Sábado, 29 de Agosto, 2015

 

A máfia da telefonia contra o WhatsApp

Gangster é um perito em mexer e estruturar regras do submundo, para lucrar e ter um poder paralelo no domínio da população, com aparência de bom cidadão que trabalha legalmente. Talvez, o historicamente mais conhecido gangster seja Al Capone, que começou sua carreira do crime como "gorila" para o bando Five Points e foi se aperfeiçoando na arte da intimidação e do suborno de políticos e policiais.

Devido à lei seca nos EUA, Al Capone lucrou muito no comércio da bebida, na prostituição e no jogo ilegal. Criou um aparato "legal" tão poderoso, que para prendê-lo, os EUA teve que mudar de estratégia. Ao invés de condená-lo por crimes e máfia, foi preso por evasão fiscal, sendo que, mesmo dentro do centro penitenciário, ainda conseguia gerenciar e lucrar com os negócios da máfia.

Pobre Al Capone, nasceu em época errada e no país errado. Tivesse ele nascido no Brasil, nunca seria preso e ainda receberia medalhas de honra ao mérito pelos serviços prestados à nação. O Brasil sobrevive graças ao poder paralelo das empresas de todas as áreas, que afrontam os governos há muitos anos, criando leis absurdas e insultando a inteligência das pessoas.

Temos as máfias dos planos de saúde, que lhe cobram a vida inteira com valores absurdos por seus planos, mas investem o dinheiro arrecadado em propagandas, em times de futebol, de basquete, em doações de campanhas eleitorais, e pouco usam esse dinheiro para oferecer um tratamento digno e de qualidade quando o paciente atinge idade mais avançada e começa a tentar ursufruir da ajuda prometida.

Outras máfias brasileiras são as do transporte, da segurança particular, das padarias, dos serviços funerários, das farmácias, dos taxis e tantas outras que é melhor parar. A que saltou e mostrou sua face nas últimas duas semanas, foi a máfia da telefonia. Com a natural conversa fiada de que prestam um serviço de qualidade à população, mas "sofrem" com a concorrências desleal de aplicativos de redes sociais, como o WhatsApp, as operadoras miram quebrar a comunicação via internet no Brasil.

Claro, observaram a máfia dos taxis ganhar com pressão sobre os políticos para retirar das ruas serviços de internet que levam e trazem pessoas de maneira barata. E isso não tem nada a ver com os motoristas de taxis, mas sobre os donos das frotas. Ameaçando com desemprego, quem vimos nas ruas eram os motoristas, mas a mão que mandava no processo, estava nos bastidores da política intimidando o Estado até proibir o aplicativo.

O gráfico à seguir é da operadora VIVO, publicado em seu relatório público do balanço do primeiro trimestre de 2015. O que se percebe é um aumento na receita da telefonia móvel em quase 12% entre o último trimestre do ano de 2014 e o primeiro desse ano. Será que um crescimento de 12% em época de recessão, com PIB previsto para ser negativo, não está bom?

Para a VIVO, não. Puxando a fila de combate contra o aplicativo WhatsApp, o diretor de Relações Institucionais da Vivo afirmou que, o WhatsApp causa um "desequilíbrio setorial" por não ser tributado. Mas que desequilíbrio é esse, se os ganhos com internet móvel só aumentam, como eles próprios colocam em seu balanço?

Quer ver como os gangsters aparecem, caro leitor? Al Capone teria inveja da habilidade desse submundo do crime telefônico. Para a VIVO, eles pagam "licenças que somam mais de R$ 3 bilhões e ... quando a gente olha empresas que usam a nossa rede para fazer concorrência, sem gerar empregos e tributos, precisamos pensar no papel da regulamentação...".

Com essa frase eles parecem pessoas de boa índole e são realmente muito prejudicados. Mas espera aí! Quantas micro e pequenas empresas no Brasil não negociam produtos e serviços, usando o WhatsApp e estão com isso fazendo economia em comunicação, a ponto de contratar mais pessoas para suas vendas? Quem disse que ao utilizar o serviço gratuito, mesmo indiretamente, o WhatsApp não gera emprego?

Outra fala de gangster veio da TIM, quando um de seus diretores foi ainda mais "face de madeira". Ele disse que o "... WhatsApp com chamada de voz gera impasse na regulação dos serviços de telefonia e ensejam uma competição desleal..." . Competição desleal é que essa empresa faz, cobrando alto do usuário, fazendo propanda falsa sobre sua conexão em "todo" território nacional e tendo uma qualidade de serviço aquém do que se paga.

