Sexta-feira, 30 de Setembro, 2011

 

Tsunami derrubou o Japão

 

Na quarta-feira, 11 de Março desse ano o Japão parou. Após o terremoto recorde de mais de 9,0 pontos da escala Richter, o tusnami arrasou a região nordeste do país. Para piorar, a usina atômica de Fukushima derretou e contaminou toda água e solo da região, colocando em risco a vida dos moradores. Nesse mesmo dia, contrário do que os analistas na maioria afirmavam, indicamos que o mundo sentiria esse terremoto no bolso. Analistas estavam em todos os programas de mídia afirmando de maneira categórica que o Japão era maior do que a tragédia e que em poucos meses estaria recuperado. Novamente erraram.

Em nosso texto ("Super tremor no Japão vai abalar a economia mundial") comparamos com o tremor de Kobe em 1995, mostrando que o abalo durou mais de um ano para a economia do Japão. Em 1995 o Nikei caiu de 19 mil pontos para 14 mil pontos em seis meses. Mesmo hoje os japoneses tem saudade desses 14 mil pontos, visto que o Nikei não consegue sair dos 10 mil pontos. Ninguém precisa ser profeta de crise, é só olhar a história que consta dos dados e que com estatística básica nos traz informações importantes. Os analistas dos grandes bancos costumam afirmar na imprensa que o mundo mudou...jargão clássico dos despreparados.

O mundo não mudou, apenas se moldou aos novos tempos, novas tecnologias, novas formas de tratamento de saúde, mas as pessoas não mudaram. O pânico gerado por qualquer tragédia é o mesmo desde mais de 2000 anos. No ano 3 D.C Tiburcio levou o império romano à bancarrota, levando os senadores ao pânico quando jogou milhões em moedas de ouro para controlar a inflação no mercado financeiro. Mais de 2000 anos depois os mesmos erros clássicos e inocentes continuam a ser aplicado e a reação das pessoas é a mesma.

Para dizer que o mundo é outro, ou que as pessoas são outras, necessitamos que a genética do ser humano seja alterada. Nosso mundo mudou comparado ao homem sapiens, que apesar de pensar e raciocinar um pouco, matava seu companheiro por disputa de um graveto. As mudanças da evolução levam milhões de anos e mesmo 2 mil anos não nos dão segurança para afirmar classicamente que " o mundo mudou".

Para verificar nossa afirmação de Março, a comprovação está na figura ao lado. No final de 2010 o Japão estava começando a se recuperar, mostrando um crescimento trimestral de 1% no PIB (Em inglês PIB é GDP). Após a data do tsunami o GDP caiu 0,6%, depois 0,9% e no último trimestre desse ano 0,5%. O ano já está acabado para o Japão e tecnicamente em recessão.

Agora que estamos no último trimestre é fácil para Goldman Sachs e Morgan Stanley postar relatórios indicando "perigo" de 40% de recessão mundial. Mesmo Nouriel Roubini que no ano passado afirmava que a chance de recessão nesse ano era baixa, na semana passada mudou de opinião e já está afirmando que o mundo está em recessão.

Não temos a visibilidade de todos essas pessoas e órgãos, mas em Agosto do ano passado já tínhamos avisado que o mundo ia parar (" E a recessão está chegando", "Alerta no sinal de crash. Ibovespa vai virar forte."). E parou.

Isso mostra que ninguém precisa de super sistemas, super computadores, super banco de dados. Todos apenas precisam de associação, conhecimento, estudo e história.

 

Comportamento do PIB japonês em 2011

 

Balança comercial do Japão em 2011

 

 

 

A balança comercial diz tudo sobre o país. Afetado pela crise descomunhal da tragédia, estava muito claro que o país teria que usar sua reserva para reconstrução das cidades e das finanças. A figura ao lado mostra o quanto está negativa a balança comercial depois de Março. O Japão está se desfazendo de suas reservas para aumentar importações e diminuir suas exportações. Mas essas importações não são boas, pois estão importando apenas commodities de alimentos e não commodities mais caras como minério de ferro, aço entre outras.

