
Domingo, 23 de Outubro, 2011
Quando voar e quando se esconder?
Quem já não ouviu de seus pais e avós na infância para se afastar de grupos que podem te fazer mal. Na juventude temos nossos hormômios em alta, exaltando a fase da mudança, a fase de que o mundo deve mudar e que nós somos a mudança. Mal sabemos que os antigos tem a sapiência da vida, da experiência, mesmo quando denominados de analfabetos. Um analfabeto com idade sabe muito mais do que qualquer erudito com estudo. A idade ensina a viver, e se alguém viveu muito tempo é porque soube a hora de avançar e a hora de retroceder, vencendo os inimigos pelo cansaço. Tribos de índios ainda existentes devem ser exaltadas, pois venceram não apenas seus inimigos de raça como se adaptaram a ponto de fincar presença dentro do território do homem branco, que invadiu, matou e roubou suas terras. A sabedoria de um pajé de idade tem muito a ensinar a muitos médicos. E o segredo da vitória das batalhas dessas tribos que resistiram e resistem até hoje, foi manter uma conectividade intensa entre seus pares e uma distância saudável entre os opostos. Eles mantiveram uma conectividade aleatória entre outras tribos, fazendo com que a relação de rede não fosse tão intensa como a internet faz nos dias de hoje. Ao contrário de que muitos pensam, redes intensamente conectadas não são boas e não resistem a ataques exteriores. Até os anos de 1960 os teóricos de Biologia e Ecologia acreditavam que as florestas tropicais como a floresta amazônica eram resistentes e sólidas pela sua complexidade e homogeneidade. Estavam errados, pois hoje se sabe que as florestas tropicais são frágeis e não conseguem se recompor como antes diante de um desmantamento no coração da mata. A rede de conexão quando quebrada destrói toda segurança e desenvolvimento. Saiba-se então, caro leitor, que complexidade e homogeneidade são significados de instabilidade e fragilidade. Quando uma rede é atacada, duas estratégias são adotadas: "voar" ou "esconder". Um exemplo de estratégia de "voar" é um ataque por vírus numa comunidade. O instinto humano é correr e ficar longe da doença. Foi o que a população da idade média fez com a peste negra e o resultado foi o espalhamento da peste. A epidemia da gripe espanhola é outro exemplo da estratégia "voar", onde durante a primeira guerra mundial soldados mantiveram contato com populações infectadas. Quando voltaram para seus países levaram consigo a doença e a epidemia. A Aids é outro exemplo de "voar", onde literalmente foi de carona nos vôos internacionais transportar o vírus no sangue dos primeiros contaminados. Viajando de um país para outro, sem saber e mantendo hábitos que levavam a contaminação eles espalharam aos parceiros internacionais o vírus HIV. O melhor exemplo da estratégia "esconder" foi dado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) durante a gripe SARS na China. Quando o foco era determinado, uma quarentena obrigatória era imposta em toda comunidade. Confinados em hospitais especiais, os doentes eram tratados e o resto da população proibida de sair da cidade. A epidemia que estava se tornando pandemia foi controlada em tempo recorde, com poucas mortes se considerada a quantidade de pessoas infectadas. Artigos científicos ligados ao estudo das relações financeiras começam a detectar que esse padrão de rede e ataques está ocorrendo nos últimos tempos em todo sistema financeiro mundial. Já mostramos em nosso estudo publicado pela Elsevier ("Ações desordenadas condenam o mundo") sobre o efeito manada e o comportamento dos países durante a crise de 2008. O pesquisador J.P. Onnela, e outros mostraram em diversos artigos (Clustering and information in correlation based financial networks; Asset Trees and Asset Graohs in Financial Markets; Dynamic asset trees and Black Monday) o comportamento frágil da rede financeira diante de um ataque. Aqui entenda-se por ataque uma quebra de um banco, de um nó ou nodo importante para todo o sistema. Medidas de redes foram aplicadas por Battiston e outros colegas (The Structure of Financial Networks) para também mostrar a fragilidade financeira sob o ponto de teoria de redes. Até mesmo o grande Ecólogo Robert May se associou a Andrew G. Haldane para escrever na prestigiada revista nature que nosso atual sistema, nos moldes que está não aguenta um ataque sério (Systemic Risk in Banking Ecosystems - Nature). O próprio Haldane escreveu um artigo (Rethinking the Financial Network) para tentar persuadir as pessoas importantes do mundo financeiro a mudarem o estado atual de nossa rede financeira e aproveitar o que se sabe da Ecologia. Quem é Andrew Haldane? Ninguém menos do que Diretor Executivo de Estabilidade Financeira do Bank of England. E Haldane vai ainda mais longe, sendo contra a tão promovida High Frequency Trader, as ligações que permitem negócios em bolsas de valores em milisegundos(veja reportagem disso aqui). |
