Sexta-feira, 17 de Abril, 2015

 

A Violência Acumulada dos Provocadores

Um dia foi perguntado a Mahatma Gandhi por que ele defendia a não-violência, se aqueles que apanhavam eram vencidos e os vencedores ainda dominavam a India. Gandhi então respondeu:

"... A não-violência e a covardia não combinam. Posso imaginar um homem armado até os dentes que no fundo é um covarde. A posse de armas insinua um elemento de medo, se não mesmo de covardia. Mas a verdadeira não-violência é uma impossibilidade sem a posse de um destemor inflexível...".

E sobre a imprensa, Joaquim Nabuco escreveu:

"... Uma das maiores burlas dos nossos tempos terá sido o prestígio da imprensa. Atrás do jornal, não vemos os escritores, compondo a sós o seu artigo. Vemos as massas que vão ler e que, por compartilhar dessa ilusão, o repetirão como se fosse o seu próprio oráculo...".

E podemos acrescentar que a violência não se manifesta apenas com atos, mas com instigações provocativas quase sempre nos limiares das reportagens de má fé, para provocar e ferir alguém, sem culpa ou dolo de pena. Por exemplo, estamos chegando próximo ao dia Nacional do Índio brasileiro, que em se tratando de Brasil, não temos muito a comemorar. Tiramos sua terra, matamos sua cultura, esfoliamos os sobreviventes com nossa língua e não os respeitamos nunca em nosso país.

Qual a importância ou dogma de um jornalista, quando em vez de procurar saber a cultura do índio brasileiro, sobre sua vida, sobre sua luta, coloca uma notícia estampada como essa à seguir, do site UOL, escrita pelo jornalista do jornal O Estado de S.Paulo?

Quem o jornalista, ou editor, quis provocar nessa reportagem sem importância? Quando se lê o texto, verifica-se que entrevistaram as pobres mulheres da limpeza, que estão no Congresso fazendo seu trabalho como sempre fizeram. Que fato novo para ser escrito em letras garrafais é esse, que tenta provocar um funcionário do congresso com o índio que estava sentado na cadeira? Certamente o índio nem ligou, nem se deu conta de quando saiu, que as pessoas da limpeza estavam passando algum produto nas cadeiras.

Mas para o jornalismo brasileiro, em dois sites de maiores acessos diários e com toda sua fama, esse é um fato importante, provocativo, e chamativo.

É por isso que em todo lugar que se para, não existe mais conversa. Existe briga, por provocações sem nexo, sem ideologia ou sem construções lógicas nas conversas. Nossos jornalistas são fracos (não todos obviamente, mas a maioria) a ponto de colocar em suas linhas de escrita seu próprio ranso. O jornalista brasileiro não é mais um formador de opinião. O jornalista brasileiro se tornou "provocador de opinião". E provocações, sem ideologias, acabam mal.

Em 1978 o matemático da Universidade do Arizona (EUA) Brian Pitcher criou um modelo matemático para estudar a "Difusão da Violência Coletiva". O artigo foi publicado na revista American Sociological Review. Ele definiu nesse artigo um conceito interessante sobre violência. Segundo ele, a violência é uma atividade que resulta em dano físico não acidental a pessoas ou propriedades. A violência coletiva instigada por grupos envolve um contágio social instigados pela informação que recebem (da imprensa).

O modelo de Pitcher era constituído de uma variável que ele chamou de V (violência acumulada), outra de I(imitação de violência prévia) e P (taxa de instigação à violência). Os resultados foram interessantes, porém aos olhos de hoje, bem simplórios. Mas ele foi o precursor de outros trabalhos e outros modelos sobre o assunto.

Por exemplo, o working paper de Myers em 1999, na mesma linha de Pitcher, avançou mais sobre o tema violência e seu modelo sob o ponto de vista matemático. Com o artigo sobre forças de provocação e de repressão em modelos de difusão de violência, Myers ofereceu um cenário mais completo e interessante sobre o papel de cada lado, quando se tem forças com enfrentamento direto de ideias e atitudes.

A fórmula (ou modelo) matemática da violência acumulada V(t) é a seguinte:

onde LN é o logaritmo neperiano e a letra "e" o exponencial de um número. A violência acumulada é retratada nesse modelo como uma parte de provocadores subtraída da parte dos repressores.

Sob os olhos de Myers, a violência acumulada V(t) é consequência do embate entre os provocadores (primeira parte da equação acima) e dos repressores. A letra "p" indica a força da ideologia dos provocadores, um parâmetro que varia entre zero e um. A letra "r" indica a força da ideologia dos repressores também entre zero e um.

Então, cenários muito interessantes entre provocadores sem ideologia e repressores com ideologia, ou vice-versa, tomam pontos em gráficos que podem levar a inúmeras discussões construtivas sobre eventos violentos.

Por exemplo, o primeiro cenário ao lado foi criado onde os provocadores estão em número maior, aparecendo em todo lugar para mostrar força, mas com ideologia muito fraca. Já os repressores, começam com número menor, mas colocamos os mesmos com ideologia 50 vezes mais forte. O resultado está na curva verde.