Essas empresas se esquecem que essa tecnologia de internet não foi criada e muito menos aperfeiçoada por elas. Elas tomaram da vida acadêmica de forma gratuita, e com a falsa imagem de criar laboratórios de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico, colocando alguns parques insignificantes ao redor do mundo dizendo fazer alta tecnologia. Foi o setor universitário que criou para os militares na época da guera fria, o serviço chamado de internet, para conexão segura com a finalidade de se evitar a espionagem da cortina de ferro (URSS).

Pagaram pouco, ou quase nada, pelas ideias geradas dentro das universidades. Se escrevem para os investidores dizendo que investem milhões em pesquisa, ganham bilhões de dolares de retorno com salários ridículos aos funcionários e repasse de verba insignificante para as universidades nesse campo de pesquisa.

Voltando ao balanço da VIVO, pode-se ver ao lado, que eles disseram ao mercado que estão "muito bem", com as ações valorizando mais do que o Ibovespa e Dow Jones. Então, que concorrência desleal é essa?

No ano passado inteiro, o lucro da VIVO foi de 34%, num ano que todos diziam "difícil". Que dificuldade é essa onde uma empresa, já descontando os tais impostos pagos, ainda tem um lucro de 34% ?

Caro leitor, quanto renderam seus investimentos em 2014? Foram acima de 34% também, como os da VIVO?

Quanto foi o rendimento da caderneta de poupança, o investimento mais popular para as pessoas mais simples que usam esse serviço pífio e ridículo da telefonia brasileira?

Enfiado goela abaixo das pessoas menos favorecidas, o plano de internet de uma operadora de telefonia no Brasil, promete uma coisa e na verdade o que se vê é outra.

Enquanto as pessoas que mais estão inflando as contas das telefonias tem um rendimento de poupança de 8% ao ano, e gastam boa parte de seus salários com os planos de internet, a operadora ganha 34%.

Isso é coisa de gangster, e não americano, brasileiro mesmo.

Não contente ainda em oferecer um serviço pobre, com internet lenta que nunca cumpre a velocidade de 3G ou 4G, outra operadora ainda cutuca que deveria pagar menos imposto para concorrer com os serviços das redes sociais.

Para a OI, "... quem investe mais deveria pagar menos, seria uma forma de alavancar o investimento no País...".

É o que Al Capone dizia, que nunca poderia ser preso pois, alavancava o comércio para os EUA, com suas empresas e ainda garantia o emprego de muitos funcionários de maneira "honesta".

Desempenho das ações da Vivo

 

 

O presidente da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) se disse contra a regulamentação. Mas isso não significa muita coisa, visto que essas empresas formam um grande cartel para pagar sobre a forma de doações as eleições dos políticos. E é isso que manda na regra do jogo dos gangsters.

Como pode a TIM dizer que a competição é desleal se a receita bruta com dados móveis cresceu 45% no segundo trimestre de 2015 quando comparado ao mesmo período de 2014?

Novamente, pode-se perguntar ao pequeno empresário, quanto ganhou no mesmo período? Então, como podemos permitir ler sem fazer piadas, trechos dessas entrevistas onde se afirmam que a "concorrência é desleal" e que desejam pagar menos impostos para concorrer com o WhatsApp?

E quem mais paga, quem mais usa e menos qualidade do serviço tem, são as classes B, C, D e E. Segundo o próprio relatório com o balanço da TIM, 71% dos usuários são das classe B+C e 27% das classes D+E.

As adições brutas aos pacotes de dados para a internet foram de 30% no primeiro trimestre de 2015 em comparação com o primeiro trimestre de 2014, nas páginas internas do relatório trimestral.

 

Somos mais de 200 milhões de habitantes e apenas quatro operadoras dominam um território continental como o nosso. E ainda não satisfeitos, esses grupos que mais parecem "bandos" do que empresas, insistem em destruir soluções inteligentes, criativas e baratas. A própria VIVO comprou meses atrás uma operadora que operava de forma bastante elogiável na cidade de São Paulo, e simplesmente, a destruiu. Padronizou um serviço que era muito bom e que concorria com ela, para um serviço de conexão com velocidade bastante questionável.

Temos então um dilema. Ou as empresas mentem em seus balanços, ou mentem em suas afirmações para ganhar ainda mais do que já ganham com serviço ridículo oferecido. Mais provável a segunda hipótese, ou então a CVM deveria investigar a veracidade dos balanços. Se um empresa ganha 45%, ou 32% num ano em que tudo está ruim (como se afirmam), como podem afirmar que existe uma concorrência desleal e que estão perdendo dinheiro?

O que aconteceu com Al Capone? Foi preso por evasão fiscal, que não tinha absolutamente nada a ver com bebidas, jogos ou prostituição. Logo, se não podemos atingir essas empresas pelo mau serviço oferecido, que tal o juiz Sérgio Moro dar uma olhada rápida para onde as "doações legais" dessas empresas estão indo?

 

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