Sábado, 10 de Março, 2018

 

Trepidações de um grande Crash

-Que vôo é aquele?

-Aquilo é conhecido como vôo prego! Vai se espatifar direto com o morro.

Toda área tem seu jargão, sua comunicação própria, suas denominações quando toda a comunidade conhece o mesmo assunto. Para quem está fora do meio parece outra língua. A conversa acima tivemos certa vez ao assistir um campeonato de vôo livre numa pedra de salto em São Francisco Xavier, interior de SP.

E o coitado descrito na conversa, realmente teve um terrível encontro com a rocha. O tal "vôo prego" fora previsto por um experiente piloto de asa delta ao nosso lado. Ele sabia minutos antes que a manobra não ia dar certo. O mesmo acontece no turbulento mercado financeiro, com diversas nomenclaturas onde 99% da população não conhece.

Uma palavra muito utilizada é a tal volatilidade. O leitor que não se assuste, mas ela vem dessa fórmula à seguir.

Essa fórmula não é nova, nem complicada e tem 250 anos de idade. E está em todas as calculadoras e programada no Excel com diversos nomes tais como Desvpad.P( ), ou DesvPad.A( ), ou só DesvPad( ) e diversas outras nomenclaturas. Qualquer aluno de ensino médio de uma boa escola conhece o desvio padrão. Mas talvez poucos conheçam a palavra "volatilidade".

Essa nomenclatura foi empresatada pelas pessoas do mercado financeiro diretamente da Física, que usa esse termo para mostrar como a variabilidade das partículas é de difícil previsão em laboratórios. E mesmo assim, analistas odeiam os físicos, desfazem dos pesquisadores de física quando estes entram no mercado financeiro.

Mal sabem esses analistas, que mesmo com todo dinheiro, todos os computadores, o conhecimento deles sobre o próprio mercado onde trabalham está mais de um século atrasado em relação a Física.

Já escrevemos aqui sobre a volatilidade ( ver nosso texto "Volatilidade do Mercado" em 2012) quando mostramos com gráficos como se comporta o mercado quando se coloca lado a lado a volatilidade. No crash de 1929 (mostrado na linha vermelha abaixo) a volatilidade (linha azul) oscilava dia após dia em torno de 2%.

Ou seja, a variabilidade dos dados, o desvio padrão dos dados, oscilava entre 2% abaixo da média dos retornos diários e 2% acima da média desses retornos. E então, aparentemente do nada, um estouro na volatilidade (linha azul) nos mostra que o crash apareceu. Na verdade a volatilidade está medindo a consequência de atos no passado e não tem poder de previsão de atos no futuro.

Quando a volatilidade avisa, já é tarde.

Mas mesmo assim, fundos de investimentos, analistas de mercado, economistas da mídia, insistem em ir até a televisão e colocar como se fosse um índice real e importante o VIX (ver nosso texto de 2013 "A mania do VIX"). O índice VIX que sempre está aparecendo nos jornais econômicos, com mais frequência em jornais internacionais, nada mais é do que uma medida da volatilidade, do desvio padrão.

Podemos ver a inutilidade do VIX na crise asiática. Enquanto o S&P500 estava seguindo em direção à crise em 1998 o VIX caiu indicando que a volatilidade tinha diminuído, o que não era verdade. Dias depois tivemos um solavanco mundial com a crise dos títulos da Russia.

 

Mas tudo isso não significa dizer que olhar para a volatilidade não nos ajuda a perceber que existe algo de estranho no reino da diversão sem limites. Só olhando os retornos diários podemos "advinhar" o que vem pela frente. Sempre antes de grandes crahes o mercado "enlouquece", todo mundo fica feliz com possíveis notícias boas e os ganhos ficam oscilando entre extratosféricos e perdas alucinantes.

Essa linha do tempo nos conta tudo, mesmo para os incrédulos analistas de mercado. O leitor poderá observar que todas, não é apenas uma probabibilidade, mas todas as crises são avisadas antes pelo aumento na oscilação dos retornos. E essas grandes oscilações não aparecem anos antes, mas dias.

No gráfico à seguir vemos as oscilações do velho e já surrado índice Dow Jones desde 1929. Escolhemos a escala de logaritmo na base 10 pois ela é mais honesta e coloca todas as oscilações em pé de igualdade.

Isso também serve para mostrar ao leitor que o governo Temer quando fala que essa é a "maior crise histórica", mente para os leigos que não conhecem a volatilidade. Também quem afirma que a crise de 2008 foi pior do que 1929, desconhece o que a volatilidade fez com o mundo real fora dos índices. Enquanto a volatilidade de 1929 calculada em logaritmo ficou entre -6% e +6%, a crise de 2008 ficou entre -2% a +4%.

O que podemos perceber é que, assim como um sismólogo, quando as oscilações começam a aumentar com o cerebelo de investidores tomado pela adrenalina das falsas boas notícias, a crise aparece repentinamente. Prova disso?