Surge uma forte violência até os repressores ficarem em número muito mais próximos dos provocadores. Quando esse número atinge um valor não tão díspare dos provocadores, a violência começa a diminuir e praticamente desaparece. A ideologia venceu.

No cenário 2 colocamos apenas os truculentos. Nem provocadores, nem represssores, possuem qualquer ideologia, qualquer linha de raciocínio. O resultado? A violência nunca diminui, sempre aumenta, o tempo todo. Esse fato não lembra um país grande da América do Sul?

De que adianta bater-boca na rua, com vizinhos, com parentes, se desfazer de amigos sem ter linha de raciocínio em que se pode apoiar? Quem tem raciocínio sabe a hora de parar, a hora de avançar, a hora de que não tem como vencer no campo das ideias, pois o outro debatedor também é forte em suas convicções.

Mas sem ideologia, só existe violência. Sempre instigada, sempre provocada, sem nenhum nexo de direcionamento no campo das discussões construtivas. Caro leitor, já leu os fóruns dos jornais de últimamente? Nada se aproveita.

Cenário -1

Cenário -2

Cenário -3

O terceiro cenário, ao lado, ocorre quando tanto as forças provocativas quanto as repressoras estão com mesmo tamanho inicial. Mas usamos a hipótese de que a força repressora tinha uma ideologia muito mais forte, mais compacta e dominante. Utilizamos uma ideologia 80 vezes maior para as forças repressoras do que a ideologia dos provocadores.

Resultado?

A violência acaba bem rapidamente. É só lembrar do golpe de 1964, quando ocorreu apenas alguma resistência momentânea, mas a ideologia militarista era tão maior, tão mais forte, que rapidamente todas as provocações se encerraram num período de ostracismo que foi visto posteriormente.

Nesse cenário os provocadores são vencidos pelos repressores, que dominam a situação e suas complexidades. A violência desaparece, mas não por conta de uma situação de paz e harmonia, mas por conta da repressão das ideias.

O modelo de Myers nos mostra a maravilha da matemática e toda sua explicação com uma simples equação. Podemos criar e debater quantos cenários desejarmos.

Mas de que adianta um belo modelo como esse, se a realidade de um país como Brasil não permite debate? Nem mesmo os órgãos de imprensa reconhecem seus leitores.

Já afirmamos isso antes e vamos afirmar quantas vezes for necessário. Por que os jornalistas se escondem e não permitem e-mails de contato sobre suas reportagens?

Já escrevemos, por exemplo, para a Ombudsman da Folha de S.Paulo sobre várias reportagens ultrajantes e que gostaríamos de trocar opinião com o editor. Resolveu? Não.

Nossos jornalistas reclamam da ditadura ou da perseguição pela lei A ou B sobre liberdade de imprensa, mas não permitem liberdade de debate sobre suas ideias toscas e constantemente errôneas com seus assinantes.

O que os modelos matemáticos anteriores nos mostram, é que os provocadores aumentam a violência, pois instigam e patrocinam a revolta dos repressores com ideologias perigosas. O modelo matemático não é perfeito, visto que em muitos casos os provocadores fortalecem a sociedade sobre a noção de democracia. Por exemplo, provocadores que lutam contra os opressores, sejam eles governos ou não, são vitoriosos, leve o tempo que levar. Isso o modelo matemático não consegue reproduzir, pois ele parte da premissa que o provocador precisa derrotar o repressor num tempo pequeno.

Outra falha é que a ideologia é fixa nesse último modelo, o que sabemos que não ocorre na realidade. Uma ideologia real vai se moldando conforme a sociedade muda. Valores notórios e importantes do passado, são nos dias atuais descartáveis. Um modelo matemático mais realístico deveria ter variáveis ideológicas variantes no tempo, onde o parâmetro "p" deveria ser "p(t)" e o parâmetro "r", deveria ser "r(t)". Isso indicaria que essas ideologias são adaptativas com o tempo, elas possuem suas próprias leis de evolução e morte.

Mas mesmo sendo simplórios, esses modelos sobre a violência, nos prova que a provocação por si só é maléfica, é destruidora, ela não constrói nada. Se os editores da grande mídia nacional estão achando que podem mudar um país com suas chamadas com letras gigantes ou chamadas com vozes mais "grossas" ou "estridentes", estão tremendamente enganados. Um país não muda pela locução ou dicção, mas por ação construtiva.

Agora para todo jornalista fazer sucesso em seu "show business" de âncora, deve constar a palavra "bandido", "canalha", "ladrão" e "vagabundo". Precisamos disso? Prescisamos de termos ultrajantes e deploráveis para formação de opinião? Ou serão esses termos uma agressão, uma provocação que apenas trará de volta a repressão que causará violência cumulativa?

Com o modelo matemático de violência acumulada é possível criar muitos cenários. Mas infelizmente, com o atual nível de educação do Brasil, nenhum deles será possível para nosso país. Vivemos um caso onde apenas a variável provocação existe e a violência está próxima do infinito incontrolável.

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