Sábado, 19 de Março, 2016

 

O verdadeiro Watergate

 

"Talvez o Brasil já tenha acabado e a gente não tenha se dado conta disso"

Paulo Francis

(Jornalista)

A frase acima do jornalista Paulo Francis nunca esteve tão correta e atual a ponto de sair das ruas e se instalar em nosso pensamento sobre a coletividade de nosso povo. A imbecilidade que tomou conta do país ao se colocarem "nós" contra "eles" é algo irracional, onde agora até mesmo juízes que deveriam se ater aos autos, tornam-se atores midiáticos e de televisão.

Antes que as críticas apareçam, o mesmo Paulo Francis deixou algumas linhas interessantes sobre o seu tom sarcástico e ácido nos seus textos. Ele diz mais ou menos isso:

"...Dizem que ofendo as pessoas. É um erro. Trato as pessoas como adultas. Critico-as. É tão incumum isso na nossa imprensa que as pessoas acham que é ofensa. Crítica não é raiva. É crítica. Às vezes é estúpida. O leitor que julgue. Acho que quem ofende os outros é o jornalismo em cima do muro, que não quer contestar coisa alguma. Meu tom às vezes é sarcástico. Pode ser desagradável. Mas é, insisto, uma forma de respeito, ou, até, se quiserem, a irritação do amante rejeitado...".

Em todos os minutos dessa tumultuada semana, novas informações pingavam o tempo todo nos celulares pelo Brasil afora, tornando-nos pessoas num país de fofocas. Escândalos e a realidade sobre os políticos apareceram, e se tornaram tão importantes que ninguém mais se lembra do que foi o relato do doleiro Youssef dois anos atrás. Ou mesmo como foi a delação do senador Delcídio do Amaral, divulgada três dias atrás.

Mas um fato ficou marcado e será lembrado pela história. A divulgação de diversos áudios de ministros com foro privilegiado e da máxima autoriadade do país, a presidente da República. O juiz Sérgio Moro, talvez percebendo algum tipo erro, imediatamente no dia seguinte emitiu uma nota sobre o assunto.

Se ele tivesse certeza sobre a liberação, talvez não soltasse algum pronunciamento. Não sabemos. É da psicologia humana, ainda mais de pessoas ainda jovens, ao perceber erro correr para justificar e tentar torná-lo como correto, ou do que pensa ser correto. A Suprema Corte (STF) e o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) ainda vão julgar esse episódio e teremos uma posição oficial e final da corte sobre esse assunto nas próximas semanas.

Sem aprofundarmos no mérito do acerto ou erro do renomado juiz, o fato de citar o caso Watergate demonstra o quão correndo contra relógio estava o juiz, ou então, o quanto analizou talvez precipitadamente o episódio do grampo no Brasil, tentando alinhar esse fato com o histórico caso de Watergate. O juiz não era nascido na épóca, nós sim. Ele pode ter lido e se aprofundado nos livros de história, nós vivenciamos a história naquela época.

Foi um exagero, pensamos nós em nossa análise, a citação do caso Watergate nos eventos dessa semana, ou ainda o episódio entre o Brasil e o caso Watergate da renúncia do presidente Nixon em 1974, pois ambos nada possuem de paralelo.

Num dia cinzento de junho de 1972, a sede do Comitê Democrata Nacional no complexo de Watergate em Washington foi invandida por homens que tentavam roubar documentos e fotografar materiais do partido. O fato ocorreu às 2:00 h da manhã daquele dia. Temos que imaginar que a situação política de Nixon não estava nada boa e certamente não seria reeleito.

Nixon no Vietnã

Os EUA estavam se arrastando na guerra do Vietnã e Nixon ordenou um ataque massivo próximo ao Natal para acabar de vez com a guerra. Ele desejava fazer um pronunciamento à nação, afirmando como fato político importante um possível cessar fogo. Na televisão ele negou e disse ter sido um erro de comando. Depois comprovou-se que foi ele quem ordenara o ataque.

O roubo no complexo Watergate foi um fracasso e os homens foram apanhados dentro do quarto. A notícia foi apenas uma nota de rodapé sem importância, mas dois jornalistas (Bob Woodward e Carl Bernstein) acharam estranho o fato e foram pesquisar mais a fundo. Eles descobriram que um dos ladrões fazia parte da folha de pagamento do partido do presidente Nixon.

Ao puxar a fita, o caso começou a aumentar, descobrindo-se que cada um recebera US$ 25.000 para roubar, fotografar e até colocar escutas dentro do comitê. Então os jornalistas passaram a procurar dentro do fundo da campanha de Nixon, quem estava envolvido, quem tinha interesse sobre essa invasão, e por fim, qual a relação com o candidato e presidente Nixon.

Nada teria dado certo, se não tivesse aparecido um personagem estranho. Ele se autodenominava "Garganta Profunda".

Em conversas nos subterrâneos do metrô, Garganta Profunda foi dando dicas e caminhos financeiros em que Bob Woodward deveria procurar.

Quem usava esse codinome só foi revelado em 2005. Era o senhor W.Mark Felt. Em 1970 ele era vice-diretor do FBI e resolveu ajudar os jornalistas do Washington Post.

Ligar as doações ilegais ao presidente Nixon foi fácil, com diversas provas criminais, com diversas empresas subornando e pagando propinas, mas só isso não daria impeachment nos EUA, segundo advogados da época.

