Retoques perigosos no mercado

Certa feita um cidadão procurou uma universidade, pois estava com um problema sério para resolver. Como o problema era de matemática, decidiu ir ao departamento de Matemática.  Ao encontrar com o chefe do departamento, explicou que tinha uma dúvida e se ele poderia ajudar. Muito generoso, o chefe disse que sim. Então o jovem rapaz  perguntou ao matemático qual a solução da operação 2+2? O matemático mais que rápido respondeu assustado que era quatro.

Desconfiado da resposta muito rápida, o cidadão achou que foi um ato para apenas lhe despachar rápido e foi ao departamento de física. Repetindo a pergunta, o chefe do departamento de Física respondeu que a solução era 3,9999... mas que ele poderia arredondar para quatro. O jovem ficou com uma má impressão, pois achou muito aproximada a resposta. Decidiu ir ao departamento de Estatística. Ao repetir a pergunta, o chefe do departamento pareceu meio constrangido. Olhou para um lado, para o outro e pediu para o jovem lhe acompanhar até sua sala. Fechou a sala e em voz baixa perguntou: “Quanto você quer que seja a resposta?”

Claro que esse fato “verídico” é uma anedota de mau gosto com nossos amigos estatísticos, mas nem tanto. No dia 20 de Fevereiro desse ano (2010) a anedota tomou um ar perigoso e real. Segundo o jornal francês “Le Monde”, o Goldman Sachs ofereceu um serviço de mágica para diminuir a dívida da Grécia (http://www.lemonde.fr/economie/article/2010/02/19/la-grece-n-est-pas-la-seule-a-maquiller-sa-dette_1308455_3234.html). Os analistas e consultores do Goldman ofereceram um “swap cambial” diferente contra especulações na Grécia. Essa metodologia é uma forma de proteção contra ataques especulativos. Até aí, sem problemas. Mas, o caso toma outra conotação quando o governo Grego foi orientado a mexer “artificialmente” na taxa cambial de conversão e milagrosamente, uma dívida de 1 bilhão de dólares se transformou em 300 milhões de dólares.

Essa jogada é tão perigosa que levou a Chanceler alemã Angela Merkel a ficar furiosa e pronunciar a seguinte frase:  “Seria uma vergonha se fosse revelado que os bancos, que já nos levaram à beira do precipício, também participaram da falsificação das estatísticas orçamentárias da Grécia”.  Essa frase está muito ligada ao texto que já postei aqui sobre as estatísticas manipuladas que as agências estão fazendo da economia mundial (“ Economia USA e radiação fazem bem à saúde”). E novamente um dos bancos que se silenciam quando a sirene começa a tocar (“o silencio dos inocentes”) está no meio do furacão.

A jogada por si só mostra o quanto são inescrupulosos esses “consultores” e que tipo de serviço eles apresentam. O tempo todo eles indicam tendências artificiais que são seguidas pelos pequenos investidores. O mais perigoso é que no mesmo texto, afirma-se que não é só a Grécia que está fazendo uso desse tipo de estatística. A Itália e a Bélgica teriam usado dessa engenharia financeira.

Qual o problema disso? A dívida obviamente não some, mas esses bancos, e mais especificamente o Goldman Sachs (segundo o Le Monde) toma essa diferença e lança títulos baseados nela. No final de alguns anos, o governo é obrigado a pagar taxas de juros altíssimas ao banco, pois na verdade a dívida saiu do vencimento atual e foi jogada para o futuro. E quem lucra é o banco que fez a engenharia financeira. Isso é o que estão chamando de “subprimes governamentais”. Quando ocorreu a crise desses títulos podres empresariais, os governos socorreram com empréstimos generosos. E agora, se ocorrer uma crise governamental, quem vai socorrer? Os bancos de investimentos?

 

 

 


 

Terça-feira, 23 de fevereiro, 2010