Quinta-feira, 21 de Dezembro, 2017

 

Desemprego é muito maior do que se diz

 

 

Estamos vivendo a era do ócio do pensamento. Basta um ou dois chamados "especialistas" inventarem alguma palavra, algum jargão ou entonar um pouco mais forte um dogma para a manada seguir atrás. O maior dos entonadores de invenções é a Rede Globo, rede essa que hoje confessou uma reunião secreta entre Michel Temer e um dos herdeiros do clã (ler "Temer se encontrou com cúpula da Globo para discutir delação e reforma", Folha 21/12/2017).

A moeda de troca?

Como Temer não gostou da honestidade da Globo num editorial sobre a gravação de Joesley sobre a tal visita no calar da noite, foi cobrar e colocar uma moeda na mesa. O toma-lá da-cá foi claro e direto. Temer lembrou que a Globo é investigada no processo de corrupção da FIFA, esquema esse delatado por J. Hawilla. Só isso.

Bastou isso para o quarto poder do Brasil, a Rede Globo, mudar seu discurso e começar a apoiar a destruição da CLT na reforma trabalhista e agora, nos últimos meses, escolher a dedo os economistas que mais vão falar bem sobre a reforma da previdência. Ou será que realmente a honesta Rede Globo já fez algum programa honesto e esclarecedor colocando pesquisadores contra e a favor do tema?

O que a rede de televisão vai ganhar? Proteção do governo e aumento nas propagandas de horário nobre.

O que Michel Temer vai ganhar? Proteção, propaganda positiva das suas artimanhas, divulgação de suas nefastas ideias e assim por diante. Foi um jantar perfeito para ambos os lados na mesa dos Marinho.

E entre esses temas agora tratado como um ponto positivo de Temer é a queda no desemprego. Queda?

Apesar de mais de 12 milhões, qualquer mil contratatações soa como um "boom" de recuperação na televisão e no governo. Claro que ao observar os dados que estavam em quase 13 milhões, um leitor mais desatento e convencido pela Rede Globo concordará com os entrevistados do canal de que Temer está recuperando os empregos.

Gráficos são muito interessantes em matemática. Eles dizem mais do que centenas de parágrafos escritos. O gráfico a seguir foi construído a partir dos dados coletados pelo IBGE.

A definição utilizada nos dias de hoje é para o número de pessoas desocupadas e número de pessoas ocupadas por conta própria, ou seja, são pessoas que abriram seus próprios negócios como microempresas. Mas mesmo assim, esse número é apenas de pessoas que resolveram abrir empresas e pagar impostos regulares. Não estão computados os chamados "bicos" nesses dados.

A linha tracejada em vermelho indica quando Temer e sua turma resolveram tornar amplo, usando para isso divulgações midiáticas do IBGE, o decréscimo na taxa de desemprego (linha azul). Quando passou de 14 milhões para algo em torno de 13,5 milhões o estardalhaço da recuperação começou.

Mas será mesmo que o número de pessoas sem emprego está diminuindo? Como vemos acima, não. Dados de janeiro de 2016 até outubro desse ano e 2017 (são os mais recentes divulgados) nos mostram que imediatamente com a diminuição na taxa de desemprego, começou um aumento na taxa de ocupação própria.

Ou seja, a medida que as demissões aumentam e os empregos não aparecem, pessoas estão usando seu dinheiro de FGTS, acordos ou remunerações extras recebidas com encerramentos de contratos para criar seu próprio negócio. E não é a toa que se procurarmos dados sobre isso, veremos que o número de pequenos estabelecimentos disparou nos úlitmos meses.

Quase que em sua totalidade esses desempregados resolveram tentar a sorte com seu próprio esforço de capital e suor, ao invés de procurar emprego com carteira assinada, que não existe.

A curva em tom laranja acima comprova isso, aumentando exatamente no mesmo período onde a curva azul do desemprego começa a cair no gráfico anterior. Mas qual o problema para isso? Deveria ser motivo de felicidade.

Sim, não fosse o fato de que essas empresas não duram nada.

Consultamos a base de dados do Sebrae, que coleta dados sobre falências e recuperação judicial para micro-empresa, média e grande empresa em todo o Brasil.

Tomamos, por exemplo, os dados que começam em janeiro/2016 e vão até novembro/2016.

O gráfico ao lado mostra o acumulado de empresas que pediram falência no sistema nacional.

De janeiro de 2016 até novembro último, a quantidade de micro-empresas fechadas era de 1074.

Médias empresas chegam a 355 e grandes empresas totalizam 150. Não existe, nem por um pingo de vontade, um decréscimo nessa taxa de falência.

Está bem, mas para ser um estudo completo, muitas dessas empresas não irão a falência de uma vez. Elas procuram uma recuperação judicial antes.

Ao tomar esses dados, colocados no gráfico ao lado, fica muito evidente que a situação piorou e muito, para as empresas no Brasil.

Ao contrário do que os adeptos do "temerismo" dizem, a crise não melhorou, não passou e tem ares de piora.

Por exemplo, o biênio 2015/2016 teve um total de 761 concordatas aprovadas. Para um governo que diz que a situação pior ficou para trás, os dados do biênio seguinte deveriam mostrar uma melhora.

