Terça-feira, 13 de Julho, 2010

 

 

1 Trilhão, esse é o déficit americano

Gastar mais do que ter não é muito nossa tradição (familiar, não em política). Mas as vezes a natureza dos eventos financeiros nos forçam a estourar o caixa. O que dizer então quando não tem mais como conter a dívida? Uma saída é relaxar e a outra é vender tudo o que tem e ir morar com parentes. O governo americano não parece estar relaxando, mas como quem emite dinheiro é ele, está ainda muito longe de atingir resultado dos esforços prometido.

Segundo reportagem do yahoo finance obtida da Associate Press ("Federal budget gap tops $1 trillion through June") o tesouro americano anunciou hoje o déficit de 68,42 bilhões de dólares em Junho, totalizando no ano fiscal dos EUA exatos 1 trilhão de dólares. Como mesmo o lado pessimista tem duas visões, a primeira é que o resultado é bom pois é menor do que Junho do ano passado. A segunda visão é que com isso as coisas vão piorar pois as estimativas atingem 1,3 trilhões até completar os próximos 3 meses do ano fiscal.

Mesmo tentando cortar contas do orçamento, os problemas não deixam as contas entrar no positivo. Primeiro, o socorro aos bancos (que até hoje não devolveram o dinheiro), segundo com o desemprego que faz a economia permanecer estagnada (10% de desemprego) e agora vai acabar sobrando para o governo americano a limpeza do Golfo do México pelo óleo vazado da plataforma da BP.

Em comparação com a Alemanha, por exemplo, o déficit americano é digno de fechamento de firma para balanço. O déficit da Alemanha deve atingir em 2010 cerca de 81 bilhões de dólares ("Alemanha reduz previsão de déficit e quer ser exemplo na Europa") conforme relato da AFP.

 

 

 

E o Brasil? Conforme divulgado pela Agência Brasil em 22/06 nosso déficit também está batendo recorde atingindo quase 19 bilhões de dólares, pior resultado comparando-se com o mesmo período do ano passado. Só no mês de Maio o déficit foi de 2 bilhões de dólares. O que isso pode ocasionar?

Em termos americanos, apesar de poderem imprimir livremente o dólar mundial, localmente ficam amarrados pois isso gera um custo de captação nas vendas dos títulos da dívida. Apesar de ser considerado um porto seguro, o mercado vai sempre pedir mais prêmio do que o governo americano desejaria. Então, como pagar não é problema para os EUA, vão pagar com tranquilidade, mas isso vai aumentar seu déficit. Essa ciranda acaba atrapalhando os investimentos diretos que são mais importantes hoje: a geração de emprego. E se a economia americana patina... já comentamos isso aqui no site ( "O motor que faz o mundo girar").

Para a Alemanha, o controle de seu déficit pode parecer bom, mas não é. Como é reconhecidamente a melhor economia européia, todos vão gastar o dinheiro que a Alemanha tanto guardou. Aliás a profa. Dra. Luciana Yeung em sua coluna dessa semana parafraseou muito bem essa situação em seu texto "Revendo a fábula da cigarra e da formiguinha". Então na verdade a Alemanha acaba sendo o "porto seguro" dos gastões o que vai atrapalhar seu crescimento.

Para o Brasil já é conhecida a conseqüência de longa data e não precisamos ficar parafraseando ninguém. Aumentando o déficit, o prêmio de risco fica mais caro (ao contrário dos EUA não emitimos dólares) e então somos obrigados a pagar mais para ter mais dinheiro. Com isso sobe a especulação dos fundos internacionais, o dólar sobe o que faz a inflação subir, que finalmente faz o COPOM aumentar a taxa de juros que ... ufa, de novo a velha história... recessão. Por isso talvez até mais importante do que se preocupar em subir juros para controlar a inflação, é melhor cortar gastos para não subir a inflação. Mas o cenário não é bom: temos eleição, temos copa do mundo 2014 e temos Olimpíadas em 2016. E se você não acredita em "coelhinho da páscoa" é o governo quem vai pagar essa conta e não a iniciativa privada. Leia-se disso que você com seu salário é quem vai pagar para os turistas acharem o Brasil bonito. Se pelo menos isso revertesse em melhor qualidade na Educação, tudo bem. Mas o exemplo do Pan do Rio não mostrou nada disso.

E então temos os políticos do futebol dizer que a prioridade do país é: "Aeroporto, Aeroporto e Aeroporto". Quem fala e gosta de repetir essa infeliz frase é realmente filho da ditatura. Para o país, eu discordo completamente. Precisamos de Educação, Educação e Educação, o resto é conseqüência. Com educação o custo das licitações não teria os famosos 10%, o custo das obras não teria os famosos 10%, e com educação não precisaríamos de gastar bilhões com a Justiça, as pessoas teriam o sentido da Justiça em seu interior. Com educação não precisaríamos de 600 deputados, talvez 60 bastassem, não precisaríamos de 200 senadores, talvez 20 bastassem. Com todo esse dinheiro economizado, construir aeroportos seria um mero problema de engenharia e não um mega projeto político.

A verdadeira nação se constrói com Educação, não com aeroportos para jogo de futebol que só vai enriquecer cartolas do futebol e da política. Por isso, nosso déficit é mais preocupante do que os 1 trilhão de dólares americanos, porque lá ao menos eles tem Educação, Educação e Educação.