordeste brasileiro, agora se torna um problema do Sudeste. Começou em São Paulo, atingiu o interior e agora, na semana que vem, chegará ao Rio de Janeiro. Mas não vamos nesse texto, cair na tentação e na rídicula tese midiática brasileira que a culpa é dos céus.

A culpa da seca é da mudança da natureza, mas a culpa por falta d'água é da incompetência dos governos de São Paulo, do Rio de Janeiro e do governo federal. Precisamos parar de acreditar na linha jornalística, de que nós temos que procurar soluções para a seca. Quem deve ser punido e multado, são os governadores Geraldo Alckmin, José Serra, Sérgio Cabral e o atual Pezão. Além deles, deveriam ser indiciados a paguerem multa, FHC, Lula e Dilma Roussef.

Mas essa parte do texto, nós voltaremos mais abaixo. Essa seca que atinge o Brasil vai piorar nos próximos anos. Em algumas semanas, mais chuvas vão aparecer, as represas vão encher um pouco, mas no futuro outra seca pior aparecerá. Muitos motivos são importantes para entender a mudança do clima. Temos um fator importante que é o aquecimento global provocado por gases. Temos outro fator importante que é a destruição da floresta Amazônica. Mas temos também um fenômeno maior, pouco comentado, mas tão importante quanto todos os outros: o enfraquecimento do campo magnético da Terra.

Com o núcleo sólido girando no centro do planeta, é induzida a produção de linhas de campo magnético que literalmente barram e desviam boa parte das tempestades radioativas oriundas do Sol. Sem esse manto que nos protege, não existiria vida, não exisitiram condições suficientes para a vida surgir e proliferar.

A Terra "cambaleia" pelo espaço num movimento conhecido como nutação (além da rotação e precessão). O giro completo (teórico) do Pólo Norte leva 23 mil anos. Um gênio quando é reconhecido como tal, é porque realmente deve ser uma pessoa fora do comum. O grande matemático Gauss estudou e inventou uma maneira de medir o fluxo dessas linhas de campo magnético em 1835 e desde então, todos começaram a perseguir essa medida. Por que?

Porque com a medida inventada por Gauss, todos perceberam que as linhas não eram constantes, o que significaria que a intensidade da força do campo que nos protege também deveria mudar. E realmente muda, como constataram com as melhorias das medidas através de equipamentos mais sofisticados.

Existem lugares da Terra onde o manto protetor é mais forte e em outros lugares mais fraco. Uma consequência disso é que o Pólo Norte magnético muda e "passeia" pela Terra ao longo de milhares de anos. Existe um desvio de décimos de graus na posição do Pólo que acontece todos os dias, entre o Pólo Norte que conhecemos da Geografia e o Pólo Norte real que direciona a bússula e orienta aeronaves.

Mudança do Pólo Norte terrestre

A última estimativa da agência espacial européia ESA, realizada no ano passado com uma constelação de satélites, está indicando que o Pólo Norte magnético mudou radicalmente de posição e está indo para a Sibéria. Estima-se que a última inversão dos pólos (ou seja, o norte vai para o sul e o sul para o norte) aconteceu 780 mil anos atrás.

Mas o mais importante para nós, nesse momento, é que a real causa dessa seca histórica é sua ligação ao enfraquecimento das linhas de força exatamente aqui, no Atlantico Sul, mais especificamente sobre o Brasil. Um estudo muito interessante publicado pela revista Geology em 2009 liderado pelo Dr. Knudsen, indicou uma forte ligação entre o regime de chuvas na região tropical e intensidade da força do campo magnético (ver comentário no site Planet Earth Online) na China. Os pesquisadores estudaram os últimos 50.000 anos para fazer essa ligação entre chuvas e campo magnético. Como medir 50 mil anos?

