Sexta-feira, 19 de Agosto, 2011

 

O último ato de Nero

Os tempos mudam? Não, apenas os personagens mudam, a tecnologia muda, mas o ser humano tem em suas raízes as mesmas ambições de sua origem pré-histórica. Ao longo dos anos e séculos, o cérebro humano foi evoluindo e crescendo até nossa atual forma. No entanto a evolução do cérebro não descarta o que foi usado no passado, apenas são acrescentadas camadas em cima das camadas antigas. Claro que não são camadas como de cebolas, mas camadas de funções, escondidas atrás das bilhões de ligações das sinapses. Ligações antigas são apenas "adormecidas", mas podem se aflorar com algum tipo de perturbação física ou mental. Às vezes um ato de fúria ocorre em pessoas que sempre foram calmas, tranquilas e vistas pela sociedade como exemplo a ser seguida. Algum evento dispara ligações antigas da época em que o homem era um mero animal de caça, matando qualquer coisa para se alimentar.

A história de Roma ainda nos deixa perplexos sobre a crueldade do exército de Caesar passando sobre tudo e sobre todos para conquistar terras. O que Caesar tinha em mente era uma commodity, ou seja, terras, ouro e prata para investimentos futuros. O que Roma estava fazendo sem ter consciência era, na visão moderna, apostar em índices futuros. Ao conquistar novas terras, Caesar projetava em suas batalhas quanto o império se enriqueceria no futuro, contando as novas quantidades de ouro, impostos, escravos que trariam caixa para suas ambições. Na verdade Caesar entrava no mercado futuro com contratos na posição "vendido", ou seja, sempre esperando a desgraça dos outros para seu sucesso como imperador de Roma.

O que Caesar fez de errado foi confiar em pessoas erradas, matando muitas vezes generais que lhe eram fiéis com medo desses roubarem o poder. Após a morte de Caesar o império romano começou a declinar com mais e mais imperadores fracos e despreparados até encontrar em Nero a loucura suprema. Em seu ato mais célebre, Nero ordenou incendiar seu próprio império, incendiando prédios e matando senadores opositores. E Roma acabou. Mas a história não, apenas os personagens mudaram e a forma de atuar mudou, mas a história sempre se repete.

Na versão contemporânea, o país sempre chamado de império foi os EUA, que tem o poder de imprimir moeda comercializada no mundo inteiro, mesmo sem lastro. O imperador no caso não é o presidente dos EUA, mas o presidente do Federal Reserve (Banco Central americano). Enquanto um presidente dos EUA fica no máximo 8 anos, o presidente do FED pode ficar mais de 20 anos, como Alan Greenspan. Logo, o presidente do FED suplanta qualquer presidente americano.

Pode parecer exagero, mas por analogia imagine o presidente do FED como Caesar. Em sua carreira os senadores lhe tratavam com reverência, o mercado o idolatrava e Alan Greenspan indicava ao mercado se deveria subir ou cair. Com sua pasta de couro surrada, os analistas e repórters tentavam advinhar se os juros subiriam ou cairiam apenas pelo "recheio" da pasta. Pasta cheia era sinal de juros subir, pois Greenspan ia revelar dados e mais dados de sua reunião. Pasta vazia talvez os juros ficassem como estavam. E o Caesar moderno terminou seu mandato como herói, quando na verdade conquistou mercados e mais mercados assim como o Caesar antigo conquistou terras e ouro. A guerra foi financeira e ao invés de terras, ganhou mercados.

Colapso do preço da prata no império romano

E no lugar do Caesar antigo, o novo imperador se tornou Nero em sua primeira guerra a ser enfrentada. Ben Bernanke jogou a gasolina que o mercado adora, jogou liquidez no mercado, muito dinheiro e não teve "papas" na língua para dizer que os EUA é o "dono do dólar" e pode emitir quanto quiser em papel moeda.

Apesar do Nero moderno ter estudado a crise histórica de 1929, ele concluiu certo mas aplicou o conceito errado. Realmente em 1929 o governo demorou para agir e os créditos cessaram. Mas o que fez a crise terminar não foi liquidez, foi dinheiro aplicado em geração de empregos através de construções, caça a bancos fracos e especuladores, transações altamente controladas pelo governo e austeridade.

Se for observado o semblante de Ben Bernanke, pode-se reparar o olhar de alguém que sabe que sua teoria do quantitative easing fracassou. E fracassou no seu primeiro objetivo: não gerou empregos. E não vai gerar empregos, pois o mercado financeiro não gera empregos para evitar recessão. O mercado financeiro circula dinheiro e se a política de circulação for obrigada a ser canalizada para construções e negociações reais a recessão termina, caso contrário, não.