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Mas não é isso que acontece. A medida que as relações vai aumentando as oportunidades de ligações vão diminuindo, vão se exaurindo e começam então as especulações. Um novo ingrediente aumenta a pressão dos nodos (leia-se investidores), a alta frequência das relações. Alta frequência mais alta conectividade é a relação chave para toda mudança abrupta na segurança dos sistemas. Se o sistema financeiro tivesse ligações aleatórias, as desconexões seriam nas bordas e todo o coração da rede estaria seguro. Mas como todos possuem ligação com todos, um possível nodo "desligado" (leia-se falência de grande empresa) os nodos muito distantes irão sentir. E esse nodo distante, como está ligado a outro distante, faz a conexão ruir. Imagine se esses nodos significarem bancos centrais qual a magnitude do estrago. Os céticos vão pensar: "pronto, lá vem teoria do "se" novamente!" Não, isso está acontecendo em todo lugar. Em 2008 quando Lehman Brothers faliu, levou com ele uma empresa de seguros( AIG ) que a princípio não tinha ligação com hipoteca de casas. E essa ligação nem era bem conhecida pelo FED (banco central dos EUA) que ficou surpreso da estreita relação. Em duas semanas o mundo inteiro viu bancos pedindo dinheiro para não falir. Por que o Brasil não foi tão atingido assim? Estávamos desconectados de duas maneiras: Nossos bancos tinham poucos ativos subprimes e nossa ligação de alta frequencia era incipiente entre Bovespa e demais bolsas. Apenas um banco que era ligado à AIG sofreu e teve que se coligar a outro para não quebrar o sistema financeiro brasileiro. Imagine a floresta amazônica. Bastou nos anos de 1970 o governo fazer um recorte no meio da floresta para passar uma estrada até hoje não terminada que toda rede se modificou. A medida que a frequência de ataques aumenta, com cortes de árvores, queimadas e avanços do gado, menos a floresta reage. Também a floresta amazônica é uma rede com nodos de cauda "gorda" de probabilidade de ligação. A floresta agoniza ano a ano segundo o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) com todos os ecossistemas de todos os tamanhos sendo desconectados. Há quatro anos atrás o rio Amazonas teve a maior seca de todos os tempos. Ele, um rio chamado de oceano de água doce ficou não navegável por vários meses em alguns pontos por falta d' água. No caso de finanças dos blocos hipotéticos, após alguma quebra, a fase final da ligação entre o bloco "azul" e "vermelho" é a da imagem a seguir.
Após uma crise financeira todas as ligações são desfeitas O leitor ainda não se convenceu? Certo, ainda soa com ar de teoria catastrófica sem sentido. Em nosso artigo (A model for the contagion and herding - Elsevier) com dados do Banco Mundial mostramos que não sofremos, pois o Bloco BRIC estava desconectado dos demais blocos quando tomamos variáveis de análise débito e depósitos em bancos. Mas o caso mais recente de ataque à rede aconteceu nessa última sexta-feira (21/10/2011). Ataques nada aleatórios foram feitos em todas as bolsas do mundo. Mesmo com a péssima notícia de que o Goldmann Sachs deu prejuízo de 84 centavos de dólar por ação, os investidores gostaram? As ações do Goldman subiram e fizeram as bolsas subirem. No Brasil, na sexta-feira aconteceu isso que está nas imagens a seguir nas ações da Petrobras (Petr4). O nome da corretora foi trocado por "xx" no book de ofertas a seguir.
A cada 15 segundos esse investidor dessa corretora "desovou" em pequenas doses com o mesmo preço muitas ações da Petr4. Sempre o preço de venda era o mesmo, mas com milisegundos de atraso. Depois recomprou de volta e depois ficou comprando e vendendo a cada pequena fração de segundos. Claro que se pode afirmar que eram investidores diferentes fazendo operações "parecidas". Para quem é acadêmico sabe no entanto que, diante do volume do banco de dados, a chance de dois ou mais investidores diferentes fazerem o mesmo preço seguidos e outros recomprarem da mesma forma com o mesmo preço é muito baixa. Na verdade é mais fácil a Terra ser atingida por um meteoro do que isso acontecer. Essa sexta-feira a bovespa passou por clara troca estranha de preços em altíssima frequência atingindo toda a rede financeira de ações. Se aqueles que defendem as operações de alta frequência com o frágil argumento de que os preços ficam mais estáveis, não percebem os acontecimentos na prática. Aliás essa frágil idéia nem se percebe na teoria das redes. Alta frequência em redes faz as conexões caírem rompendo os nodos e toda estabilidade. E do ponto de vista macro-econômico os agravantes não são menores das conexões de rede. Nossa ajuda prometida para o fundo europeu é como se uma nova ligação estivesse sendo formada entre o nodo "Brasil" ou "BRIC" e a Europa. Se vamos mesmo ajudar a Europa, estaremos fazendo uma ligação entre nosso nodo e o nodo europeu. Aliada a essa ligação, a alta frequência nos negócios faz com que a estratégia de "esconder" já não seja mais uma alternativa nossa. Sobrou apenas a estratégia das outras tragédias, a estratégia de "voar". Só tem um detalhe: voar para onde? |
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