A maravilha da pesquisa geológica, descobriu anos atrás, que isótopos de oxigênio existentes em estalagmites (as formações de cavernas que são oriundas do gotejamento) fornecem dados históricos de milhares de anos sobre o clima do planeta, inclusive sobre o regime de chuva. Quanto menos isótopo de oxigênio, menos chuva no passado. E o passado pode ser medido pela datação da estalagmites, por exemplo por decomposição de vários tipos de elementos químicos e radioativos.

Na entrevista à revista eletrônica o Dr. Knudsen afirma:" Nos últimos 5000 anos, a correlação entre mudanças no campo magnético da Terra e dados de precipitação da caverna Dongge no sul da China é impressionante...". Nós descobrimos o artigo completo da revista Geology na internet e deixamos aqui para quem desejar ler ("Is there a link between Earth's magnetic field and low-latitude precipitation").

Correlação entre isótopos de oxigênio (chuva-linha azul) e força do Campo Magnético (linha preta) fonte: artigo Knudesn(2009)

A figura acima mostra a fantástica relação entre regime de chuvas desde 5 mil anos atrás na China e variação do campo magnético. Na primeira região a coincidência foi de 89% e na segunda de 71%. Para ter algum valor estatístico, essa medida deve ficar acima de 50%. A conlcusão é que quando o campo magnético se enfraqueceu, o regime de chuvas diminuiu. Pode-se ver isso no gráfico acima com a queda de ambas as curvas depois de 3 mil anos.

Só para lembrar a data, esse artigo foi publicado em 2009. Mas isso é novidade para os cientistas e professores brasileiros especializados nesse assunto? Claro que não. No ano de 2006, o professor Dr. Gelvam Hartmann da USP deu uma entrevista, contando que o campo magnético sobre o Brasil estava se enfraquecendo. Naquele ano de 2006 o menor valor do campo estava sobre o Paraguai, numa região do globo conhecida como SAMA ( South Atlantic Magnetic Anomaly).

Caminho de enfraquecimento do Campo Magnético sobre o Brasil Fonte: USP notícias

A área em azul na figura acima, mostra a intensa região do globo terrestre onde o campo magnético é mais fraco que as demais regiões. Há 400 anos, essa região fraca estava bem longe do Brasil, mais em cima da Africa e da India como apresentado na figura abaixo.

Região mais fraca há 400 anos atrás Fonte: USP notícias

E nos dias atuais? Como anda a força do campo magnético?

O NOAA (National Geophysical Data Center) permite baixar dados históricos de mapas de força do campo magnético terreste.

Baixamos um arquivo bem grande de imagens, para capturar a imagem de nosso interesse. E realmente, como pode ser visto ao lado, a região da América do Sul, sobretudo o Brasil, está no centro do pior lugar para a intensidade da força do campo magnético terrestre.

A anomalia sobre nossa região se reforça ano após ano, com o deslocamento de todo o campo magnético.

Se você, caro leitor, é de outra região do globo, poderá inclusive saber online qual é a força do campo magnético nesse exato momento onde você mora.

Basta acessar o link de Magnetic Calculators e preencher o quadro com os dados de sua localidade.

Então, há várias décadas a Ciência está com os dados em mãos sobre o clima. Há várias décadas, os professores chamados de "vagabundos" por diversos governadores e ministros no Brasil, sabem o que está acontecendo com o clima.

Pergunta-se: Algum deles teve a humildade de ouvir a comunidade científica? Não. Nem mesmo o governador Alckmin que possui uma das melhores universidades do mundo. Nunca consultou nem ouviu professores e pesquisadores de diversas áreas para ter uma opinião séria sobre a seca, suas causas e como evitá-la.

Qual a solução do governador? Multar moradores, mesmo depois de um ano "garantindo" que "nunca" haveria racionamento em São Paulo.

Baixamos os dados completos do isótopo de oxigênio das estalagmites da caverna de Botuverá, coletados por pesquisadores brasileiros ligados ao NOAA. A caverna brasileira está no municipio de Botuverá em Santa Catarina.

