O motor que faz o mundo girar
“Não precisamos inventar mais nada, tudo que tínhamos que saber, já sabemos. Esse novo século será apenas para pequenas correções”. Essa foi a frase que o físico Marx Planck ouviu aos 16 anos de seu professor quando disse que queria cursar física, em 1899. Tamanha arrogância e desprezo fora motivada pela revolução industrial, onde homens e mulheres eram forçados a trabalharem sem descanso 20 horas por dia em favor do progresso. Em 1936, Charles Chaplin reproduziu esse sacrifício das pessoas no filme “tempos modernos”, um clássico do cinema. Sua crítica era sobre a força motriz humana e sua possível substituição pelas máquinas que estavam sendo inventadas. Da mesma forma nas finanças, muito se ouve que a saída da crise financeira dependerá da China e dos emergentes, que estariam substituindo os EUA. Outros dizem que enquanto a China se expandir o mundo estará em plena recuperação e o perigo de nova crise estará menor.
É verdade que a circulação do dinheiro mundial com a expansão da China fez a crise se atenuar, assim como não se pode desprezar a movimentação financeira em torno dos países emergentes como o Brasil. Também é verdade que os chineses estão com enorme poder de compra e se estabeleceram no mundo como uma potência com grande poder de negociação. Mas tudo isso não tem valor diante de um nome: Dow Jones. Se os chineses estão mais poderosos, o nome da bolsa que move o mundo é Dow Jones e não Hang Seng, nem Shangai Composite. Investir na China ainda é incerto devido a muralha conceitual existente no país, que proíbe investimento largo e farto como no Brasil. O dinheiro vai a China, mas os donos desse dinheiro ainda são de Wall Street.
Para mostrar que isso não é “achismo”, nem comentário ao esmo, podemos observar os dados entre Dow Jones e Hang Seng (índice que mede as ações de Hong Kong). O gráfico entre os dois mostra um zig-zag que visualmente pareceria similar. O quanto esse zig-zag é similar entre as duas bolsas deve ser medido pela estatística. A ferramenta de correlação é que fornece a ligação entre as duas bolsas. Quanto mais próximo de 1 ou de -1 mais podemos inferir que a relação entre as duas segue uma reta, conhecida como reta de regressão linear. Se esse coeficiente for cada vez mais próximo de 1, cada mudança em uma bolsa implicará “linearmente” em mudança correspondente na outra com o mesmo poder de impacto. Pode-se observar no gráfico das duas que enquanto a bolsa americana começava a perder o poder de avanço a bolsa chinesa ainda estava com bastante fôlego. Quando o Dow Jones pisou no freio, a bolsa de Hong Kong começou a desabar. Isso porque os grandes investidores de Wall Street saíram da China e voltaram para o Ocidente. O coeficiente de correlação entre as duas bolsas é de 0,77 quando se toma dados pareados desde Outubro de 2006.
Outro coeficiente importante é R2 também mencionado como “r-dois” que mede o quanto os dados reais se ajustam à reta de regressão linear. No caso desses dados r-dois é de 0,602 indicando um bom poder de explicação da relação entre as duas bolsas através de uma reta. Isso é importante para mostrar que sem o conhecimento entre esses dois índices não se pode afirmar e muito menos fazer projeções usando retas. Apesar de ainda assim ser pobre essa reta para prever algo, qualitativamente ela se torna importante para medir a relação entre Dow Jones e Hang Seng.
Assim, se torna interessante fazer uma “manobra” econométrica e transformar os dados pareados das duas bolsas em logaritmo neperiano ou LN. Quando se faz isso, a reta se torna um modelo matemático conhecido como log-log. É muito interessante fazer isso e os economistas adoram esse tipo de transformação pois uma equação do tipo ln(y)=a+b.ln(x) indica que quando x se altera de 1%, a variável dependente y se altera de b%. Logo, qualitativamente, em média, pode-se medir a relação entre x e y, ou no caso, entre Dow e Hang Seng.
Se tomarmos dados começando desde Outubro de 2006 a relação entre as duas bolsas mostra que para cada 1% de mudança no Dow Jones diário, o índice Chinês altera 0,88%. Se invertermos e colocarmos a China como bolsa mais importante a equação nos diz que para cada 1% de mudança no Hang Seng, Dow Jones muda apenas 0,72%. Logo, uma mudança de 1% é muito mais importante quando vem do Dow Jones.
Porém, vamos considerar o ano quando a China se tornou a vedete do mundo e o Hang Seng atingiu o seu máximo valor em 33 mil pontos. Com os dados começando em Dezembro de 2007, para cada 1% de aumento no Dow Jones, o Hang Seng aumentava 1,15%. Colocando a história ao inverso, se Hang Seng mudasse 1% o índice americano se altera apenas 0,7%.
Por fim, se tomarmos dados apenas de Janeiro de 2009 até os dias atuais (Janeiro de 2010), para cada 1% de aumento no Dow Jones, o aumento no Hang Seng chega em média a 1,5%, ou seja, para cada 1% de velocidade de mudança em Wall Street, a China se altera 50% a mais! O gráfico ao lado mostra como a reta explica bem nesse caso a relação entre as duas bolsas. A linha tracejada mostra com confiança de 95% os limites esperados para os dados reais em torno da reta do modelo linear (log-log).
Assim sendo, fica claro que ainda os EUA são e serão nos próximos anos o motor (ou a falta dele) no girar do mundo. Qualquer deslize em relatórios, ou em políticas públicas do presidente Obama, por menor que seja, levarão o mundo novamente à continuidade da crise. Qualquer pequena porcentagem de alteração nos EUA leva a China a balançar, e se ela balançar o mundo todo balança junto com ou sem marolas.



Sábado, 9 de Janeiro, 2010