Atrás da grande muralha

Era uma manhã comum como todas as outras, com nevoeiro denso a grama molhada pelo orvalho da madrugada e o sol tímido enquanto o menino Chin brincava com gravetos. O rio do vilarejo e o frio já eram de costume o cenário gélido daquela região. Então ao longo barulhos de cavalos com trotes fortes, espadas e gritos não eram comuns. E foram ficando mais fortes, mais assustadores e então Chin observa homens gigantes vindo na direção da cabana de seus pais. O menino assustado corre a procura da mãe, ainda na beira do rio com seus afazeres. Mas quando chega se depara com a mãe morta, jogada ao chão com sua garganta cortada e sua roupa rasgada. Seu mundo caiu e por um instante ele desejou a morte também.  Na sua bela juventude ele não entendia por que aqueles homens com roupas grossas e pretas e capacetes que cobriam os rostos fizeram aquilo. Nem ele, nem a aldeia nem ninguém entendia o que levava àquela tragédia. E por não entender, e por nunca ter entendido ele prometeu a si mesmo que vingaria a morte horrível de sua família. E assim aconteceu.

O menino cresceu com habilidades incríveis com a espada e sem sentimento algum diante da morte. Tornou-se líder do seu tempo e de sua região por volta de 220 a.c. e um a um todos os povos foram lhe pertencendo. Não havia acordos que lhe fizessem parar, nem exércitos, nem clemência. Seu exército foi o mais temido de todos os tempos, foi o mais cruel, o maior e mais forte de toda humanidade. E Chin ao adquirir todas as regiões da longínqua Ásia se tornou um imperador e criou a China. E temendo a traição, sua lei era de intolerância, de ditadura total, em que não havia liberdade alguma a não ser a liberdade de matar de seu exército. E então, para deixar sua marca, construiu o maior monumento terrestre, que pode ser observado da lua: A grande muralha da China.

E em 2.000 anos foi sempre assim, com governantes cujo título não importa se é imperador ou presidente, herdaram a genética deixada por Chin. Ele uniu os povos com a liga do medo e da repreensão e o que acontece atrás da grande muralha nunca será entendido por outros povos, pois como um símbolo intransponível, o pensamento de governantes chineses é a herança viva de Chin.

Quem não se lembra da imagem do jovem à frente dos tanques na avenida da praça celestial. Todo o mundo estava contente ao ver que os tanques recuavam à medida que ele se deslocava, que era possível a mudança de comportamento dos governantes chineses. Todos observavam a greve dos estudantes e o aparente medo de Deng Xiaoping na gestão da ordem. Analistas diziam a todo momento que era o fim do comunismo Chinês e que eles se renderiam ao capitalismo assim como as transformações que estavam começando a acontecer na União Soviética e Alemanha Oriental. Pobres analistas que com seus anos de vida, não perceberam que a história da China era maior que toda sua experiência de vida. Uma única vida nossa não será suficiente para entender 2.000 anos de história.

A China abriu uma fresta de seu mercado como uma válvula de escape e com a experiência milenar, suas estratégias de exércitos não olham apenas para dentro da grande muralha, mas para o mundo. Com a economia que começou a copiar “coisas” de sucesso do mundo, sejam essas “coisas” mercadorias, artes, dinheiro, tecnologia, eles já são a maior economia do mundo. Com seu PIB crescendo a largos 10% ao ano, são como as espadas de Chin, imbatíveis e determinados. Cada ato do governo Chinês tem no máximo como reação uma cara de assustada dos governantes mundiais. Os protestos são longínquos e sem efeito, assim como o sumiço do pobre jovem na frente dos tanques, assim como as milhares de mortes na praça da paz celestial em Pequim, assim como o apoio à Coréia do Norte, assim como a perseguição aos Tibetanos. O que faz o mundo diante dos movimentos chineses? Olha, o mundo apenas observa e fica atônito.

Com sua exuberância na bolsa de valores de Xangai ou na conquistada vitrine bolsa de Hang Seng em Hong Kong, a China tem o domínio e o medo em outro mundo, o mundo financeiro. A última atitude que deixou todos atônitos foi sobre o caso Google. Após anos de fiscalização cerrada e de não permissão a liberdade na internet, começaram a ingressar invasões nos servidores locais. Novamente o exército de Chin reaparece sobre a forma tecnológica e tenta impor suas características. Ao sair da China, o mundo dos negócios achou (de forma errada) que seria um grande abalo ao prestígio do “governo de mercado” Chinês. Nada disso, em uma semana surgiu o “Google Chinês” que não tem nem o descaramento de disfarçar sua cópia fiel ao original como visto na figura ao lado. O “goojje.com” é o site de busca agora permitido na China e que com o discurso de que veio para ajudar as pessoas a se conectarem com o mundo, certamente tem aval do governo chinês pois deverão passar todo tipo de informação secreta dos habitantes ao governo. Agora, ao invés da grande muralha visível e feita de argamassa antiga, a muralha tecnológica é que será a barreira natural ao povo Chinês. E o mundo se cala novamente.

E como invadiu o mundo imitando o exército de Chin, os mercados mundiais foram hipnotizados, foram dominados pelo mercado financeiro Chinês. Agora qualquer movimento deles faz Dow Jones e o resto do mundo tremer. No final de 2007 nosso índice que mede mudanças abruptas nas bolsas, detectou uma mudança na China e para baixo. Uma semana depois o Hang Seng desabou 4% e não parou mais de cair. Esse com certeza foi um dos fatores que derrubaram o Leman Brothers pois estavam lotados de papéis chineses (assim como o resto do mundo financeiro).  O índice Hang Seng saiu de 33 mil pontos e não parou mais de cair chegando ao fundo do poço no segundo semestre de 2008 a 14 mil pontos. Como pode ser visto na figura ao lado, novamente nosso índice IMA está mostrando o mesmo comportamento para o Hang Seng, uma virada sem volta visto que ele está acima de 0,7, tendo chegado a quase 0,9. O índice Hang Seng, depois da crise, estacionou em 22 mil pontos e agora perde resistência semana a semana, estando entre 19 e 20 mil pontos.

O mundo novamente está olhando para a brecha errada da muralha. Ao olhar para a fiscalização chinesa em cima de seus bancos, do congelamento dos empréstimos anunciados nessa semana passada, se esquece que as bolsas de lá são controladas pelo governo chinês, seja de forma explícita seja de forma implícita através da compra e venda de papéis. Se eles controlam as informações de internet, controlar bolsa de valores é muito fácil com seu regime de intimidação e pressão nas empresas locais. Infelizmente o IMA não tem errado nos seus alertas de mudanças abruptas e tem grande probabilidade de acerto novamente. Ao observar o gráfico ao lado, onde o eixo y do lado direito mostra os valores do IMA com o gráfico vermelho é possível notar todas as grandes viradas quando o IMA estava alto. A linha em preto é o índice Hang Seng.

A grande muralha chinesa, com todo seu esplendor hipnotiza até astronautas na lua, mas o regime Chinês hipnotiza muito mais o mundo, pois carrega os ensinamentos do grande imperador Chin, que nunca entenderemos.

 

 

 

 


 

Domingo, 14 de fevereiro, 2010