Esses dados podem ser baixados em Excel através desse link do NOAA (baixar aqui). E esses dados dessa caverna brasileira correspondem a 90 mil anos no passado. Como seria o regime de chuvas desde 90 mil anos até o ano de 2009, quando ocorreu a coleta?

A figura ao lado nos mostra que desde os últimos 9 mil anos (última perna do gráfico ao lado) o regime de chuvas tem diminuído no Brasil.

Muito antes de todos nós existirmos, mesmo com nossas cahoeiras e rios caudalosos, sempre estivemos em risco de queda no nível de chuvas.

Mas o ponto crucial do gráfico ao lado, é que os últimos 400 anos (o final do gráfico) indicam que nosso regime de chuva piorou drasticamente aqui no Brasil.

Linhas de Força do Campo Magnético em Janeiro de 2015

 

 

 

 

 

 

 

 

Dados de Boituverá - SC em 2009

 

 

 

 

 

Dados históricos sobre a força do campo magnético em São Paulo

 

 

 

 

 

 

 

Claro que todos vão pensar: mas 400 anos estava tudo maravilhoso. Ou ainda os imediatistas vão dizer: há 5 anos estava tudo maravilhoso. Como podemos pensar em 400 anos, se nosso problema é de 5 anos para cá?

Errado!

Ninguém sabe o que um segundo de arco de grau de perturbação no campo magnético pode causar. Se nada de sério ocorreu nos últimos 9 mil anos, ou nos últimos 400 anos, não significa que nada poderá ocorrer daqui um mês.

A mudança de um segundo de arco nas linhas, mudam todas as linhas de força do planeta. Isso acelera a mudança do Pólo Norte Magnético, que permitirá a entrada de maior quantidade de radiação.

Então, em apenas um mês, ou um ano, a radiação excedente por um milionésio de arco, pode matar todo o DNA da soja no hemisfério norte, por exemplo. Ou da safra do trigo no sul.

Baixamos do NOAA as linhas de força do Campo Magnético da cidade de São Paulo. Como estaria o campo de força no sudeste brasileiro? E eis que surge o gráfico ao lado.

Desde o ano de 1590, a intensidade na força do campo magnético decresceu na latitude e longitude da região de São Paulo. A intensidade é medida em nanoTesla, em homenagem ao grande físico Tesla, que estudou o campo magnético terrestre.

O campo magnético diminuiu 53,6% em pouco mais de 400 anos na região de São Paulo. Se o estudo de Knudsen, apresentado acima estiver correto, a causa da seca histórica realmente pode ser essa lenta, mas gradual e constante queda do campo magnético bem em cima da região sudeste e sul do Brasil.

 

Claro que não somente o campo magnético é responsável pela seca, mas ele é mais um indicativo de que esse fenômeno no Atlântico Sul está reforçando as secas ano após ano. Existem outros estudos apontando que outros responsáveis pela alteração do campo magnético são os gases de efeito estufa. Por exemplo, queimadas na Amazônia lançam volume excessivo de dióxido de oxigênico (CO2) na atmosfera barrando a luz solar. Com isso, causa o efeito estufa que aquece os mares e a superfície.

Aquecendo a superfície, a temperatura aumenta e isso, segundo outros estudos, afetaria a anomalia no Atlantico Sul, aumentando as variações no campo magnético. Parece que o campo magnético percebe essas alterações de temperatura e muda conforme elas aumentam. E se ele muda, como vimos, altera o regime de chuvas.

Além do campo magnético, o efeito estufa também altera o regime de chuvas, aumentando as chuvas ácidas nas florestas, matando a plantação nativa. Resultado: as encostas deslizam, como em Petrópolis, Teresópolis e em Santa Catarina nas tragédias de anos atrás.

