Sábado, 12 de Maio, 2018

 

A escola do suicídio

Nunca entenderemos as razões de um suicída. Nem poderemos ter a pretensão para isso, uma vez que essa extrema decisão está escondida nas mais profundas camadas do cérebro. Também não devemos criticar, pois a decisão de deixar de existir é um estado tão impensável que uma pessoa para tomar essa decisão deve ter tido dias, meses ou anos de briga interna sobre o assunto.

Muitas vezes elas são distúrbios que podem ser controlados por drogas ou terapias, mas a grande maioria sempre estará com essa decisão apenas adormecida, apenas esperando o momento certo de sua execução. Um suicída muitas vezes tenta tirar essa responsabilidade da família, dizendo que os ama, mas que não pertence a esse mundo. Muitos escrevem cartas dizendo que ninguém tem culpa, apenas é uma decisão pessoal.

Mas não tomemos isso, ou seja, o suicídio, como algo inevitável. Talvez mudança de ambiente, mudança de amizades, mudança de situação de vida, mude essa ideia radical de tirar a própria vida. Muitas vezes, e olha que não são poucas, as razões estão no emprego e na escola. O mais recente caso foi do ecologista e botânico renomado da Austrália, professor David Goodall de 104 anos. Ele teve um suicídio assistido na Suiça após pagar para executar esse ato, uma vez que isso é permitido no país.

No caso do professor Goodall o desespero por morrer aconteceu aos 102 anos. A universidade solicitou que ele parasse de trabalhar pois estava sendo "muito perigoso" mantê-lo por lá. Ele mesmo contou que isso o levou ao estado de depressão. A universidade voltou atrás, mas isso nunca mais recuperou o estado normal para Goodall.

Professor David Goodall teve suicídio assistido nessa semana na Suiça

E quando se fala de ambiente escolar ou acadêmico, esbarramos em histórias escondidas e falta de dados sobre o assunto. No ano passado a BBC-Brasil publicou um artigo levantando um dado onde mostrava um aumento de 10% no suicídio entre jovens no Brasil desde 2002.

A taxa de suicídio no Brasil, segundo a reportagem, subiu de 5,1 por 100 mil habitantes em 2002 para 5,6 por 100 mil em 2014.

Mas pelos comentários que se ouve no dia-a-dia, essa taxa deve ser maior nesse ano de 2018.

O gráfico ao lado mostra os dados retirados da reportagem obtidos com exclusividade pelo jornalista junto ao Ministério da Saúde.

A curva ascendente é preocupante e pode estar ainda mais íngrime com novos acontecimentos nesse ano. Na época a discussão surgiu devido ao suicídio de um garoto com o jogo de internet "Baleia Azul".

O ambiente escolar que deveria ser prazeroso é sempre apontado como responsável por essas tragédias.

No interessante artigo de Souza et al, "Revisão de literatura sobre suicídio na infância", os autores se debruçam sobre dados e artigos no passado que buscam entender a situação.

Por exemplo eles citam que estudo na Noruega revela que 68% dos adolescentes verbalizam em pesquisa seu desejo de morrer e destes, 29% verbalizam sua intenção de suicídio.

Em outro estudo, também na Noruega, 40,9% dos jovens entrevistados haviam verbalizados para seus colegas e professores o desejo de suicidar-se.

Outro fato alarmante é que jovens que manifestam o desejo de morrer, deixando cartas ou escrevendo bilhetes para amigos, cometem o ato na mesma semana.

O desafio é sempre a detecção e prevenção de um suicídio. Muito se fala na mudança de comportamento que pais e professores devem observar nos jovens.

 

Fonte: Site BBC- Brasil (2017)

 

Artigo sobre suicídio entre jovens de Souza et al.

 

Reitor suicidou-se e PF não apresenta provas concretas

 

 

Mas não são apenas jovens que cometem suicídio nas escolas, tendo casos de professores e até mesmo reitores, como na Universidade Federal de Santa Catarina.

O jovem reitor Dr. Luiz Carlos Cancellier de 59 anos se jogou de uma escada rolante num shopping de Florianópolis. Na época, foi acusado pela PF e Ministério Público de desvios de dinheiro nas bolsas de estudos da universidade.

Nessa semana o relatório completo da PF foi concluído, e pelo que o jornal Folha de SP afirma, as 817 páginas são fracas e sem provas.

Mais um caso de "convicção sem provas", que parece dominar a polícia e justiça nesse país. O estudo do direito foi concebido há mais de 2 mil anos para se ter não somente um rito processual, mas uma conduta lógica baseada em dados.

Para acusar ou libertar uma pessoa, deve-se basear não em "convicção" de religiosos que colocam toga, mas em juízes imparciais que se baseiam em dados.

Esse caso do reitor de Santa Catarina é um caso de membros externos, interferindo numa universidade sem conhecer o ritmo dos processos acadêmicos, a forma de funcionamento dos conselhos de departamentos e congregação.

Confunde-se todo o processo de distribuição de bolsas por mérito científico, com distribuição por mérito de propina.

