Quinta-feira, 15 de Outubro, 2015

 

A tristeza de uma profissão

Estou sendo pressionado, muito pressionado. Ao discorrer com letras estranhas nesse quadro negro, indo e vindo, de cima para baixo, não vejo muito sentido nisso. Lembro de quando estava embaixo de todos e ansioso para sair e começar logo a mostrar os meus serviços. Parecia empolgante, parecia desafiador, eu sonhava com a hora de ser como os outros. Sair para trabalhar, mostrar o meu serviço, ver a felicidade de quem me tocava.

A medida que subia dentro de minha categoria, de último colocado eu fui vendo cada vez mais a claridade na carreira. Cada vez mais luz discorria na minha vida e dos meus colegas iniciantes. Às vezes a luz se apagava em minha vida, mas não durava muito, e lá estava novamente ela acesa com a esperança de que agora era minha vez.

Foi quando me deparei com antigos colegas voltando. Eles não pareciam mais os mesmos. Estavam bem acabados, esfarrapados e pareciam menores. Muitos tinham metade da alegria que sempre tiveram antes. Muitos perdiam sua vivacidade, perdiam sua alegria, mas no dia seguinte voltavam novamente ao trabalho. Eu logo conclui, que essa volta era uma obrigação. Mas se estavam tão acabados, por que novamente voltavam para o mesmo local de onde vieram? Eu não compreendia isso.

Aqueles que voltavam, praticamente não conversavam mais. Não tinham forças, não tinham vontade de falar como quando eram novos, antes de seu trabalho começar. Por que mudaram? Por que não estavam como antes, felizes, assim como eu, na esperança de fazer um bom trabalho, na esperança de ser retribuido e recompensado por aquilo que fomos preparados?

O que será que existe de tão ruim nessa vida que escolhi? Em minha formação, fui moldado de forma concreta, mas sempre constituído de forma a ser leve, porém sólido naquilo que deveria fazer. A solidificação foi um processo duro, muitas fases, muito preparo, muita química rolou em meu cérebro. E quando observava os outros companheiros, alguns não eram como eu. Muitos não chegaram ao fim do processo.

Nunca soube na verdade para onde esses meus amigos voltaram. Imagino que foi de onde vieram, mas vi muitos sendo tratados como lixo, mesmo tendo eles formação completa. Ouvia nossos formadores dizerem sorrindo para esse pobres coitados: "Esse não vai valer de nada, não serve nem para lixo". Está reprovado no processo, deve ser devolvido.

Sempre achei essa atitude estranha e cruel. Afinal de contas, quanto tempo esse pobre coitado levou para chegar até aqui.

Assim como eu, sofreu prensa de todos os lados, temperaturas altas eram constantes em nossa formação, todo nosso preparo não foi fácil.

Toda essa fase de preparo passava em minha cabeça de forma muito rápida, à medida que eu ascendia na minha carreira. As carreiras acima sempre estiveram longe, mas agora eu via uma luz, e sentia que eu estava quase no topo.

E então, o grande dia chegou. Observava os colegas do lado saindo para o trabalho e excitante, sabia que minha hora tinha chegado. Essa primeira hora, diziam os que já tinham horas de trabalho à fio, era inesquecível.

Me preparei, ajeitando para que quando entrasse em campo eu fizesse o meu melhor. E então chegou minha hora. A sensação era estranha, nunca foi como eu imaginei.

Apesar de discorrer diversas formas, de incansávelmente esperar por aplausos ou um "uauuu", nada se ouvia. Eu observava aquelas pessoas sentadas, e a grande maioria estava olhando para um aparelho pequeno, e não para o que eu fazia.

Eu dava o meu melhor, proporcionava o melhor de minha clareza possível, mas poucos percebiam ou copiavam o que eu fazia. Eu estava cansado, muito cansado, agora entendia por que meus amigos voltavam como um trapo. E o que se via, eram papéis voando em forma de bolinhas pela sala.

Eu estava me rachando, diminuindo muito nas minhas primeiras horas de trabalho e aquelas pessoas nem reparavam no meu trabalho, no meu discorrer, nos meus traços, na minha forma de passar algo.

Depois de não sei quanto tempo, as pessoas se levantaram e se foram, e eu senti o dia perdido. Senti minha formação totalmente desnecessária.

Para que perder tanto tempo? Por que passar por um processo tão doloroso, se a grande maioria nem olhava para o que eu fazia.

Estava arrasado. Olhei para os colegas ao lado, alguns ainda estavam inteiros e com certeza voltariam no dia seguinte a fazer a mesma coisa. Não eu, pensei comigo mesmo. Hoje foi meu fim.

Foi então que apareceu um colega desconhecido. Ele limpava tudo o que eu tinha feito no quadro. Quieto, sóbrio, quase com um ar solitário, tanto quanto eu. Mas ele era mais forte do que eu, e tinha uma formação diferente. Apesar de parecer mais rude, sua pele mais espessa e desgastada pelo tempo, ele era gentil.

Enquanto ele fazia seu serviço, olhou para mim e perguntou:

-Ei meu caro, por que está triste?

-Não, sei. É meu primeiro dia, acho que é meu fim. Não fui preparado para isso. Creio que amanhã não volto.

-Você não pode se abater. Sua vida é curta, mas tem um grande motivo.

-Não vejo motivo, respondi.

-Sim, você é parte da evolução humana.

-Não vejo como. Ninguém olhou para o que fiz, ninguém nem mesmo se empolgou com meu trabalho.

-Você não trabalha para todos. Você trabalha para aqueles que desejam ser os melhores.

-Veja meus amigos, repondi. Estão quebrados, perderam a motivação, estão estraçalhados. Nem mesmo sei se voltarão para esse serviço. E eu nem sei se voltarei para as carreiras dentro da caixa de onde eu vim. Talvez não veja mais luz amanhã.

-Mas olhe para ele.

Foi então que ele apontou para uma pessoa sentada na cadeira. Parecia solitária, e tão acabada quanto eu. Meu amigo então me disse:

-Sua função é escrever aquilo que está na mente dele. Minha função é apagar tudo que tem de errado no que ele pensa. Mas observe que, apesar de cansado, amanhã ele voltará. E voltará para insistir que o conhecimento é como uma vela quando a luz se apaga. O conhecimento não pode ser apagado. O conhecimento não se abate com o desinteresse. Amanhã ele voltará, e talvez não lhe use novamente, pois você será um giz velho, gasto, mas que cumpriu seu papel. E apesar de sua vida curta, você o inspira para continuar vivendo e se fazer entender.

-Ele não parece tão triste quanto eu. Quem é ele?

- O professor.

E continuou o apagador a falar:

-Ao contrário de mim, que sou um apagador velho e sem esperança nenhuma, e de você que é um giz no fim de sua vida, ele espera chegar no fim da vida dele como nós: desgastado, quebrado e sem vivacidade. Mas ele espera ter o prazer de saber que passou tudo o que pode, tudo o que sabia no curto período de tempo que viveu, mesmo sendo ignorado por outros de sua espécie que vão viver o mesmo tempo dele, mas não terão o o que falar para os outros, parte de como ele entende o conhecimento, como ele entende o sentido da vida, como ele vê o mundo.

Professor: Parabéns pelos seu trabalho!

 

 

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