Terça-feira, 6 de Janeiro, 2015

 

Startups: ser ou não ser?

Nos anos de 1990, afirmar que a America Online poderia falir algum dia, era motivo de ironia por parte de amigos e inimigos. Sob a tradicional sigla AOL, a empresa cresceu rápido oferencendo produtos relacionados com internet, tais como servidores de páginas web, e-mails, notícias, as primeiras salas de chat e tudo que se poderia imaginar do mundo novo que surgia no início da década de 1990.

Como a AOL outras pequenas empresas se tornaram gigantes do fenômeno conhecido como "dot com". Empresas sem produtos reais e palpáveis se proliferaram e conheceram valor de capital maior do que IBM e outras tradicionais firmas do mercado de ações. A AOL em 1996 tinha algo em torno de 10 milhões de usuários em sua base de dados, algo impensável até então para um veículo de distribuição de serviços no mundo. Em 1997 metade das casas dos EUA acessava a internet usando a AOL.

Em 2000 a AOL e a Timer Warner se juntaram para constituir a maior empresa de internet do mundo. No entanto, sendo sorte ou azar, a bolha "dot com" estourou e os negócios começaram a declinar, perdendo espaço para novas startups como um "estranho google" e "abusado" Yahoo!. E o número de assinantes começou a despencar, causando perdas irreparáveis às duas empresas AOL e Timer.

Número de assinantes na base da AOL nos anos 2000

Isso prova que o negócio de internet deve ser visto com cuidado e cautela. Empresas novas estão voltando a tomar conta do mercado de serviços com olhos para os novos celulares. É a mesma história do fracasso anunciado na bolha "dot com", com diversas falências quando o espaço de vendas terminar para as empresas que comercializam flores pelo celular, taxi pelo celular, propagandas pelo celular, entregas de produtos e tudo o que se pode imaginar.

Muitos cursos são oferecidos para que qualquer pessoa se torne um empreendedor. Essa é a palavra da moda no momento. Mas em 2000, a palavra da moda era "ponto com" ou "dot com". Muitas empresas surgiram, talvez apenas 1% delas resistiram.

A AOL ainda existe por conta de sua associação com um grande produtor como a Timer e sua diversificação de serviços. Mas pequenos empreendedores que não poupam para mudar o rumo de sua startup numa crise futura, podem não existir mais dentro de três anos. Muitos empreendedores se aventuraram para negócios por celulares, apostando seu FGTS em empresas, que até tem ideias muito interessantes, mas que em termos de Brasil podem morrer na praia.

A e.Digital Corporation foi um desses fracassos que começou com a moda das "ponto com". Listada na Nasdaq sob o símbolo EDIG, foi fundada em 1988.

Em janeiro de 1999 suas ações valiam US$ 0,06. Em 31 de dezembro do mesmo ano elas já valiam quase US$ 25,00. Era um fenômeno obrigatório de constar em todas as carteiras.

Assim como se comparam pequenas empresas com a Petrobras, se comparavam IBM com essas "dot com". O que aconteceu com a EDIG? Em 2013 suas ações valiam US$ 0,12.

Mas a EDIG ainda resistiu e se mantém viva no mercado. O mesmo futuro não aconteceu para outras como a Boo.com que faliu em 2000. O GeoCities era a vedete de antigamente e foi comprada pela Yahoo! em 1999, sendo fechado em 2009.

A Pets.com ganhou US$ 619,000 no ano fiscal de 1999 e gastou US$ 11,8 milhões em propagandas para atrair clientes. Não deu outra, faliu em 2000.

Quando fez o lançamento de suas ações a Pets.com tinha cotação de US$ 11 / ação. Em 2000, quando faliu, as ações valiam US$ 0,19.

 

EDIG - ascensão e queda na bolha "dot com"

 

 

Empresa Pets.com falida em 2000

 

Empresa Webvan.com falida em 2000

 

Empresa italiana de comunicações surgida na bolha "dot com"

A Pets.com durou de 1998 a 2000 e foi considerada o "maior defunto dos websites". Em seu lançamento ainda é possível recuperar o entusiasmo em uma notícia num site (ver aqui na CNET) divulgando o lucro de 82 milhões de dolares da empresa.

Quem estava envolvido no lançamento das ações? Merril Lycnh, Bear Stearns entre outros, considerados "especialistas" e deuses do mercado financeiro mundial.