E no mesmo sentido, quando políticos ou policiais tentam colocar regras nas escolas para responsabilizar professores sobre a conduta das crianças, também banalizam um assunto por demais complexo em todos os países do mundo.

É fato sim, que as drogas são as grandes responsáveis pelos atos suicídas entre os jovens. Prevenir drogas dentro das escolas é uma política certa.

Mas o jovem pode obter droga dentro de seu próprio condomínio. Ele pode obter droga comprando pela internet em casa.

Também direcionar as políticas e cuidados apenas para professores e diretores de escolas é incorreto. Muitas vezes o problema na escola é potencializado pelo bullying entre os colegas, entre as competições por notas ou por lideranças de amizades.

Mas não é só isso. O fenômeno tem um comportamento social muito mais nefasto do que antigamente, pois temos uma droga lícita que ninguém comenta: celular e rede social.

O suicídio sempre existiu na sociedade e se tornou amplificado entre os jovens devido aos celulares e redes sociais. Se antes um garoto sofria bullying na escola por ser fraco em aprendizado, por ser pobre, pelo time que torce, por ser de outra religião ou raça, quando ele voltava para seu bairro, o assunto era outro. Dentro de sua comunidade e de sua casa se conversava sobre outros assuntos, o que diluia um pouco o sentimento de desprezo coletivo.

Nos dias atuais ninguém se desliga mais. Quantos e quantos jovens dormem com o celular ligado para ao ouvir o som de chamado de sua rede social, acordar e começar a conversar ou discutir. Quantos não prestam atenção em palestras ou aulas, ligados o tempo todo em suas redes de internet.

No mundo das notícias falsas, vomita-se o tempo todo vídeos xenofóbicos e racistas de provocação, que de tanto se propagar cria um sentimento de ódio e desprezo. É desprezo por pessoas de outras regiões do país, é desprezo por mortos, é desprezo por condições sociais, é desprezo por famílias inteiras, enfim vídeos proliferam como câncer na sociedade politicamente incorreta.

E nessa onda embarcou as redes de televisão, claro, para não perder concorrência com internet. A Rede Globo com seu inoportuno e agonizante JN despeja raiva e ódio o tempo todo em seu "horário nobre", sem dedicar um único segundo sequer para a Ciência, para notícias que incentivem as pessoas a estudar. Não se vê também em seus concorrentes notícias apresentando pessoas que brilham por manter a chama acesa do estudo.

Quando alguém ganha um prêmio, seja por estudo, seja por pesquisa, toma no máximo 15 segundos de televisão nos jornais.

Mas quando juízes e promotores dão coletivas, tomam eternos minutos "endeusando" agora, as pessoas "mais importantes" na visão televisiva. Estudando esses "deuses da honestidade" a fundo, se percebe o quanto são pessoas "toscas" e despreparadas, sendo muitas delas provincianas.

Então, para um garoto de 15 a 23 anos, estudar é apenas uma obrigação. Para o jovem que sofre bullying o dia todo, ao assistir um jornal ou ler notíais que só falam de condições adversas, às quais sua família pode também estar inserida, vê em sua própria condição uma vida sem sentido. E não se desligando de redes sociais, não sofre apenas bullying na escola, mas a cada segundo de sua vida.

Esses parágrafos desse texto, de forma alguma se configuram como verdades absolutas diante de um tema tão complexo que mesmo estudiosos tem duvidas. Mas precisam entrar no debate, como mais variáveis a serem levadas em conta para se formar um quadro mais amplo e completo.

Não apenas os métodos escolares devem ser revistos, não apenas professores e coordenadores "treinados" para observar comportamentos, mas sim, redes sociais precisam serem regradas de alguma forma.

Jornal de televisão precisa de códigos de conduta rígidos e punições como qualquer empresa, quando esses jornais transgridem o direito de informação para direcionar um assunto, não como formação de opinião pública, mas formação de opinião dos editores e donos das redes.

Por que todas as empresas tem regras, fiscalizações e normas, mas televisões "não podem ter"?

Quando se fala em criar qualquer norma para redes sociais e televisões a celeuma toma conta dos jornalistas que começam a se estrebuchar dizendo que é censura. Dentro de nossas casas temos que ter conduta de comportamento, dentro das empresas também, logo, dentro do ambiente jornalístico deve-se ter uma conduta mais rígida sobre notícias que a todo momento são transcritas de lógicas com palavras meticulosamente colocadas para provocar o ódio.

Provocação ao ódio deveria ser um crime hediondo. Sabemos muito bem as consequências em que o mundo chegou, quando um louco provocou a segunda guerra mundial com seu ódio.

Enquanto não se colocar condutas para redes sociais e televisão, sobretudo jornais, na discussão sobre a sociedade como um bem maior e a escola como o vetor para o crescimento intelectual, o assunto suicídio na escola apenas como caso de polícia só vai piorar nos próximos anos.

Infelizmente, jovens vão continuar morrendo, por vícios socias de todos os tipos e não apenas por vícios em drogas ílicitas, mas em eletrônicos lícitos também.