E aqui começam as grandes diferenças entre Watergate real e o Watergate fantasia do Brasil.

Foi criada uma comissão de inquérito no Senado americano para analisar o caso e não na CIA, ou na polícia comum. Presidente da República só pode ser investigado pela Suprema Corte ou pelo Senado nos EUA.

No caso de Watergate não foi autorizada e nem mesmo tinha sido imaginado pela comissão parlamentar qualquer tipo de grampo, seja ao presidente, seja ao comitê de Nixon.

A comissão trabalhou em cima das notas fiscais, contratos e entrevistas a funcionários do comitê e da Casa Branca, indagando sobre propinas. Nunca houve grampo, isso não é verdade. É verdade que ninguém está acima da lei e mesmo um presidente deve ser investigado, como foi Nixon.

Mas no caso Watergate, não ocorreu grampo sobre o presidente da República, ou mesmo sobre alguém que falou com o presidente.

Pode-se até dar o belo nome de "gravação fortuita", como se ouviu no fato do grampo brasileiro, mas nem mesmo isso ocorreu em Watergate nos EUA.

Jornalistas do W.Post - Carl Bernstein e Bob Woodward

 

Richard Nixon - EUA - renunciou em 9 de agosto de 1974

O que aconteceu foi que um assessor, ao ser pressionado pela comissão do Senado revelou que o próprio presidente colocou escutas em seu telefone e em todo lugar da Casa Branca.

Vamos frisar, ele próprio, o presidente da República se grampeou, e gravava tudo o que falava. (veja Lucas Mendes da Rede Globo em noticiário da época contando o caso).

Anos depois em entrevista, foi perguntado a Nixon por que tal ato estranho de gravar todas as suas falas? Nixon respondeu que gostaria de fazer um acervo histórico com as grandes decisões, pensando terminar o mandato como "o melhor presidente dos EUA".

Ele afirmou ainda que, muitas vezes ficava constrangido ao falar com amigos, sabendo que tudo estava gravado.

Segundo Nixon, ele somente ouviu as fitas quando das semanas da investigação e nunca mais quis ouvi-las. Pelo certo ou errado, essas fitas foram disponibilizadas em áudio completo para o público apenas nos anos recentes, quase 40 anos após os fatos, reproduzidas de forma magistrosa por programa em um canal de história na rede fechada de TV à cabo.

Logo, não ocorreu grampo no presidente, ele próprio gravou suas conversas. E as pessoas comuns só ouviram sua voz nessas fitas em anos recentes. Ah sim, então foi cassado por isso? Não.

Depois de uma enorme batalha judicial de dois anos, após recorrer para não entregar suas fitas, Nixon perdeu o caso e teve que entregar para a comissão todas as fitas das conversas.

E aqui vem o motivo da renúncia, que caso não ocorresse, seria impeachment. Faltavam nas fitas entregues, 18 minutos de conversas do presidente. A justiça obrigou a Casa Branca a entregar de qualquer forma as fitas completas, sem edição, com os 18 minutos faltantes.

Vamos frisar que foi a Suprema Corte quem decidiu a entrega pelo "próprio" presidente. Foi um mandato dos ministros da Suprema Corte para a entrega do material.

E aí sim, com esses 18 minutos, aparece Nixon ordenando de forma clara e explícita que se criassem cortinas de fumaça para atrapalhar as investigações da Comissão, criando fatos e eventos que confundissem as investigações dos parlamentares. E nesse caso, a comissão levou o caso para todo o Congresso Americano que abriu o processo de impeachment.

Antes do fato consumado, Nixon renunciou, realmente entrando para a história como ele desejava, mas por outro motivo. Entrou para a história como o primeiro presidente a renunciar nos EUA.

Nos dias atuais no Brasil, a corrupção precisa ser exposta, precisa aparecer, o falso pudor precisa ser combatido e a verdadeira realidade deve prevalecer. Todos os políticos e empresários envolvidos nessa operação devem ser julgados e punidos de forma exemplar.

O que não podemos é criar cortinas de fumaça para justificar essa ou aquela decisão, indagando história e tentando modificá-la para encobrir um erro. História é história, aconteceu, tem documentos, tem vídeos da época e todo mundo pode apurar. Uma pessoa letrada e de alto gabarito não pode pensar que no país dos "abacaxis" e das "bananas", todo mundo é ignorante.

Assim como o juiz Sérgio Moro, sendo doutor e professor da UFPR com todas as honrarias, existem outros doutores e professores tão bons quanto ou ainda melhores do que ele para entender e interpretar a história e os fatos. Na sua área de competência outros professores e juízes de renomado reconhecimento por seus pares, apontam de forma categórica onde ele errou. Ainda existem outros favoráveis a essa decisão. O debate construtivo faz parte. Não se pode misturar eventos de 1974 com outra realidade e outros fatos, com nossa atual realidade completamente diferente daquela época. Ainda por cima sendo outro país.

Pode-se sim traçar um paralelo entre o governo de agora, com a época de Collor, com os fatos e acontecimentos pré-impeachment, com os desvios de conduta dos políticos, com a economia ruim, mas não com os EUA. Isso é forçar muito com superficialidade no entendimento da história.

Vamos fazer a palavra do renomado e respeitado ministro do Supremo Tribunal Federal, senhor Teori Zavascki: " ... juízes têm de agir com prudência, discrição e serenidade..." (ler aqui).

 

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