Essas importações não geram emprego e não geram renda alta para os países que estão exportanto ao Japão. O Japão não precisa importar equipamentos eletrônicos, precisa exportar e aí existe outro problema. O mundo todo compra equipamentos da China que agora é mais barato do que Japão. A consequência do tsunami também já era prevista na política. O primeiro ministro não ia durar muito tempo, incapaz de tomar medidas efetivas, rápidas e práticas. Se fosse em qualquer outro país não civilizado, o pânico teria levado à guerra civil, tamanha demora e indecisão nas ações.

 

Também nós do Brasil estamos sofrendo com o tsunami do Japão. O Japão é um grande comprador do Brasil e ao reduzir o tipo e quantidade de compras, afeta nossa balança comercial e nossa taxa de crescimento do PIB. A figura abaixo mostra o quanto nosso PIB vem caindo trimestre a trimestre.

Crescimento do PIB no Brasil

É verdade que só o tsunami não é culpado por essa queda do PIB brasileiro e a maior parcela se deve ao agravamento da crise da Europa nos dias atuais. É claro também que seria leviano afirmar que o Japão está fazendo o mundo econômico se desfazer, pois o Japão passou a década de 1990 inteira em recessão e mesmo assim o mundo cresceu. Mas vamos parar para pensar em termos de bancos e seguradoras.

Os maiores bancos do mundo e as maiores seguradoras do mundo estão na Europa e EUA. O Japão sempre se prezou por segurar seus cidadãos contra tragédias, contra doenças e sempre forneceu condições de estabilidade econômica a todos os habitantes, sem distinção. O valor dos seguros que o governo japonês paga sempre foi alto e muito bem cobrado pelas seguradoras. Uma seguradora ligada à banco sempre coloca em suas contas de risco a chance de uma grande tragédia acontecer para colocar o prêmio de risco. E aí mora o problema, pois sempre usam a distribuição de probabilidade normal que possui cauda fina para tragédias. Já comentamos isso em "O cisne negro do mercado: A teoria do altamente improvável" onde as seguradoras subestimam suas perdas. E quando elas acontecem, as seguradoras se vêem em desespero, pois estão despreparadas.

O que os analistas de risco supõe e usam é mais fácil, rápido e não precisam pensar. Basta sentar na frente da planilha Excel, clicar em dois ou três botões e calcular quanto vão cobrar de seguro de um país. Mas o fácil e rápido sai muito caro a ponto de quebrar a seguradora. É o que está acontecendo na Europa, onde já estava debilitada com os países endividados como Grécia e Islândia. Os bancos particulares estavam bem, mas depois do tsunami tiveram que repor os valores ao governo japonês, para reconstruir o país. E esse efeito dominó começou, das seguradoras para os bancos privados e desses para os governos da Europa. Como esses já estavam com problemas com os títulos dos países periféricos como Grécia, Portugal e Espanha, a situação só piorou quando o governo japonês resolveu resgatar seus seguros.

Isso aconteceu da mesma maneira em 1926 quando um furacão destruiu a Flórida e as empresas de seguros precisaram repor os valores para os segurados. Para se recompor as seguradoras recorreram ao mercado de ações do Dow Jones, inflando a bolha dos preços das ações. Três anos depois, tudo ruiu. Outra época foi em 1906 quando um grande terremoto acabou com San Francisco na Califórnia. Quase 90% da cidade foi destruída e quase levou as seguradoras dos EUA à falência. Para não quebrar recorreram aos bancos que começaram a atuar no Dow Jones e então ocorreu a crise bancária de 1907 levando o município de New York à falência (" 1907: o ano que New York faliu").

E agora? Estamos onde estamos, debaixo de toda água barrenta do mundo econômico, despreparado por utilizar regras frágeis de conduta e empréstimos para governos de países despreparados como a Grécia. A tragédia do Japão é irreparável para as famílias que perderam seus entes queridos e não há preço ou valor que se pague à uma vida. E a tragédia está lentamente colaborando para o pagamento da conta do super seguro por todos nós.