Preparamos alguns retornos pré-crises para comparação do que sempre nos espera antes de um crash. O primeiro gráfico, logo a seguir é do Dow Jones antes da segunda-feira negra de 1929. As oscilações vinham normais, ao redor de 2%, quando a partir de 2 de outubro de 1929 elas começaram a aumentar frenéticamente.

 

Ao lado temos o mesmo índice Dow Jones dos EUA, um ano antes do crash de 2008. As oscilações também estavam por volta de 2%, quando a partir de 26 de setembro elas enlouqueceram com altos ganhos se alternando com altas perdas.

Nos dias mais nervosos, quando o crash já estava instalado com a falência do Lehman Brothers, elas ficaram entre -10% a +10%.

Se compararmos aos gráficos da sismologia, que mede os tremores que precedem um terremoto, a semelhança é incrível.

Olhando mais para o perfil "caseiro", nossa Bovespa sempre foi a "maria vai com as outras" como diziam nossos avós.

Enquanto analistas e economistas vão aos jornais dizer que uma crise lá fora não afeta o Brasil porque estamos preparados, é que eles estão até o pescoço comprados com grandes volumes de ações.

Não seriam loucos de colocar tudo a perder com seus clientes e contar a verdade.

Fora das câmeras todos reconhecem os problemas pela frente, nas câmeras são grandes leões seguros de si bradando otimismo.

Antes do crash de 2008 a Bovespa exibia (ao lado) o mesmo padrão do Dow Jones. Oscilações por volta de 2% em nada avisavam sobre a queda que se aproximava.

Mas a partir de 5 de setembro os ganhos e as perdas nos retornos foram avassaladores. Economistas apenas diziam na época que não seríamos afetados.

O próprio presidente Lula dizia que o tsunami financeiro seria apenas uma marola por aqui.

 

 

 

 

 

Mas e agora?

Como estamos nesse ano de 2018?

Ao lado, baixamos os dados desde o início de 2017 até hoje, dia 10 de março de 2018. O retorno diário segue o padrão de comportamento que parece normal.

Estamos com o Ibovespa diário oscilando entre -2% a +2%, exatamente como o que ocorreu em todas as outras crises. Ainda é cedo para perceber o rally dos retornos.

Como visto antes, esse rally e as grandes oscilações vão acontecer dias antes de uma grande queda. Quando o Ibovespa apresentar ganhos de +5% e quedas fortes ao redor de -5%, ou próximo disso, será um aviso que teremos apenas alguns dias antes das quedas.

Como esse é um movimento rápido e confuso, muita indeterminação vai atrasar a saída de investidores de longo prazo.

Muitas firmas sérias que estarão compradas em dolar futuro, ou em commodities, não terão tempo para se desfazer de suas posições.


Muito grande para cair?

Isso não existe. Em 2008 o fundo de investimento do grupo Votorantim investiu em dolar futuro e errou a "perna", foi pego de surpresa e não deu tempo para desfazer posição. Perderam tanto que o fundo foi fechado. Unibanco foi comprado pelo Itaú, mesmo sendo o Unibanco um banco grande na época.

Para esse ano, o fato preocupante é que, como escrevemos antes ("cortinas escuras nos fundos de investimentos") os fundos estão quebrando mundo afora. Estão posicionados em 500 trilhões de dolares, um dinheiro que não existe. Quando as oscilações e trepidações dos retornos se tornarem mais fortes, eles vão querer se expor ainda mais para ganhar, e será nessa hora que vão fazer coisas erradas. Sempre fazem.

Parece exagero? Isso só aconteceu no passado?

Essa semana a Bloomberg revelou que um dos maiores fundos do mundo perdeu, de uma hora para outra, 16%. O PruLev Global Macro Fund deu no ano passado 52% de retorno positivo. Mas com a pequena volatilidade das últimas semanas ele não aguentou e perdeu, mesmo tendo os "mais preparados traders do mundo", segundo notícia.

Esse é mais um fundo de investimento que passa por dificuldades. As notícias são poucas, pouco se fala, obviamente para não causar pavor e temor. Dá para imaginar o que acontecerá no mundo financeiro se 10% dos investidores deixar de usar fundos de investimentos? Os trilhões que foram aplicados de forma irresponsável tem um mentor: FED - Federal Reserve e a política de Ben Bernanke.

Já escrevemos sobre isso em 2011 ("Nova crise jŠ tem dono: Federal Reserve") quando apresentamos os fatos e dados para comprovar com nosso modelo que despejar 600 bilhões de dolares para conter a crise nos EUA era apenas plantar uma crise futura ainda maior. A conta poderá chegar nesse ano.

Como saber?

Acompanhando a volatilidade, talvez saibamos que a onda chegou. Não vai dar tempo para salvar o barco, mas talvez de tempo para salvar quem sabe nadar. Essa nova crise será a crise dos fundos de investimentos, causada pelo vício incontrolável de brincar com a volatilidade como se ela fosse apenas um refrigerante.

Afinal de contas, que viciado consegue suportar uma abstinência sozinho? Mas será que esses fundos querem mesmo abstinência? Já passaram dessa fase e pessoas inocentes vão novamente pagar pela conta do parque de diversões financeiro em breve.