Quinta-feira, 09 de Abril, 2015

 

Projeto de terceirização não é bom

A culpa é toda dos sindicatos. A onda rápida para a aprovação do projeto de terceirização proposta pelo governo federal, cuja ideia estava engavetada e agora foi aprovada na Câmara dos Deputados, vai contra o trabalhador comum. Esse caminho escolhido pelo governo, sobretudo convencido pelo ministro da Fazenda Joaquim Levy, vai punir novamente a classe que mantém o país andando.

Obviamente que a oposição ao governo adorou a ideia, pois vai de encontro aos anseios da então chamada corrente da privatização geral. Essa corrente pensa que o melhor para o país é privatizar todos os tipos de serviços, deixar tudo por conta da iniciativa privada. Essa noção de Estado mínimo é banalização da ideia do Estado gerente. Ser um Estado pequeno, não significa abrir mão de serviços e garantias aos menos privilegiados da sociedade.

Mas é completamente compreensível que essa onda ganhou força por conta dos abusos dos sindicatos. O crescimento do número de sindicatos após o governo Lula foi absurdo. Em alguns veículos de informação se fala em 250 mil sindicatos, outros em 9 mil, e ainda existem sindicatos que são sindicatos deles próprios, sem representação nenhuma. Apenas existem para arrecadar dinheiro para seu próprio benefício.

Como se pode notar no gráfico abaixo, os principais sindicatos do Brasil tem 6,5 milhões de filiados, ou seja, trabalhadores que doam parte de seu salário uma vez por ano para essas entidades. Os dados já são antigos, de uma reportagem da Folha de S.Paulo em 2013. Segundo a reportagem esses principais sindicatos receberam em 2012 cerca de R$ 141 milhões. E que retorno teve o trabalhador que colaborou com o sindicato? Quase nada.

Foi um dinheiro fácil e rápido sem retorno nas horas mais duras para o trabalhador, principalmente depois de demitido. Ao invés de receber salário-desemprego apenas do governo, os sindicatos deveriam usar esse dinheiro para criar um fundo de amparo ao trabalhador demitido. Todos deveriam agir como agentes de busca para recolocação do trabalhador no mercado de trabalho, e não apenas o governo se preocupar em gastar parte do orçamento para essa recolocação.

É verdade que alguns sindicatos possuem planos ou atividades de reciclagem do trabalhador para aperfeiçoamento e recolocação no mercado de trabalho. Mas a imensa maioria não se preocupa com isso e deixa a cargo do SENAI ou SESC. Depois de demitido o trabalhador procura outro emprego e se encontra, é obrigado a se filiar a outro sindicato e contribuir novamente para algo que não vê.

Se os dados apurados pela Folha forem verdadeiros, esses principais sindicatos tem em suas mãos cerca de 30% dos trabalhadores da ativa. Conforme gráfico ao lado, retirado do site Trading Economics , em 2015 o Brasil possui 22,7 milhões de pessoas empregadas com carteiras assinadas.

E como a escolha para a contribuição sindical é obrigatória, esse número de 30%, se não estiver correto, deve estar bem próximo da realidade.

E quando os sindicatos aparecem? Apenas nas greves e passeatas, mas são ausentes na vida cotidiana do trabalhador. E por serem tão distantes daqueles que os mantém, o sentimento de que a privatização é boa, de que privatizar tudo resolve, tomou conta até mesmo do trabalhador.

Mas não será bom.

Como está no projeto, a atividade fim agora poderá ser terceirizada. Todos imediamente pensam nas indústrias e firmas que poderão se agilizar para contratar e demitir mais rápido e sem burocracia.

Mas esqueçam as firmas e pensem na educação e na saúde. Imagine o leitor, que os hospitais vão poder contratar "firmas de médicos". Sim, por que não?

 

 

Histórico de pessoas empregadas no Brasil até Fevereiro de 2015

 

 

 

 

 

 

 

Ações da Universidade Estácio de Sá (ESTC3)

 

 

 

 

 

O ministro da Fazenda fez incluir um adendo no projeto que a empresa contratante deve manter os pagamentos previstos pela CLT. Mas qual a responsabilidade por um atendimento errado, um atendimento de má qualidade?

