Terça-feira,15 de Março, 2011

 

 

A inconsciência da instabilidade

 

A consciência humana sempre foi objeto de estudo por parte de grandes filósofos. A pesquisa médica avança na direção para a detecção de onde se localiza e o que nos faz consciente. "Penso logo existo" de Descartes se torna a cada dia mais objeto de investigação do que na própria época de Descartes. Por isso quando dizemos que estamos num plano "cartesiano", estamos nos referindo que estamos sob uma base sólida de investigação, que pode ser representada num plano quadriculado que identifica muito bem qualquer objeto, conhecidos sua abscissa e ordenada. Mas será que realmente somos conscientes, ou fazemos as coisas por um impulso de "manada" ainda não explicado?

A estabilidade é um dos assuntos prediletos em ciências, e aqui estamos falando de todas as ciências. A estabilidade pode ser assunto para o emocional de uma pessoa, de um equipamento para a engenharia, de uma regra lógica para a matemática e de um recurso financeiro para a Economia. Em termos matemáticos nos garante que qualquer que seja o local onde você está, sempre estará orbitando em torno de algum ponto ou de alguma curva fechada que se repete. São os chamados ciclos limites, que em Economia e Finanças são conhecidos como ciclos de crescimento, ciclos de estabilidade, sazonalidades, etc.

Na verdade o mais natural para nós é sermos instável. A humanidade só cresceu ao longo dos tempos graças a instabilidade. As chamadas caudas longas de probabilidades são mais permanentes do que se imagina. A instabilidade nos gera um novo aprendizado, nos gera dúvidas que devem ser esclarecidas para o enfrentamento de uma condição adversa. Observe o gráfico a seguir.

Esse gráfico foi resultado de um nosso estudo sobre o comportamento do vírus da Aids. Ao usar um modelo baseado em dados reais de pacientes, resolvemos estudar onde e como os pacientes da Aids se tornam estáveis em seus tratamentos. O que descobrimos é que ser "saudável", do ponto de vista biológico e médico, é um momento instável em nossa vida. Isso porque qualquer alteração imunológica, por menor que seja, nos leva da figura embaixo no gráfico para a figura acima. Significa dizer que saímos de nossa estrutura saudável para uma estrutura que nos deteriora, que nos mata. A figura embaixo no gráfico são as possíveis trajetórias da batalha entre um vírus da Aids contra o sistema imunológico, onde todos os caminhos nos leva a doença (parte de cima do gráfico). A doença é o atrativo, é o que se chama ponto atrator ou acumulador, ou como costumamos dizer ponto estável.

Assim, se você está gripado e de cama, é porque seu organismo está buscando sempre te levar para o ponto estável, o ponto onde tudo se acomoda. Infelizmente para nós humanos, esse ponto de estabilidade é a morte. Sim, a morte é o ponto de estabilidade do ser humano. Por isso temos sempre o ímpeto e sempre a noção de que a vida é difícil, pois é mesmo, estamos em constante instabilidade.

Depois da tragédia do Japão, que não foi a primeira e nem será a única no mundo, as pessoas ficam se perguntando: Como um país tão sólido, de economia de primeiro mundo, se desestabilizou tão depressa? Na verdade o Japão está dando ao mundo uma lição de civilidade, de educação e de ajuda ao seu próximo. Pelo menos até o momento não se vê, mesmo em filas de comidas e águas, brigas, corre-corre como os eventos do furacão Katrina nos EUA. Não ouve, por exemplo, relatos de saques, de roubos, de furtos por qualquer que seja. Está sendo um belo exemplo de estabilidade emocional, talvez até criado pela noção da constante instabilidade da vida.

 

Infelizmente para o povo japonês, o mercado financeiro não é assim tão solidário e busca sempre piorar aquilo que já está ruim. A fuga dos capitais foi quase instantânea com a notícia de terremoto. E depois do tsunami, as empresas japonesas começaram a perder dois dígitos a cada novo dia. As empresas de seguro também perderam dois dígitos em suas ações. E agora as empresas que fabricaram (americanas) os reatores nucleares vão perder ainda mais do que tentavam se manter.

O povo japonês vai ter que lutar muito contra o mercado e contra dois inimigos invisíveis que levam à catástrofe: A radiação e a hiperinflação. Os dois inimigos foram criados pelo homem, e vivem em constante instabilidade. Basta apenas um pequeno evento para aparecerem e levar o caos à qualquer população. A radiação está fora de controle nas usinas nucleares e já podem ser medidas pelos contadores Geiger. A inflação ainda não, mas vai despontar já no mês que vêm com a falta de produtos para a necessidade básica.

Com a crise do abastecimento de combustível e com o alto preço do petróleo por conta de Gadhafi na Líbia, os preços vão disparar dentro do Japão. Por mais que seja subsidiado, o combustível vai ter seu preço aumentado além do normal e vai afetar o preço dos alimentos. O gráfico anterior mostra o que aconteceu com o Japão em 1973 e 1974 quando a crise do petróleo assolou o mundo. A inflação anual saiu dos normais 4% a 5% ao ano para terríveis 25% ao ano. Gerou desemprego e estagnação no Japão.

Claro, isso faz muito tempo. Pra que ficar lembrando de épocas tão remotas onde não existiam computadores, celulares e internet. Que idéia revirar o passado!

Então vamos ver o gráfico depois do terremoto de Kobe em fevereiro de 1995, também no Japão. A região era mais pobre e despreparada e o terremoto acabou com a cidade. Era de se esperar que o custo no Japão aumentaria, mas controlável.

 

Na época o Japão vivia um período de deflação, ou seja, inflação negativa com base anualizada. Anualmente os preços caíam e o desemprego já começava a mostrar que as coisas estavam ficando instáveis para o Japão. Naquela época o índice Nikei da bolsa de Tóquio estava em 17.000 pontos, longe dos 30 mil de outrora, mas muito acima dos 8 mil de agora. E então com os custos da reconstrução da região de Kobe, das importações para alimentos, insumos de produção, incentivos para industrias criarem empregos na região, a inflação disparou atingindo um ano depois 3% anualizada.

Ah sim, mas 3% não é muito, uma vez qeu no Brasil estamos em 5% agora nesse ano de 2011. Errado. No japão a carga de impostos é muito baixa, o custo da alimentação muito alto, a moradia muito cara e muito pequena Sair de 0% para 4% é muito pior do que sair de 3% para 7% num país como o nosso, acostumado às hiperinflações históricas.

As construções que já eram caras no Japão vão ter que serem subsidiadas pelo governo, o que vai aumentar o déficit que já é alto. Como os juros do Japão já estão quase em zero, o controle normal dos bancos de baixar os juros não vai existir. Essa arma o Japão não tem e vai ter que criar outro tipo de mecanismo.

E o resto do mundo? Vamos sofrer em poucos meses com esse terremoto, tsunami e radiação. Os japoneses fora do Japão já começaram a se desfazer de suas posições em fundos. Quantas propriedades os japoneses tem nos EUA? Quantas obras de artes não foram arrematadas por milhões no passado. Sim, o mercado cultural também vai sofrer com a venda em massa por parte dos japoneses para investir no Japão e ajudar a se reerguer. Nossa cadeira não vai ficar muito confortável daqui há alguns meses.

Isso é instabilidade e temos que nos acostumar, temos que aprender, pois quando ela bater aqui em nossa porta temos que demonstrar a sabedoria dos japoneses para lidar com ela e perceber que isso é necessário para a humanidade crescer.