Quinta-feira, 1 de Fevereiro, 2018

 

A próxima turbulência financeira

Nenhum terremoto forte acontece sem aviso. Os tremores de terra vão começando bem devagar, bem lentamente, por volta de 2 a 4 na escala Richter e muitas vezes tem-se uma enorme "pausa" com pequenos tremores de 2 pontos. E então, de repente, um tremor de 7 ou 8 pontos acontece.

Isso ocorre, segundo os sismólogos especialistas nesse assunto, por que as placas tectônicas estão "dançando" em cima do magma quente no interior da Terra. Ao estarem uma ao lado da outra, existe a fricção entre as mesmas. Elas ficam o tempo todo se tensionando, em oscilações que começam com períodos longos e baixa energia.

Com o acúmulo de energia e com o aumento dessa fricção as placas chegam ao momento máximo de tensão, de tal forma que quando elas tentam passar umas sobre as outras, um desprendimento enorme entre elas ocorre, causando muitos metros acima na superfície os abalos mais destrutivos.

O Japão está inteiro em cima da divisão entre essas placas e todos os dias existem terremotos sobre o solo. O último mais intenso provocou o tsunami destruidor de Fukushima em 2011. Apesar do terremoto ser no oceano, longe do solo japonês, deslocou uma parede de água monumental que caminhou por kilometros, ganhando cada vez mais energia com o aumento na frequência e volume das ondas.

O resultado foi uma destruição completa na cidade, que se achava preparada para os tsunamis, com muros de contensão, com alertas monitorados por sistemas eletrônicos, com grandes sismógrafos espalhados e com atenção especial do governo. Mas nada disso impediu o desastre que se viu, nada segurou a natureza de um desastre que partiu de um terremoto sem pretensões alarmantes.

No mercado financeiro acontece o mesmo fenômeno. As bolsas ao redor do globo vão lentamente ganhando energia e acumulando tensão com notícias e aportes monumentais de dinheiro. Entenda energia nesse caso como "muito dinheiro".

Bancos se dizem preparados para qualquer crise, se dizem seguros, fortes, com os melhores analistas da área. Mas quando um grande crash ocorre, o desespero se bate desde o dono do banco até o mais "preparado" analista. Toda a arrogância se vai em questão de uma semana, com olhares assustados e ao fim, a demissão em massa dos yuppies que não sabem o que vão fazer da vida.

É sempre assim após um grande crash financeiro.

Didier Sornette trabalhava com sismologia e era um conceituado professor na França e nos EUA na área de turbulência. Ele criou métodos bastante interessantes para os foguetes Ariane na França. Seus modelos conseguiam prever os riscos de uma turbulência durante o lançamento dos foguetes. Uma turbulência no lançamento é tudo o que um diretor de vôo não quer. Se isso ocorre, perde-se totalmente o controle da aeronave e milhões de dolares viram pó.

Nos EUA Sornette trouxe para o mercado financeiro a ideia de turbulência e aplicou primeiro em terremotos para o sistema de alerta na Califórnia e depois para o mercado financeiro. Ele usou em todas as bolsas do mundo, tentando prever crashes financeiros como as turbulências do Ariane. Seu livro "Why Stock Markets Crash" se tornou best seller ao divulgar sua técnica e o modelo conhecido como log-periódico.

Não somente no livro, mas em seus artigos, Sornette procura o entendimento dos mercados através de sua técnica e ajuste da equação, criando cenários para as previsões sobre as possíveis turbulências financeiras. Sua equação necessita de ajustes de diversos parâmetros, incluindo as oscilações de cosseno e logaritmos para o melhor acurácia com os dados.

O pior parâmetro a se ajustar é o que ele chama de "tempo de crash". Não é um parâmetro que se possa medir com certeza estatística, pois somente saberemos qual seria o dia de queda, após a queda. A equação e alguns resultados estão na figura a seguir.

Além desses problemas existem outros, tais como divergência dos métodos para estimar parâmetros, difícil acuárica de imediato nos parâmetros e cenários que ficam melhores apenas quando estamos começando a chegar próximo ao grande crash em "tc" (tempo de crash).

Nesse último mês um rally fora do comum atingiu todas as bolsas do mundo, inclusive a Bovespa.

Observando pelo nosso método (IMA - índice de mudanças abruptas) já escrevemos desde o ano passado para a grande possibilidade de um forte crash. A "energia" acumulada nas bolsas ao redor do mundo, tornou todos os índices muito próximos do modelo log-periódico de Sornette.

As oscilações começaram lentas, com algumas fortes quedas, mas se recuperaram em alguns meses.

Então as notícias foram mudando, primeiro nos EUA, depois no Japão, depois na China e agora chega ao mundo financeiro emergente.