Erraram em suas avaliações e levaram junto para baixo muitos clientes de grande porte.

Em novembro de 2000 (ainda é possível ler o melancólico aviso no New York Times) ocorreu o fechamento e a dispensa de 255 dos 320 empregados.

A Webvan.com foi outra dessas startups manias que nasceu em 1996. Ela era uma empresa criada para entregar doces em várias cidades dos EUA. Quem era o carro-chefe?

Entre tantos estava o poderoso Goldman Sachs que ajudou a investir US$ 396 milhões na empresa. Em 1999 essa empresa valia US$ 4,8 bilhões. Mesmo com a ajuda do "todo poderoso" e "especialista" Goldman Sachs, a empresa faliu um ano depois, em 26 de Junho de 2000.

A Tiscali.com era uma empresa italiana que atuava no ramo de telecomunicações e lançou suas ações valendo 46 Euros cada em 1999.

Em quatro meses elas saltaram para 119 Euros. Dois meses depois começou sua queda, terminando em 0,2 Euros. Em 2012 as ações valiam 0,04 Euros.

O site de notícias Broadcast.com foi comprado pela Yahoo! tornando seu fundador Mark Cuban bilionário. Ele foi um dos que percebeu a hora de cair fora corretametne e ver que sua empresa talvez não valesse o que o Yahoo! estava disposto a pagar: US$ 5,9 bilhões.

O site foi desativado pelo Yahoo!.

 

Todos esses exemplos e outros não colocados aqui nos mostram que empresas pequenas, com exemplos chamados de "fantástiscos empreendedores", devem ser observados com cautela. Para um negócio proliferar e crescer, são raros os expoentes como as histórias que se contam de google, de Microsoft, de Apple, e tantas outras que já foram pequenas um dia e hoje são gigantes.

Com a nova onda de negócios oferecidos pelos celulares ou via App's, muitas pessoas estão apostando, seja como pequeno empreendedor, seja comprando ações na bolsa de valores dessas startups. É notório corretoras e traders querendo convencer muitos investidores em colocar capital em pequenas empresas fora da carteira teórica do Ibovespa. Segundo eles, existem startups que renderam quase 100% em apenas 12 meses. E isso é verdade!

Mas quem garante que nos próximos 12 meses essas empresas vão sobreviver. É muito diferente das apostas em empresas tradicionais como as "blue chips". Elas estão mal, muito mal no atual cenário. Mas elas tem um patrimônio gigante para aguentar crises, ou mesmo para pedir ajuda para o governo. Já os pequenos empreendimentos cresceram graças a empréstimos e todo seu lucro servirá para amortizar juros futuros. Mas se outra crise surgir, o dinheiro em caixa não paga o investidor, nem os juros dos empréstimos futuros. E aí, os exemplos do boom da era "dot com" voltam à tona.

Outro fato preocupante é que muitas empresas que oferecem serviços pelos celulares estão sendo criadas por investidores ainda recém-formados, com dinheiro da família, com ajuda familiar para alavancar sua carreira. O compromisso com o sucesso não tem tanto peso, pois caso o negócio dê errado, o jovem tem toda uma vida pela frente para recuperar. Já o investidor, caso seja uma pessoa que está usando seu FGTS, se perder esse dinheiro, dificilmente vai recuperá-lo antes de sua idade avançada, ou talvez, nunca recupere.

Atrair e convencer pessoas a colocarem a ideia de negócio próprio é importante e interessante. Foi assim que google e todos os grandes de hoje surgiram. Mas devemos lembrar que para cada exemplo de sucesso, pelo menos dez falharam. Se o google deu certo, o AOL deu errado, o Alta Vista deu errado, o Cadê deu errado, e muitos outros servidores e programas de busca faliram.

O mesmo vale para os jornais online. Eles precisam se recriar, ser mais honestos com os usuários. Se o AOL perdeu 10 milhões de clientes em sua base, por que UOL, Estadão, Folha ou O Globo não podem perder? Apenas propagandas, bate papo, e textos "requentados" de outros veículos de informação, acabam matando esses servidores de notícias de dentro para fora.

Ser empreendedor grande, ou não ser grande, não é uma escolha. É resultado de trabalho sério, árduo e muito difícil. É só lembrar que a estrela mais brilhante, mais bela que cruza o céu da Terra na forma de meteorito todas as noites, deixando um rastro em sua trajetória, é aquela que tem duração mais curta.

 

 

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