Sexta-feira, 24 de Junho, 2011

 

A flor da crise

 

No ano de 1593, a cidade de Constantinopla (hoje Istambul) na Turquia tinha um comércio exuberante e atraía para si os mercantes europeus. A Europa, envolvida em guerras por anos sem fim, tinha se atrasado tanto em comércio quanto em desenvolvimento cientifico, industrial e cultural. Pouco antes de 1500, com a necessidade de avançar mar a fora, Portugal e Espanha puxaram os europeus para fora de seus casulos. Ao ver a exuberância do mundo novo e de outros mundos, os europeus começaram a caçar novas formas de fazer dinheiro.

Em 1593, um botânico holandês Carolus Clusius se encantou pela flor de nome Tulipa e a levou para a Holanda para suas pesquisas. Ele se recusou a dar a flor de presente a qualquer outra pessoa, e guardou a sete chaves sua descoberta oriental. Mas não adiantou. A tulipa ( ou partes de tulipas ) foram roubadas e plantadas pela Holanda à fora. Por sua beleza exuberante não demorou para que todos se encantassem por seus traços não lineares, disformes e estonteantemente coloridos.

Com as primeiras plantações, os jardins das cortes começaram a se colorir de tulipas, o que rapidamente chegou à França. Como era bela e rara, a tulipa virou símbolo de agrado e romantismo. A flor encontrou o ambiente ideal para seu desenvolvimento e plantações pequenas para suprir a demanda dos reinos começaram a proliferar na Holanda do século XVII. Mas nem todas as tulipas tinham os traços especiais e diferenciados. Logo se percebeu que os traços aleatórios e não homogêneos era algo raro e incomum, o que fez essas flores em especial muito mais caras que as tulipas normais.

Ao invés de comprar a flor tulipa, comerciantes e agricultores começaram a buscar o bulbo da planta rara, pois esse dava uma pequena garantia (nem sempre) que as flores que nascessem dele seriam belas e raras. E o bulbo da tulipa virou uma commodity e seu investimento tornou-se um índice futuro. Como ninguém sabia se realmente a flor seria rara, o investimento nos preços do bulbo futuro tornaram-se investimentos com altos preços e altos riscos. Sim, altos riscos pois o bulbo poderia fornecer flores lindas, mas também flores normais sem os traços de raridade. O bulbo é na verdade um depósito de sementes, que uma vez germinada carrega material genético parecido da flor original. Parecido mas não igual, o que pode fazer plantas originadas de flores raras serem apenas flores simples.

Bulbos de tulipas

Nos anos 1600 a Holanda libertou-se de ser colônia espanhola dentro da Europa e viveu um período conturbado de guerras contra a coroa da Espanha. Com um acordo com a Inglaterra, a Holanda garantiu segurança por mar contra as investidas espanholas em sua costa. E com outro acordo com a França se fortificou e lutou com a chamada Holanda Oriental (hoje Bélgica) para manter sua independência. Envolvida na "guerra dos 30 anos " na Europa, o exército holandês contava a cada ano com a renovação de mais de 100 mil soldados, isso por volta de 1618. A população total da Holanda não passava de 1,5 milhões de habitantes na época. Muita gente perdeu a vida nas baionetas, mas em 1648 a Holanda estava independente.

Os holandeses se tornaram os grandes comerciantes da Europa criando as Companhias das Indias Orientais e Indias Ocidentais. A Companhia das Indias Orientais era grande e com magníficos lucros, pagando dividendos valorosos aos seus investidores. Já a Companhia das Indias Ocidentais era mais política e dominativa, marcando território ao ocupar o Brasil e se estabelecer em Pernambuco. Havia um controle sólido no recém-criado mercado financeiro holandês, não sendo permitido comprar futuro à descoberto, multas por contratos não cumpridos, entre outras novidades para a época.

 

Sede da antiga Companhia das Indias Orientais em Amsterdam - Holanda

Mas então depois do estresse das guerras européias, chegou a peste bubônica ou peste negra. Uma doença pulmonar altamente contagiosa que é transmitida ao homem pelas pulgas de ratos. A epidemia foi tão terrível que 1/3 da população de toda Europa foi dizimada, onde os vivos eram muito felizes por viver um dia após o outro, sem expectativa futura. A peste era antiga (começou em 1348), mas nos anos de 1650 atingiu em cheio a população holandesa. E foi por isso que a primeira grande "bolha" econômica da era moderna aconteceu.

As tulipas mais raras tinham seus bulbos comprados na época de ouro de 1636 por 5.500 guilders ou US$33.000,00 ou cerca de R$53.000,00. Mas isso era apenas o bulbo que veio de uma raridade. Os bulbos comuns tinham seu preço controlado pelo mercado e custavam não mais que 3 guilders.

Como pôde um mercado tão eficiente deixar uma bolha acabar de maneira tão trágica? Conta-se que castelos foram vendidos para comprar bulbos. E de um dia para outro, eles não valiam nada! A verdade é que nada disso aconteceu. Sim, isso tudo foi lenda e começou com um escritor de panfletos holandeses chamado Mackay. Num dos contos, ele comparou o que um bulbo raro poderia comprar e o que deveria ser vendido para comprar raridades de tulipas. E isso virou algo como se o negócio fosse realizado.

Não há registro algum nos relatórios comerciais holandeses de nenhum negócio envolvendo castelos em troca de bulbos. Mais uma vez, um simples conto e estória se transforma em verdade no mercado. Desde 1980 pesquisadores muito sérios estiveram debruçados sobre os autos do mercado holandês entre 1634-1637 e nada, absolutamente nada existe sobre negócios realizados desse porte.

