
Terça-feira, 7 de Dezembro, 2010
Não siga tendências
Todo mundo deve ter brincado em algum ponto de sua infância com jogo "telefone sem fio". Uma frase numa ponta, dependendo do número de pessoas chega totalmente errada no fim. Existe até um cálculo de como essa informação se dispersa com os ruídos adicionados. Entenda como ruídos, os acréscimos e decréscimos de palavras que vão passando de um jogador a outro com cochichos nos ouvidos. Agora vamos olhar a seguinte equação:
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Pode parecer apenas uma junção de símbolos, uma disposição estranha que não diz nada. Essa é a equação conhecida como equação de Fokker-Planck, nomes de dois importantes físicos Adriaan Fokker e Max Planck. Na verdade ela demonstra de forma simplificada a natureza das partículas que envolvem a termodinâmica. Por trás dos símbolos, essa equação cria vida e diz que é possível saber onde uma partícula estará em algum tempo no futuro. Basta "apenas" conhecer as taxas de variações de diversos fatores em cada instante de tempo que a distribuição de probabilidade se configura. De posse dessa distribuição, a posição e o tempo em que a partícula estará nessa posição ficam definidos. Com a probabilidade conhecida, pronto. A "estória" do futuro morreu e sabemos o local com mais chances de achar a partícula. O problema começa a ficar mais rude e cruel quando se tenta resolver essa equação. Os símbolos gregos representam variações parciais. Por isso essa é uma equação diferencial parcial, pois depende da variação de todas as parcelas, inclusive o tempo. Resolver uma equação diferencial não é algo simples ou comum. E também não é para qualquer pesquisador. As vezes apenas uma solução particular pode levar a vida inteira de um pesquisador. Pesquisadores morrem sem descobrirem nada, pois às vezes não existe solução para determinado tipo de equação. No entanto, com algumas simplificações e considerações hipotéticas, a solução dessa equação nos conta coisas que já sabemos, mas não levamos a sério. Primeiro ela nos diz (pode parecer impossível, mas não é) para você não ouvir os outros, ou vai pegar caminho errado. Ouça sua intuição, é o que ela diz, não ouça os outros. Não tente seguir a curva de probabilidade de outros, pois na média todos vão perder.
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A equação disse isso para Jean Philippe Bouchand sobre investidores do mercado financeiro que seguem tendências (foto abaixo)
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Bouchand é físico de formação na França e criador de um fundo de investimento que utiliza sobretudo regras para compras e vendas baseadas nas equações da física. Aliás aqui cabe um parêntesis para alertar o leitor do erro que se ouve com freqüência dos analistas de mercado. Quando perguntado sobre que técnicas usam, freqüêntemente alguns dizem que usam análise "quanti" ou "quântica". Existe uma confusão pois a palavra "quanti" vem da simplificação da palavra "quantitativa" que vem de "métodos quantitativos" numa referência à métodos matemáticos para resolver equações, entre elas as financeiras. Mas quando ouvir algo como "quant" ou "quanti" ou "quântica" o analista está se referindo aos métodos matemáticos e não à física quântica. Não é o que Bouchand faz, pois ele sim usa métodos de física quântica, mais propriamente equações da termodinâmica para descobrir curvas de probabilidades no mercado financeiro. Em seu trabalho (disponível aqui(pdf)) "Trend followers lose more often than they gain" o pesquisador francês calcula a solução da equação Fokker-Planck para traders ganhadores e perdedores. Ele parte da premissa que os traders seguem tendências (vão atrás do boato) e simula em seu artigo compras, vendas e manuntenções apenas quando uma tendência é definida. Então usa a equação acima para descobrir curvas de probabilidade sobre as tendências, e o tempo necessário para se manter comprado ou vendido. Resultado: Com mais de 5.000 dias, de 1985 a 2005 Bouchand simulou compras e vendas com tendências usando sua curva de probabilidade para operações com o franco suiço e dólar. A distribuição de probabilidade é assimétrica favorecendo...perdas! Quando ele apresenta o primeiro gráfico o sentimento é de risada. Parece que a curva lembra mais uma distribuição de probabilidade de átomos mesmo, coisa de ficção científica onde é possível voltar ao passado (eixo negativo com maior densidade). Mas quando ele confronta o histograma com os dados reais das operações simuladas, a coincidência da forma é fantástica. O leitor pode conferir abaixo.
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O histograma abaixo da curva tracejada mostra o retorno de todas as operações de compra e venda seguindo tendências. A curva de probabilidade é assimétrica favorecendo o eixo dos ganhos em sua parte negativa (abscissas). Segundo Bouchand a probabilidade de perda com trades errados que seguem tendências é de 60%, muito próximo da solução que ele encontrou na resolução da equação que previa 63,5%. O próprio Bouchand se diz surpreso em seu artigo e diz que esses valores podem mudar dependendo da escolha de alguns parâmetros de ajuste da equação, mas em todos os seus testes a assimetria favorece mais as perdas do que os ganhos. Apesar de antigo esse artigo (2005) a solução mostra muito bem o comportamento errático que os investidores acabam fazendo pelo acúmulo de informação. Seguir os outros "tick-by-tick" não fornece uma noção global para fazer um grande trade. Por isso a decisão pessoal é muito mais importante do que o coletivo. A solução da equação mostra algo como, "cuide de sua vida e siga seus valores". Vindo de uma equação, essas palavras são fantásticas.
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