Por falta de opção, uma vez que todas as bolsas já se alavancaram, grandes fundos e mesmo os fundos abutres chegaram a Bovespa.

Resolvemos então aplicar o modelo log-periódico de Didier Sornette para verificar o que ele poderia nos contar sobre um possível crash na Bovespa.

O ajuste dos parâmetros nos levou a seguinte solução ao lado. A linha central vermelha é o resultado do modelo, a linha azul os dados reais do Ibovespa desde 5 anos atrás até hoje com o Ibovespa diário, o índice de fechamento.

A linha preta no lado direito do gráfico é a previsão do modelo log-periódico.

 

 

Confissão de heresia por parte de Galileo para minimizar a pena

 

Ao lado colocamos a parte final aumentada em destaque para melhor discussão do resultado.

Observamos que a linha azul dos dados reais do Ibovespa se aproximou da linha vermelha tracejada, que significa a banda de um desvio padrão.

O modelo simulado, numericamente nos conta que depois dessa recente alta, teremos uma forte baixa por alguns dias.

A primeira baixa no Ibovespa diário, segundo o modelo, será de algo por volta de 10,4%.

Então começará uma nova fase de alta expressiva no Ibovespa. Será algo entre pequenas baixas e altas mais expressivas, por volta de 22% de alta.

E por fim, uma queda bem acentuada acontecerá com percentual por volta de 15%.

Então, se o modelo se comportar bem com os dados reais, primeiro a partir dos próximos dias teremos uma queda de 10%, depois uma fase de alta de 22% e então uma queda novamente de 15%.


Mas o modelo de Sornette não cria esses cenários para prever o movimento da bolsa. A ideia do modelo é tentar entender os fatos para chegar ao tão esperado dia de crash "tc". Por exemplo, se continuarmos a simular o modelo para mais alguns dias à frente, teremos um gráfico nervoso como esse a seguir.

Novamente, a linha azul são os dados reais do Ibovespa diário. Ninguém em sã consciência deve acreditar que o Ibovespa irá oscilar dessa forma, nessa intensidade e amplitude. Nenhuma bolsa do mundo faz isso em tão curto período de tempo. O que esse resultado nos diz é que um período de extrema turbulência irá acontecer em breve. O valor quantitativo do cenário não importa, é o valor qualitativo que importa.

Sendo é o eixo do tempo aquele que nos informa o período de volatilidade intensa, é esse dado que interessa.

Essa turbulência acontece no modelo, pois a medida que as novas ondas vão ficando mais próximas uma das outras, o tempo de crash começa a se formar. O modelo oscila dessa forma, pois o modelo tem uma divisão com o termo (tc-t), ou seja, tempo de hoje subtraído de quanto tempo ocorrerá o crash, no tempo "tc".

Então, se acreditarmos que o ajuste dos parâmetros é bom para um conjunto de dados, para o Ibovespa teremos um período de sérias e perigosas turbulências daqui a 183 dias úteis!

Isso porque o modelo de Sornette convergiu para esse período de turbulência 183 dias a partir da data de hoje. Ou seja, contando-se os dias úteis a partir de 1 de fevereiro de 2018, teremos 183 dias úteis em 19 de outubro de 2018. Coincidência, ou não, é a época das eleições aqui no Brasil.

Sempre existirá oportunidades para se ganhar com essas oscilações. O que as gerações de investidores ainda não perceberam é que essas fortes oscilações para baixo e para cima desestabilizam o movimento normal das bolsas. Sem referência, grandes investidores acabam fazendo apostas erradas. E quando eles erram, são grandes demais para quebrar. E para não quebrar, voltam a jogar contra os governos e contra os pequenos investidores, que são seus clientes.

Como vencer a turbulência? Fazendo como os pilotos fazem. Pedem ajuda aos controladores de vôo e desviam de grandes nuvens de tempestade através do radar. Para esses problemas, em termos similares do mercado, existem as agências, existem as corretoras e seus analistas.

Mas tem uma turbulência que ninguém evita e não tem como evitar. É chamado de windshear, ou vento que se forma na cabeceira das pistas dos aeroportos. Se um windshear aparece, a chance de queda é enorme. Muitos sérios acidentes aconteceram no mundo com windshear.

O mesmo ocorre no mercado financeiro. Grandes investidores e fundos mexem tanto com as notícias que criam os windshear. E com o windshear financeiro, pode ser investidor "teco-teco" ou "jumbo", a queda é a mesma e a tragédia também. Não sobra ninguém. É só lembrar do crash de 1929, ainda não superado por nenhum outro, nem mesmo o mais recente de 2008.

As formações para as turbulências já foram criadas no Brasil. Agora é só esperar o tempo de crash "tc".