Realmente os preços eram altos, mas assim que atingiram seu patamar de pico histórico os negócios entraram em escassez e nenhum bulbo raro foi negociado a preço de ouro no ano de 1637 como afirma a tal lenda.

Houve sim, uma recessão no mercado futuro de tulipas mas por outra causa, e não por causa dos bulbos raros. Com a depressão, desemprego e chance de morte rápida devido à peste bubônica, as pessoas se encontravam para beber nas tavernas todos os dias.

Preço de uma tulipa rara de 1622 a 1637 (guilders)

Então, com a ganância de se enriquecer logo pois a vida ia ser curta, decidiram criar negócios paralelos controlados não pelo mercado formal do governo holandês, mas por um grupo conhecido como "colleges" que ficavam nas tavernas. Eles convenciam as pessoas comuns a plantar bulbos das tulipas e aumentavam a história das flores raras e de seus preços. A partir do ano de 1634 a febre de plantações de tulipas por pessoas inexperientes aumentou e os negócios com as plantas não raras proliferou com os preços fechados dentro das tavernas.

Acontece que as tulipas raras, são assim chamadas pois um virus mosaico ataca sua carga genética criando os lindos traços da flor. Mas após algumas gerações, com essa repetição de plantação, a raridade vira algo comum e uma flor que era difícil de ser encontrada se torna barata e fácil de comprar. Tendo em vista que contratos futuros talvez não pudessem serem cumpridos, em 1636 estabeleceu-se no mercado paralelo uma regra que contratos não cumpridos poderiam ser rompidos com o pagamento de apenas 10% do valor contratado. Como as pessoas estavam endividadas pelos empréstimos feitos para as plantações, começaram a se apavorar e vender oscontratos futuros de bulbos o mais rápido possível para garantir pelo menos o empréstimo a ser pago. O resultado foi que em fevereiro de 1637 os preços dos bulbos comuns no mercado valiam apenas 10% dos normalmente praticados. O gráfico a seguir mostra o que aconteceu com o preço de uma modalidade de tulipa do dia 5 de Fevereiro de 1637 para o dia 6 de Fevereiro do mesmo ano. De 0,18 guilders caiu para 0,10 guilders (80% de queda em um único dia).

O colapso para o pobre negociante que frequentava as tavernas e pertencia ao mercado paralelo veio em 27 de Abril de 1637, quando o governo holandês decidiu suspender todos os contratos futuros que se relacionavam com os bulbos. Ele deu ao vendedor o direito de vender os bulbos pelos preços de mercado. E então os preços desabaram para zero, pois sobrou bulbo no mercado. Um bulbo que custava 1668 guilders em 1637, cinco anos depois valia apenas 37 guilders.

E então castelos foram perdidos? Não e essa é a lenda que vem sendo desfeita. Realmente ocorreu uma perda por parte do mercado paralelo, onde o comerciante e plantador inexperiente perdeu e se endividou. Mas o que causou a recessão foi um fenômeno não responsável pelos bulbos raros, mas pela conjuntura das guerras, epidemia bubônica e desemprego em grande escala do pós-guerra. Os preços dos bulbos raros ainda continuaram muito altos por anos depois de 1637 e só começaram a cair muito depois.

É que com a repetição da plantação do bulbo com tulipa rara, a raridade começou a desaparecer para virar planta comum no mercado. Os preços dos bulbos raros só despencaram por causa da genética e não por conta de uma quebra de bolha. Segundo novos estudos, não houve bolha nenhuma no preço das tulipas, apenas uma corrente financeira mal estruturada que afundou as pessoas comuns que já estavam no poço. Foi o mesmo que ocorreu com os títulos chamados subprime e o caso do Lehman Brothers. Imagine o Lehman como taverna e os subprimes como bulbos de tulipas.

Estórias que reis e rainhas perderam castelo pelas tulipas estão desmistificadas e não existiram. Mais uma vez, os pobres e aqueles que entraram tarde na corrente das tulipas é que perderam. Os plantadores e comerciantes especialistas continuaram a lucrar com outras espécies de bulbos de tulipas raras. Assim como no caso do Lehman e dos títulos podres, quem começou e saiu antes da quebra ganhou muito. Quem entrou depois de formada a corrente é que perdeu e se endividou. Tanto esses bulbos não são mais raros que podem ser obtidos por técnicas modernas e manipulações genéticas de uma safra para outra na atual Holanda. Ou seja, o preço nos dias de hoje dessas plantas raras é o mesmo de uma planta sem os traços dos virus mosaico.

Essa desmestificação da bolha da tulipamania pode ser encontrada num fantástico livro que fez um estudo preciso das tabelas de preços das tulipas de 1634-1637. O livro Famous First Bubbles (Famosas Primeiras Bolhas ) de Peter M. Graber é uma fantástica viagem pela histórica dos negócios que causaram bolhas. O livro prova que as novelas criadas sobre manias e bolhas foram mais fontes de rendimentos de escritores da idade média do que de fato pânicos como descritos. É uma leitura prazerosa e que faz justiça à uma flor tão bela que levou uma desnecessária culpa econômica por séculos. Não houve bolha econômica das tulipas e sim corrente e mania gerada dentro de tavernas. O episódio no entanto foi marcado como a primeira invenção perigosa para ludibriar leigos.

A história está aí para nos ensinar que ninguém ganha dinheiro fácil e rápido sem sofrer uma tragédia logo em seguida. Devemos sempre desconfiar das estórias de riquezas rápidas ou pagaremos o preço do virus mosaico. Acabaremos mortos por um encantamento viral.

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