Rojões sem pólvora

As pessoas precisam de salva-vidas e precisam acreditar em alguém. Sim, existe alguém que está no comando da situação e ele decidirá o que é correto para todo o mundo. Por que? Por que o mundo não pode se acostumar com situações insólitas e desastrosas que vão ocorrer e que não existe porto seguro? Se olharmos para o evento 11 de Setembro, quem imaginaria que o país mais seguro do mundo iria permitir que duas aeronaves colidissem no maior complexo arquitetônico da América? Um único avião já seria blasfêmia, mas foram dois, debaixo do escudo de segurança americano.  Então acreditar no poder das palavras tornou-se obsessão.

O mais interessante é que as pessoas acreditam e delegam poderes a poucos, escolhidos por alguns postos importantes, alguns trabalhos interessantes, alguns prêmios e ... dinheiro. Sim, o poder se mede pela força que se pode ter em manipular muito dinheiro. Desde a criação do dinheiro, sempre foi assim e sempre será assim enquanto a palavra “sempre” existir. E quem tem dinheiro sabe ser silencioso, pois esse é o segredo do sucesso. Ser silencioso em suas manipulações, alinhavar com outros que tem o dom de modificar e direcionar opiniões. E o melhor lugar para se atuar é na bolsa de valores. Aliás, a única regra clara que existe no mercado é: se entrar você pode ganhar como pode perder (belo teorema!).

As bolsas estavam caindo nessa semana, despencando minuto a minuto. Então os silenciosos inocentes “plantaram” a idéia de que o presidente da União Européia estava retornando de um encontro para fechar um acordo de apoio à dívida da Grécia. A viagem era verdadeira e a intenção poderia até ser. Mas o fato ( a ajuda à Grécia ) já tinha sido concretizada? Não e nem de longe. Mas os silenciosos compraram grandes lotes de ação pelo mundo todo forçando pequenos investidores a acreditarem que algo fantástico tinha acontecido. Quando se lê a notícia, nada se mantém em pé. Não existe nada para justificar de forma sólida a pequena subida nas bolas. Diga-se de passagem, foi pequena, mas durante o dia o Ibovespa subiu 4%, fechando em 2,5%. Os mesmos silenciosos plantaram no final do dia a idéia de que as palavras do presidente da União Européia não eram tão boas. E as bolsas caíram.

Então veio o presidente do FED Ben Bernanke para seu discurso sobre a situação da economia americana. Ele foi “o escolhido”. Sim, iria falar o homem que daria rumo ao cenário. Ele tem o poder com suas palavras de acalentar e direcionar o pensamento do mercado. O senhor Ben Bernanke é um homem de se admirar, pelos seus estudos e coragem. O problema não é Ben Bernanke, mas os silenciosos inocentes. Escolheram o presidente do FED e de cara, na primeira frase saíram comprando e inflando os preços das bolsas no mundo. Uma bela guinada para as bolsas, sorrisos e correria para fechar negócios. Mas de repente, uma hora após o discurso, os silenciosos inocentes inverteram novamente a história, se perguntando se os dados do discurso eram bons ou não. Será que os empregos vão melhorar? Será que o montante financeiro do tesouro americano é suficiente?


O presidente do FED não tem culpa desse sobe e desce e nem deveria ter esse poder. O poder das palavras relatando intenção é rojão sem pólvora. Quando criança, adultos sempre davam para as crianças brincarem, rojões já queimados e vazios. A brincadeira era imitar os adultos soltando rojões, brincando de polícia e ladrão e brincando de lutas de espadas. Mas tudo era vazio, sem pólvora. As palavras de Ben Bernanke são intenções, e como tal, são rojões que não estouram, pois já estouraram antes. O que aconteceu com 800 bilhões de dólares? Foi para o mercado financeiro ajudar os silenciosos inocentes. O nível de emprego que é o principal responsável por fazer a roda girar até piorou em relação ao fundo da crise. Então não dá para acreditar que o presidente do FED tem esse poder todo.

E na Europa, será que só nessa semana é que a Grécia mostrou que estava ruim? A Espanha também só ficou mal nessa semana, mas que azar do mundo. Junto com Portugal, os três países estão sofrendo ataques especulativos gigantes dos silenciosos inocentes. Se meu texto (“o silêncio dos inocentes”) for relido, percebe-se que nele os alertas foram claros pelos atos do presidente Obama. Ao taxar os bancos financeiros ele tinha que prestar a atenção nos movimentos, pois o jogo ia ser duro. E está sendo, pois os relatórios de recomendação “surpreendentemente” mudaram de rumo. E coincidentemente foi depois do “aperto” do governo americano. Diga-se de passagem, o presidente Obama está certo, errando apenas no “timing” que deveria ser um ano antes. Sim, durante a crise, quando as bolsas ainda estavam em baixa, o poder do presidente era total. Isso porque ainda com dívidas, os bancos não poderiam articular contra a taxação. Isso faria suas ações perderem ainda mais o valor. Então com a subida das bolsas já reguladas e com apertos, todos iriam cumprir o plano do FED e do tesouro americano e Europeu. Os relatórios de recomendação com certeza seriam outros, indicando compras e compras até o final desse ano.

Percebendo que o rojão está no chão e que não há mais poder de queimar, os silenciosos voltaram para a mesma estratégia. Os termos usados nos relatórios de recomendação são: “um período de volatilidade está instalado para alguns meses”. Leia-se de outra forma: “Sabendo que os governos ainda estão no chão e nós estamos de pé, se preparem, pois nós queremos muito brincar com os investidores”.

 

 

 

 

 


 

Quinta-feira, 11 de fevereiro, 2010