Mas como pode ser visto no gráfico ao lado, o número de recuperação judicial aumentou em 2016/2017 para 1.021 (linha azul ao lado).

O aumento no número de concordatas (recuperação judicial) foi de 34% e não queda como era de se esperar.

Então temos aqui um quadro onde as pessoas desempregadas tomaram dinheiro, abriram empresas e correm altíssimo risco de falir. E aquelas que não vão falir, podem estar no número de 34% de chance de pedir concordata.

 

Vida útil das empresas entre 2016 e 2017

 

 

 

 

 

 

 

E por que estão falindo, ou por que estão pedindo recuperação judicial? Como a grande maioria das empresas é do setor de comércio e serviços, significa bem claramente que não estão vendendo.

Ou então, se estão vendendo não estão recebendo. Ou se estão recebendo, não sabem trabalhar com fluxo de caixa e com juros altos pedem empréstimos nos bancos. E como não conseguem pagar, fecham.

Mas ainda assim, alguém pode afirmar: Mas pode ser que essas falências são de empresas antigas e não dessas pessoas recém-desempregadas que abriram o próprio negócio.

Poderia ser sim, mas os dados nos deixam claro que não.

Uma reportagem da revista Época de setembro de 2016 (ao lado) mostra que com dados mais recentes do IBGE a taxa de sobreviência estava, no ano de 2014, para empresas com 2 anos de vida em 39,6%.

Ou seja, para uma empresa aberta, ela tem 60% de chance de fechar antes de completar dois anos de vida.

E esse estudo foi feito com dados até 2014, onde a crise do desemprego ainda estava começando a se estabelecer pela alta na taxa de juros.

Seguindo essa tendência, a taxa de sobrevivência de uma empresa com dois anos de vida deve estar ainda mais baixa do que esse estudo anterior.

Mesmo que esteja melhor, vamos supor 50%, um empresa aberta no ano passado tem apenas metade da chance de ainda estar aberta.

Então se alguém ficou desempregado no início de 2016, poderá estar fechando sua empresa já agora, em janeiro de 2018.

Isso tudo significa que esses dados do "temerismo" são mascarados por uma migração de pessoas de uma situação ruim, para outra temporária, que ficará ruim já a partir de janeiro.

Se levarmos tudo isso em conta, não existe queda no desemprego. A taxa continua a mesma ou até mais alta, visto que com a nova lei trabalhista o número de demissões aumentará.

Apenas um dia depois de aprovada essas mudanças na CLT, um hospital tentou mandar embora 400 funcionários. E agora nesse mês mais três faculdades estão testando a justiça, na tentativa de demissão em massa. A Estácio tentou mandar embora 1.200 professores, a Anhanguera mandou embora a maioria dos coordenadores nesse mês de dezembro, a Metodista está tentando mandar embora outros tantos e assim se segue.

A primeira faculdade que conseguir, abrirá a porteira para a boiada de demissões. A Embraer está mandando embora cerca de 50 funcionários por semana. Segundo fontes interna o número já chega a 700 e em janeiro deverá ter mais demissões.

Então, somando-se as novas possíveis demissões pela mudança prejudicial na CLT, mais as micro-empresas que poderão fechar, mais o número atual de desempregados, temos com certeza algo próximo de 14 milhões de desempregados ou sub-empregados. Um sub-emprego ainda gera uma esperança na família do desempregado, mas a probabilidade trabalha contra.

Não só a probabilidade, mas o tipo de ajuda que é fornecido. Na grande maioria das vezes essas pessoas nunca tiveram nenhum tipo de treinamento para a área onde pretendem investir. Muitos não tem noção do que é um fluxo de caixa, um investimento, um capital de giro, enfim, ferramentas que podem ajudar a medir o risco do novo negócio.

E isso tudo não vem de um simples treinamento no Sebrae. É muito mais complexo do que apenas 6 meses ou um ano de treinamento sobre como gerenciar seu próprio negócio.

A sobrevivência de empresas novas vem da Educação. E Educação é algo onde o Estado brasileiro não investe há muitas décadas, onde pelo contrário, vem desmantelando para vender. Por exemplo o último foco da mídia (leia-se Rede Globo) é em bater nas universidades públicas, tentando focar nos salários e jornadas, e menos em qualidade no ensino.

Nunca, jamais, sem chance, a grande maioria das universidades privadas nesse país chegará aos pés do ensino ainda que sucateado de uma USP, UNESP, UNICAMP, UEL, UFRJ, UFMG, UFSC e muitas outras. É só observar o número, o volume de artigos internacionais que são publicados e que dão nome ao Brasil. Isso é impagável.

Mas não para os adeptos do "temerismo" como a Rede Globo. Então, estamos entrando em um novo ano, mas com mentalidade medieval, com tudo regredindo. Até mesmo os dados estão sendo torturados, não para contar uma realidade um pouco diferente, mas para mentir sobre a realidade do emprego no Brasil.

Esperança para o ano que vem?

Rogamos para que leitor tenha muita esperança, mas que abra bem seus olhos para os eventos paralelos e a divulgação fajuta do "temerismo" e seus aliados midiáticos.