E então chegamos a segunda parte desse texto. O ex-presidentes Fernando Henrique, Lula e a atual Dilma são responsáveis por esse drama da seca. São responsáveis, pois não ouvem um conselho de Ciência que tem uma verba pífia há mais de 30 anos. O CNPq (Conselho Nacional de Pesquisa Ciêntifica e Tecnológica) tornou-se um mero distribuidor de verbas para projeto.

Além dessa função, um conselho de Ciência em qualquer país civilizado, é ouvido em todas as questões relacionadas ao clima, ao meio ambiente, à infraestrutura, enfim, em tudo a Ciência deve fazer parte. Os presidentes citados ouviram (quando ouviram) apenas o Ministro da Ciência e Tecnlogia, que sempre foi figura política. Um ministro não tem o cacife e poder que um presidente de Conselho tem, pois está longe das discussões e acompanhamentos da Ciência. Via de regra ele está sempre realocando recursos para satisfazer outros políticos, ou outras instituições para se garantir no cargo.

O presidente dos EUA, coloca em suas reuniões um conselheiro científico em quase todas as questões de guerra, de ciência espacial, de biologia, etc. Obama chega até ao cúmulo de consultar um conselheiro religioso.

Mas no Brasil, quais dos presidentes acima, se reuniram com membros do CNPq para discutir bioética, biotecnologia, ciência espacial, entre tantos outros assuntos? Nenhum. Na opinião deles, são "professores aloprados" que só querem o dinheiro da bolsa de pesquisa. As sociedades científicas nunca foram ouvidas por presidentes, tal como a SBPC. Muitas vezes, sim, elas foram chamadas para condecorações, comemorações e outras badalações sem poder prático. Mas ouvir seriamente sobre qual rumo o presidente, ou a presidente deveria decidir, isso nunca ocorreu no Brasil.

Logo, de nada adianta você, leitor, pagar seu imposto que vai para a bolsa de pesquisa ("grande" valor de R$1.000/mês para o pesquisador) se seu representante do poder executivo nacional nem sabe que esse conselho existe para ajudar nas tomadas de decisões.

E no caso dos estados? A mesma imcompetência. Os governadores ouvem seus secretários, que via de regra são sim professores das universidades. Mas são esses professores-secretários, pesquisadores e renomados cientistas? Claro que não. Para chegar ao posto de secretário, são políticos acadêmicos, que abandonaram a Ciência há muito tempo. É só perguntar para os pares, ou seja, os colegas de onde vieram.

O governador Alckmim não ouviu os cientistas em 2001, quando alertaram da queda do volume dos reservatórios. Depois o governador Serra não ouviu e nem seguiu o relatório que existia dentro de sua própria empresa estatal de água, a Sabesp. E novamente, a presidente da Sabesp foi quase obrigada a pedir exoneração no ano de 2014, pois não concordava e nunca concordou com o gasto excessivo de água sem o devido racionamento necessário negado por Alckmin.

Logo, a imprensa tentar vender que todos devemos economizar água, e que devemos pagar multa, é conversa para distrair criança assustada. O problema não é do consumidor, mas do executivo. A multa deve sair do salário deles, pois nunca ouviram e sempre desfizeram dos cientistas, chamando-os de "pesquisadores de bichinhos", de "loucos", de 'aloprados" e de "vagabundos" quando saíram em greve por melhores salários.

Por que então agora o consumidor tem que pagar? Não. Não tem que pagar não. Quem tem que pagar, são todos aqueles que teimosamente não ouviram a voz que vem da natureza, traduzida em forma de estudo por cientistas que ganham mal e são o tempo todo achincalhados pelos desmandos dos governos e por políticos que mal tem ensino médio de qualidade.

Sendo assim, essa seca não é histórica. A pior seca ainda será a próxima, e a próxima da próxima. Se a natureza não liga para os governadores e presidentes, por que nós deveríamos nos preocupar. Eles que se acertem com a mãe de todas as crises, a mãe natureza.

 

 

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