Simplesmente o hospital cortará o contrato com a tal firma, recontratará outra firma e ele próprio não será responsabilizado de nada, pois o médico não é responsabilidade dele.

Para o suposto hospital, será fácil provar judicialmente que "forneceu todas as condições adequadas de tratamento" mas o médico e a firma contratante não fizerem seu trabalho da maneira correta. E o paciente vai ter que correr atrás sozinho contra uma firma de médicos.

E isso já ocorre nos dias de hoje. Tente o caro leitor, processar uma Seguradora de Saúde. Impossível. Criou-se uma confusão geral entre plano de saúde e seguradora. O plano de saúde pode ser processado, mas a seguradora dificilmente, pois ela é apenas uma repassadora de dinheiro para os gastos do paciente. Mesmo apoiando hospitais que matam pacientes, com médicos que são seus conveniados, as seguradoras se livras sempre dos processos.

Já tentou ligar para elas e ameaçar com algum tipo de processo? A resposta da ouvidoria é que, "somos apenas repassadores de reembolso, não temos nada com isso". Experimente!

Ou então, vamos imaginar no caso da educação.

Já existem universidades com ações em bolsa de valores, como a Estácio de Sá. De 2011 para cá, a ação saiu de R$ 5,00 para R$ 30,00. Sim, 500% de retorno em apenas 4 anos.

Pergunta: Será que o salário dos professores aumentou 500% ? Será que as salas de aula são todas informatizadas? Será que os alunos tem as melhores notas, melhores conhecimentos, melhores trabalhos publicados em revistas internacionais de ponta?

Sim, porque algo como 500% de melhora na economia da universidade, deveria ser visualizado nas salas de aulas, na qualidade do aluno que sai para o mercado de trabalho, que é o local mais importante da universidade. Ou pelo menos deveria ser.

O que faria então as universidades para se "adequarem" ao novo projeto de terceirização? Contratarem não mais professores, mas firmas de professores. Ou ainda, por que não contratar cursinhos para dar aula nas faculdades? Por que não criar um cartel da educação, onde a universidade será apenas um prédio, um local onde firmas levam professores "robotizados", "engessados" e despraparados para a verdadeira vida acadêmica?

Paga-se bem para uma firma, livra-se dos "professores chatos" que só reprovam, e para qualquer reclamação do aluno, o dono da universidade direciona direto para o dono da firma. A universidade não tem culpa de nada. E se os "garotos" não gostarem dos professores, é só trocar o contrato com a firma de professores. Simples!

Não é só uma questão simples de pagamento ou não de impostos à união. Mas da qualidade do serviço prestado. Só a universidade, só um corpo de professores, com regras dentro da própria universidade tem a capacidade de educar. Firmas não. O aluno NÃO é cliente! O aluno é um produto.

Se o produto sai ruim, se o mercado não o "compra", a usina da universidade está errada. Mas com as firmas de professores terceirizados, o produto passará a ser cliente. E nesse caso, ele tem sempre a razão, mesmo em afirmar que 1+1=5.

É óbvio que os políticos vão vender a idéia de que o trabalhador saiu ganhando. Eles próprios estão vislumbrando criar suas próprias empresas para assumir os postos abertos. Será que quando o presidente João Figueiredo confiscou a contribuição de 30 salários mínimos para 20 salários falou que o trabalhador perderia? Será que o presidente FHC quando confiscou a contribuição de 20 salários para 10 salários mínimos afirmou que o trabalhador perderia?

Será ainda, que quando o presidente FHC criou o "pedágio" da aposentadoria disse ao trabalhador que ele sairia perdendo? Ou será que quando nos impuseram aposentadoria aos 65 anos, alguém disse: "olha você perdeu e será assim mesmo". Claro que não, é só pegar os noticiários da época. Todos diziam que os trabalhadores ganhariam mais, ao calcular sua aposentadoria pela média dos últimos 5 anos. A estatística foi usada contra o trabalhador desinformado.

Então, se você não é trabalhador assalariado, pode comemorar. Se você, caro leitor, tem carteira assinada, prepare um plano B. Sua vida vai começar a virar um inferno.

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