Sábado, 1 de Maio, 2010

 

Torre de marfim arranhada

"Uma pessoa normal conta três mentiras a cada dez minutos". É assim que começa a reportagem da revista Galileu em Março de 2009 sobre mentiras em seu texto Será que é mentira? Pupilas dilatadas, levantamento das sobrancelhas e um olhar que se desvia para a esquerda e para baixo. Um dos fatos marcantes no mundo financeiro americano nessa semana foi o depoimento do CEO do Goldman Sachs no Congresso americano sobre a acusação de fraude. O Sr. Blankfein disse: "Eu não sei" e gaguejou em inúmeras vezes. A bloomberg fez uma ótima montagem sobre seu depoimento e todos podem concluir o que de fato o CEO da Goldman Sachs sabe ou não sabe sobre a acusação. O vídeo também pode ser acessado na página principal na aba "videos" desse site.

O grande Goldman Sachs está a cada dia se envolvendo em declarações que, segundo advogados, fornecem mais pistas "forenses" à Justiça americana. Como eles estão acuados, resolveram sair para o ataque fazendo diversas declarações à imprensa por diversas pessoas do Goldman Sachs. E quando diversas pessoas tentam contar a mesma verdade, muitas estórias surgem diferente da verdadeira história. São visões diferentes do mesmo fato e isso é normal. O problema do caso Goldman é que existem elementos diferentes que denunciam e levantam outros fatos que não estavam aparecendo no início da acusação. Por exemplo, agora estão surgindo e-mails de muito antes da crise onde um dos diretores do Goldman dizia à um cliente que estava se sentindo como Frankstein. Isso porque depois de ter criado um produto e vendido como muito bom, agora eles estavam vendendo e matando a criação.

O Sr. Blankfein correu em dizer (mas não desmentir) que e-mails maldosos não refletem o espírito da firma e a confiança dos clientes em suas aplicações. E então o senador Carl Levin disse: "Eu não confio em você" em plena sessão do Capitólio nessa semana.

Quem deve estar "vibrando" com essa história é o grande e influente matemático Benoit Mandelbrot, pai e criador da teoria dos fractais. Em seu livro Mercados Financeiros Fora de Controle - Benoit Mandelbrot ele criou a expressão "torre de marfim" para as grandes sedes dos bancos de investimentos mundiais.

 

 

O livro é uma excelente oportunidade para conhecer os dois lados da mesma moeda. Tendo trabalhado no mercado financeiro, dado consultorias à diversas empresas americanas e professor universitário, Mandelbrot fala com propriedade sobre os erros das chamadas "torres de marfim". Bastante criticado e com humor "áspero" ele não poupa críticas às atuais técnicas pra lá de ultrapassadas que são utilizadas pelos fundos de investimento ao redor do mundo. Em especial no caso Goldman Sachs, as criatividades dos produtos estão acabando por se virar contra os criadores, pois seus produtos caíram como no mínimo suspeitos. Diversas empresas que emitem os "famosos" relatórios de recomendação estão ameaçando para as próximas semanas emitir "fortes" recomendações de vendas aos produtos do Goldman Sachs. Ontem, sexta-feira (30 de Abril) as ações caíram 9,39%, ou 15,04 dólares americanos (gráfico a seguir).

 

 

O mega investidor Warren Buffet disse que confia 100% no Goldman Sachs, uma vez que possui muitos produtos do Banco e apóia de forma incondicional o Sr. Blankfein. Em nosso texto "Tarde demais...Sr. Buffet" de 21-Jan-2010 já comentamos sobre os erros absurdos cometidos pelo bilionário. Então parece que mais uma vez erra em sua estratégia e não respeita a regra mais básica do mercado: Quando o barco afundar não reze, pule! Ainda nessa semana vários Xeiques árabes manifestaram sua confiança no Goldman, numa situação clara de apoio à quem deu um enorme retorno desde à crise. A pergunta é: será que eles apoiariam se eles é quem fossem enganados? Por isso o senador Carl Levin disse que não confiava em Blankfein. Para não ficar apenas no contexto, a frase surgiu pois o senador disse que como um cliente poderia confiar numa pessoa que vendia um produto que ela própria estava se desfazendo. A resposta "gaguejada" do Sr. Blankefein (vide vídeo completo da bloomberg) é que as pessoas confiavam no Goldman Sachs e nos produtos do Goldman Sachs. E então o senados começou a pedir dados no que Blankfein dizia: " Eu não tenho certeza", "Eu não sei muito sobre esses dados", "Eu acho que" e então o senador disse que não confiava nele.

Uma vez que a confiança foi arranhanda, a cicatriz deixa marcas em seus sentimentos e desconfianças. Mas quando a confiança arranha torre de marfim, essa não deixa cicatriz, deixa a própria marca pois não há consertos para encobrir riscos profundos no marfim.