É impressionante que nessa semana, analistas e consultores em suas entrevistas recomendam como solução que o FED volte com um quantitative easing 3, 4, 5, ...etc. Nessa semana teve consultor dizendo que a solução era o FED colocar a impressora para funcionar! É claro que esse consultor quer cliente, quer apostar em contratos futuros, quer convencer a população que tudo vai ficar bem se mais dinheiro sem lastro for colocado a disposição dos especuladores. Esses consultores ganham para falar alguma coisa para o cliente. E esses mesmos consultores ainda recomendam que todos comprem ações, pois estão baratas.

Estamos criticando o FED e esse tipo de análise de "araque" não gratuitamente (veja "O diabo se esconde atrás dos dados...dos fundos de investimento"). Como já mencionamos no texto "Nova crise já tem dono: FED" publicamos artigo científico com dados do Banco Mundial mostrando como funciona o risco sistêmico em nosso modelo matemático. Mostramos no artigo internacional publicado pela Elsevier que quando existe uma entrada excessiva externa ao sistema de bolsas de valores ocorre uma perturbação de tal tamanho que no princípio elas sobem. Mas passado um tempo a queda é muito maior do que essas entradas de capital sem lastro. Por isso insistimos que Ben Bernanke está agindo como o Nero moderno na figura do mercado. Ele e todo o corpo de analistas e consultores que o apóiam estão falindo o sistema financeiro.

O governo brasileiro tem que parar com o discurso de que vamos superar a crise. Em vez de discurso deveria participar do encontro do G7, convocar o G-20 e influenciar para mudanças de verdade no sistema financeiro mundial. Uma empresa que aplica seu capital em contratos futuros de arroz, feijão, algodão, para se proteger pois ela é do ramo, dá para entender. Outra empresa do ramo de minério que aplica em contratos futuros de minérios, também dá para aceitar pois as empresas não podem ficar com fluxo de caixa em oscilação. O mercado futuro foi elaborado com esse intuito. Angela Merkel até tentou segurar sozinha a farra de transações com vendas rápidas e conseguiu segurar a grande queda do Euro em Maio de 2010 (" A nova dama de ferro"). Mas como ficou isolada o sistema achou outros meios de operar com o Euro.

Só para recordar, o que estamos dizendo e insistindo já foi dito por uma autoridade máxima da Alemanha em Outubro de 2010. Veja o que Rainer Bruederle ("O tolo e o sábio do mercado mundial") disse após a reunião do G-20: "É um erro tentar previnir ou resolver problemas adicionando liquidez". Não é nossa essa frase, é do ministro da economia da Alemanha!

Mas o que um rapaz de 20 anos, sentado em seu computador, operando em terminal de alta-frequência acha importante se o preço do contrato mudou de 1 micro-segundo para outro? O clima foi alterado entre 1 micro-segundo e outro para o preço do feijão despencar? Alguma enchente ocorreu inesperadamente em 1 micro-segundo e depois cessou para o preço do algodão disparar? Quem opera hoje em mini-contrato futuros nunca nem esteve em lavoura para manipular bilhões de dólares em futuro.

Muita, mas muita gente diz olhando para o alto: " ... ah contrato futuro é o "canal", isso sim é legal, entrar como vendido é sensacional...". Esquece que quando aposta sem saber o que está apostando, vai pagar caro no futuro. Os banqueiros do G7 sabem disso, Ben Bernanke sabe disso, o BC do Brasil sabe disso, mas quem tem coragem para alterar as regras? Onde está a tão falada "ética" do mercado? Quantos não ganharam com informação privilegiada em diversas ocasiões no Brasil com as investigações dando em nada. Os responsáveis não gostam ou temem o "senhor mercado".

Uma prova de que o fogo de Nero está chegando é a informação nessa semana que o Bank of America está deixando alguns investimentos no Canadá. Depois veio a informação que esse mesmo banco vai demitir 10 mil empregados. E por fim, que o FED foi verificar se as filiais dos bancos europeus tem caixa com dinheiro nos EUA. Por que? Estão operando à descoberto? Já alertamos sobre as falências de bancos nos EUA que não param (" Bancos não param de falir nos EUA").

Como Nero moderno, seus senadores e colegas de bancos não vão parar com a "farra financeira" por medo, o pânico mundial vai obrigar as regras a serem alteradas da pior maneira: a recessão. Só assim, com desemprego excessivo, com parada total e manifestações como as que vem ocorrendo na Espanha, o mundo vai parar para pensar. Devemos investir para crescer, não para incendiar nossas próprias roupas como Nero antigo fez e o Nero moderno nos obriga.